Terapia intensiva não acelera recuperação após lesão medular, aponta estudo de fase 3
Maior ensaio clínico já realizado na área conclui que 10 semanas de treino motor adicional não trouxeram ganhos neurológicos significativos; pesquisadores questionam a crença de que 'mais é melhor' na reabilitação

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Um dos pilares da reabilitação de pessoas com lesão medular — a ideia de que quanto mais treino físico intensivo, melhor a recuperação — acaba de sofrer um duro revés científico.
Um ensaio clínico de fase 3 publicado neste domingo (1), na The Lancet Neurology, concluiu que adicionar 12 horas semanais de treino motor intensivo por 10 semanas ao tratamento padrão não melhorou a recuperação neurológica de pacientes com lesão medular recente.
O estudo, conduzido em 15 hospitais de cinco países e coordenado pela University of Sydney, é descrito pelos autores como o maior já realizado para testar uma intervenção de reabilitação em pessoas com lesão medular recente.
“Não encontramos benefício clínico significativo”, afirmou a pesquisadora principal, professora Lisa Harvey, do John Walsh Centre for Rehabilitation Research, na Austrália. “Os resultados não sustentam a crença de que acrescentar mais treino intensivo ao que já é oferecido na reabilitação hospitalar melhore a recuperação neurológica.”
O que o estudo investigou
O chamado SCI-MT Trial (Spinal Cord Injury Motor Training) recrutou 220 pacientes com lesão medular ocorrida até 10 semanas antes da inclusão no estudo.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
Grupo controle (111 pacientes): recebeu reabilitação hospitalar padrão.
Grupo intervenção (109 pacientes): recebeu reabilitação padrão mais 12 horas semanais adicionais de treino motor intensivo, focado em músculos abaixo do nível da lesão, durante 10 semanas.
O desfecho principal foi a pontuação motora total (0 a 100 pontos) da Classificação Internacional para Lesão Medular, medida após 10 semanas.
Resultados: diferença estatisticamente nula
Após 10 semanas:
Grupo controle: média de 78,76 pontos (DP 17,34)
Grupo intervenção: média de 78,36 pontos (DP 17,00)
A diferença média entre os grupos foi de 0,93 ponto (IC 95%: –1,63 a 3,48; p=0,48).
Ou seja, sem significância estatística e sem relevância clínica.
O estudo foi dimensionado para detectar uma diferença mínima de 6 pontos — considerada clinicamente importante por especialistas internacionais. O ganho observado ficou muito abaixo disso.
Também não houve diferenças significativas em força de membros superiores e inferiores; capacidade de marcha (WISCI-II); independência funcional (SCIM-III) e qualidade de vida global; tempo até a alta hospitalar.

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Aos seis meses, os resultados continuavam semelhantes entre os grupos.
Eventos adversos e segurança
Quatro eventos adversos graves foram registrados: três no grupo intervenção; um no grupo controle e duas mortes ocorreram no grupo intervenção.
Segundo os investigadores, apenas um caso — um hematoma em membro inferior — foi considerado possivelmente relacionado à intervenção, mas não ficou claro se houve relação com o óbito.
Desafiando uma crença consolidada
A hipótese testada no estudo deriva de pesquisas em modelos animais que mostram plasticidade neural dependente de atividade repetitiva. Diretrizes clínicas, inclusive do NICE britânico, recomendam programas intensivos de reabilitação — embora baseadas sobretudo em opinião de especialistas, não em evidência robusta.
“O campo assumiu que mais prática de movimentos abaixo do nível da lesão necessariamente levaria a melhores resultados”, escreveram os autores. “Nosso estudo não confirma essa suposição.”
Segundo os dados coletados, os pacientes do grupo intervenção realizaram mediana de 177,7 horas totais de terapia ao longo das 10 semanas (incluindo cuidado padrão), contra 83 horas no grupo controle. Ainda assim, os desfechos foram praticamente idênticos.
Uma possível exceção psicológica
Houve apenas uma diferença estatisticamente significativa: pequena melhora no domínio psicológico da qualidade de vida (WHOQOL-BREF) após 10 semanas no grupo intervenção.
Os autores sugerem que o benefício pode refletir a percepção dos pacientes de que estavam recebendo “o máximo possível” de tratamento — algo culturalmente valorizado na reabilitação.
Mas alertam que o efeito pode ser espúrio, resultado de múltiplas comparações estatísticas.
Referência
Segurança e eficácia do treinamento intensivo específico para tarefas em pessoas com lesão medular recente: um ensaio clínico de fase 3, pragmático, randomizado, com avaliação cega e de superioridade. Neurologia da LancetVol. 25 No. 3 p234 Publicado: março de 2026. Joana V Glinsky, Jackie Chu, Christine Rimmer, Sharon Roberts, Giorgio Scivoletto, Federica Tamburellae outros. DOI: 10.1016/S1474-4422(26)00010-4Link externo