Estudo com eletrodos intracranianos mostra que ritmo cerebral 'theta' é crucial para formar lembranças — mas pode não ser necessário para recuperá-las

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Um estudo publicado na revista eLife lança nova luz sobre um dos pilares da neurociência da memória — e desafia uma suposição central que guiou pesquisas por décadas. Ao bloquear quimicamente o sistema colinérgico em pacientes com eletrodos implantados no cérebro, pesquisadores demonstraram que o ritmo elétrico conhecido como “theta” no hipocampo é essencial para a formação de memórias, mas pode não ser indispensável para sua recuperação.
A pesquisa, liderada por Tamara Gedankien e colegas da Columbia University e da University of Texas Southwestern Medical Center, foi publicada sob o título “Cholinergic blockade reveals a role for human hippocampal theta in memory encoding but not retrieval”. O trabalho utilizou escopolamina — um antagonista muscarínico que bloqueia a ação da acetilcolina — para investigar como a modulação química afeta circuitos humanos da memória em tempo real.
“Replicamos evidências comportamentais anteriores mostrando que o bloqueio colinérgico prejudica a memória quando ocorre durante a codificação, mas não quando restrito apenas à recuperação”, afirmam os autores no artigo.
Experimento raro em humanos
Doze pacientes com epilepsia, submetidos a monitoramento intracraniano para fins cirúrgicos, participaram do estudo. Com eletrodos implantados no hipocampo e no córtex entorrinal, os pesquisadores registraram sinais elétricos enquanto os voluntários realizavam uma tarefa de reconhecimento associativo de pares de palavras.
O desenho experimental foi duplo-cego e controlado por placebo. Em diferentes blocos da tarefa, os participantes recebiam uma injeção intravenosa de escopolamina ou solução salina.
Os resultados comportamentais foram claros:
Quando a droga estava presente durante a codificação, houve queda significativa no desempenho de memória (p = 3,91 × 10-3).
Quando o bloqueio colinérgico ocorreu apenas na fase de recuperação, não houve prejuízo estatisticamente significativo (p = 0,15).
O impacto foi seletivo para memórias baseadas em recordação detalhada (recollection) (p = 6,5 × 10-3), sem efeito relevante sobre familiaridade ou detecção de novidade.
Além disso, o efeito foi dependente da dose: quanto maior a quantidade de escopolamina administrada, maior a redução de desempenho (r = - 0,80; p = 0,01).
Ritmo theta é afetado — mesmo sem falha comportamental
Se o comportamento parecia intacto durante a recuperação sob efeito da droga, os registros cerebrais contaram outra história.
Os pesquisadores observaram reduções significativas na potência das oscilações lentas theta (2–4 Hz) no hipocampo durante a recuperação, mesmo quando o desempenho dos pacientes permanecia normal (p < 0,005 em modelos mistos). Também houve prejuízo no chamado phase reset — o alinhamento temporal das oscilações — e na reinstalação de padrões espectrais entre codificação e recuperação (p =10-6).
“Esses achados desafiam a noção de que as oscilações theta são necessárias para a recuperação da memória”, escrevem os autores. “Em vez disso, sugerem que o theta reflete um estado neural relacionado à codificação.”

Implicações para Alzheimer
A disfunção colinérgica é uma das marcas registradas da Alzheimer's disease e de outros distúrbios da memória. Medicamentos atualmente utilizados nesses quadros atuam justamente aumentando a disponibilidade de acetilcolina.
Segundo os autores, compreender como a modulação colinérgica altera ritmos neurais específicos pode orientar terapias futuras mais precisas.
“O sistema colinérgico parece sustentar processos associativos no lobo temporal medial”, afirmam os pesquisadores. “Nossos dados indicam que o theta pode representar um modo de codificação reengajado durante a recuperação para atualização ou reconsolidação da memória.”
Uma revisão de paradigma
Modelos teóricos anteriores propunham que a acetilcolina alternaria o hipocampo entre estados de codificação e recuperação, regulados por fases distintas do ritmo theta. O novo estudo sugere algo mais sutil: o theta observado durante a recuperação pode não refletir um mecanismo exclusivo de lembrança, mas sim a reativação de um estado de codificação.
Essa distinção é crucial.
Se confirmado por estudos futuros, o trabalho implica que a recuperação de memórias pode depender de sistemas redundantes distribuídos no cérebro, enquanto a formação inicial das lembranças permanece fortemente dependente da modulação colinérgica do hipocampo.
Em termos práticos, isso significa que intervenções terapêuticas focadas em ritmos cerebrais — como estimulação elétrica ou farmacologia direcionada — podem precisar diferenciar com precisão entre mecanismos de acesso à memória e processos de atualização e reconsolidação.
Em um campo onde muitos conceitos pareciam consolidados, o estudo reacende uma questão central: quando lembramos, estamos apenas acessando o passado — ou reescrevendo-o?
Referência
Tamara GedankienJennifer KriegelErfan ZabehDavid McDonaghBradley LegaJosué Jacobs2025 O bloqueio colinérgico revela um papel para a atividade teta do hipocampo humano na codificação da memória, mas não na recuperação (eLife 14 : RP108972). https://doi.org/ 10.7554/eLife.108972.2