Saúde

Nanopartículas de Azul da Prússia mostram potencial para bloquear morte celular inflamatória após infarto
A lesão de isquemia-reperfusão do miocárdio ocorre quando o retorno do fluxo sanguíneo — essencial para salvar o tecido cardíaco — desencadeia uma cascata inflamatória que paradoxalmente amplia o dano. Até agora, estratégias...
Por Laercio Damasceno - 27/02/2026


Nanopartículas Revestidas com Membrana Plaquetária Permitem Agente Disruptor Vascular Combinando Fármacos Antiangiogênicos para Melhorar o Comprometimento de Vasos Tumorais


Um estudo publicado nesta sexta-feira (27), na revista Nature Communications, descreve uma estratégia experimental que pode redefinir o tratamento da lesão cardíaca causada pela reabertura de artérias obstruídas após um infarto. Pesquisadores da Shanghai Jiao Tong University School of Medicine demonstraram que nanopartículas de azul da Prússia, revestidas com membranas de plaquetas, são capazes de bloquear simultaneamente três vias de morte celular inflamatória envolvidas na lesão de isquemia-reperfusão do miocárdio.

O trabalho, liderado por Lingling Xu, Lixian Jiang e Rongrong Wu, com supervisão de Bo Li, Xiaojun Cai e Yuanyi Zheng, identificou a chamada PANoptose como um eixo central de destruição celular após o restabelecimento do fluxo sanguíneo no coração infartado. O estudo foi aceito para publicação em fevereiro de 2026.

Um alvo mais amplo para um problema complexo

A lesão de isquemia-reperfusão do miocárdio ocorre quando o retorno do fluxo sanguíneo — essencial para salvar o tecido cardíaco — desencadeia uma cascata inflamatória que paradoxalmente amplia o dano. Até agora, estratégias terapêuticas focaram isoladamente em apoptose, necroptose ou piroptose. O novo estudo argumenta que isso é insuficiente.

“A PANoptose integra componentes moleculares das três principais vias de morte celular programada. Bloquear apenas uma delas permite que as outras compensem”, afirmam os autores no artigo.

Analisando amostras cardíacas humanas por sequenciamento de núcleo único, a equipe demonstrou que cardiomiócitos em áreas isquêmicas apresentavam ativação simultânea das três vias. Genes associados a complexos PANoptossômicos — incluindo RIPK1, ZBP1 e AIM2 — estavam significativamente aumentados nas regiões afetadas.

Simulações moleculares e validação experimental

Utilizando simulações de dinâmica molecular, os pesquisadores mostraram que nanopartículas de azul da Prússia se ligam com alta afinidade a proteínas centrais dos complexos PANoptossômicos, como RIPK1, ZBP1 e AIM2. A energia de interação calculada indicou forte associação eletrostática, especialmente com o domínio HIN da AIM2.

Em modelos murinos de infarto com reperfusão, as nanopartículas revestidas com membrana plaquetária (PB@PM) apresentaram maior acúmulo no tecido cardíaco lesionado e permaneceram por mais de 24 horas na região isquêmica. O revestimento biomimético, segundo os autores, melhora o direcionamento ao local da inflamação.

Animais tratados com PB@PM apresentaram melhora significativa da fração de ejeção ventricular esquerda após 14 e 28 dias, além de redução da área de infarto e menor deposição fibrótica.

Modelo murino de isquemia miocárdica

Bloqueio simultâneo das três vias

Análises transcriptômicas em larga escala revelaram que o tratamento reduziu a expressão de genes ligados à piroptose, apoptose e necroptose. Ensaios de Western blot confirmaram a queda nos níveis de caspase-1, caspase-8, RIPK3, MLKL fosforilado e GSDMD clivada — marcadores-chave das três vias.

Além do efeito direto sobre os complexos PANoptossômicos, as nanopartículas demonstraram capacidade antioxidante robusta, reduzindo espécies reativas de oxigênio e restaurando a função mitocondrial. “Identificamos um duplo mecanismo: inibição direta dos complexos de morte celular e neutralização do estresse oxidativo que os ativa”, descrevem os autores.

O tratamento também modulou o ambiente imunológico, reduzindo marcadores pró-inflamatórios como TNF-? e IL-1B e aumentando citocinas anti-inflamatórias como IL-10.

O azul da Prússia já é aprovado pela agência reguladora dos Estados Unidos como antídoto para intoxicação por tálio, o que pode acelerar futuros estudos translacionais. No entanto, os autores reconhecem que ainda são necessários testes em modelos animais de maior porte e avaliações farmacocinéticas detalhadas antes de qualquer aplicação clínica.

Nanoparticula azul da Prússia

Especialistas não envolvidos no estudo observam que a abordagem é promissora por atacar a interconectividade das vias de morte celular. “Se os resultados se confirmarem em humanos, pode representar uma mudança de paradigma no tratamento pós-infarto”, afirma o artigo.

Ao integrar análise de amostras humanas, modelagem computacional, experimentação animal e validação molecular, o estudo estabelece um dos retratos mais abrangentes até agora da PANoptose em doença cardiovascular — e sugere que a nanotecnologia pode abrir caminho para terapias multitarget em cardiologia.


Referência
Xu, L., Jiang, L., Wu, R. et al. Nanopartículas de azul da Prússia direcionadas à PANoptose mediada por múltiplos PANoptossomas para terapia de lesão de isquemia-reperfusão miocárdica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70012-2

 

.
.

Leia mais a seguir