Saúde

Exame de DNA no sangue antecipa infecções graves em crianças com leucemia, aponta estudo
Sequenciamento genético detecta patógenos até três dias antes do diagnóstico clínico e pode abrir caminho para terapias preventivas em pacientes imunossuprimidos
Por Laercio Damasceno - 02/03/2026


Domínio público


Um exame capaz de rastrear fragmentos de DNA microbiano circulando no plasma conseguiu prever infecções graves na corrente sanguínea dias antes do surgimento de febre ou sinais clínicos em crianças e adolescentes com leucemia submetidos a quimioterapia intensiva.

Os resultados, publicados neste domingo (1) na revista The Lancet Microbe, indicam que o sequenciamento metagenômico de DNA microbiano livre de células (mcfDNA-Seq) identificou corretamente o patógeno responsável em cerca de metade dos episódios avaliados até três dias antes do diagnóstico convencional por hemocultura.

O estudo prospectivo acompanhou 158 pacientes com menos de 25 anos tratados no St. Jude Children's Research Hospital, entre 2017 e 2022. No período, foram registradas 94 infecções de corrente sanguínea com amostras analisáveis.

A sensibilidade preditiva consolidada do teste — ou seja, sua capacidade de detectar antecipadamente o microrganismo que causaria a infecção — foi de 51,9% (IC 95%: 40,5–63,1) nos três dias que antecederam o diagnóstico. No momento do diagnóstico ou no dia seguinte, a sensibilidade subiu para 81,3%.

“Demonstramos que o mcfDNA-Seq pode detectar patógenos causadores de infecção antes do início clínico em uma proporção substancial dos casos”, afirmou o infectologista Joshua Wolf, pesquisador do St. Jude e autor correspondente do estudo. “Isso sugere que podemos intervir mais cedo em um grupo extremamente vulnerável.”

Alto risco e mortalidade

Crianças com leucemia submetidas a quimioterapia mielossupressora ou transplante de células hematopoéticas apresentam risco elevado de sepse e morte por infecção. Segundo os autores, mais de 25% das mortes nessa população são atribuídas a infecções.


Embora a profilaxia antibiótica reduza o risco de bacteremia em cerca de 50%, ela também pode estimular resistência bacteriana e infecções de escape. O novo teste, segundo os pesquisadores, poderia sustentar uma estratégia alternativa: tratar apenas pacientes com sinais moleculares precoces de infecção iminente.

Especificidade e falsos positivos

O estudo também avaliou a especificidade — a capacidade do teste de não indicar infecção em pacientes saudáveis no momento da coleta. Entre 162 amostras de controle, a especificidade foi de 82,7%, chegando a 93,8% quando os pesquisadores aplicaram um ponto de corte mais alto de concentração de DNA (?140 moléculas por microlitro) e restringiram a análise a patógenos comuns.

Os autores observaram que falsos positivos estavam associados principalmente a distúrbios gastrointestinais ou uso recente de altas doses de citarabina, droga frequentemente empregada no tratamento da leucemia mieloide aguda.

“Nem todo DNA bacteriano detectado representa infecção ativa ou iminente”, alertam os pesquisadores no artigo. “Pacientes com lesão da barreira intestinal podem apresentar translocação de DNA microbiano sem doença clínica.”

Variações entre subgrupos

A sensibilidade foi significativamente maior em pacientes com leucemia linfoblástica aguda do que naqueles com leucemia mieloide aguda (odds ratio ajustado de 11,1). Já em infecções polimicrobianas — quando mais de um microrganismo é identificado na hemocultura — o desempenho caiu de forma expressiva.

A análise temporal mostrou que a capacidade de detecção aumentava progressivamente à medida que o dia do diagnóstico se aproximava, sendo mais baixa sete dias antes do evento.

Próximo passo: ensaios clínicos

O estudo foi financiado pelo National Cancer Institute, pela American Lebanese Syrian Associated Charities e contou com apoio técnico da empresa Karius, responsável pelo processamento laboratorial.

Embora os resultados superem o limiar de sensibilidade previamente estabelecido pelos próprios autores (50%), os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários ensaios clínicos intervencionais para testar se a estratégia de terapia antimicrobiana preemptiva baseada no mcfDNA-Seq realmente reduz mortalidade, sepse grave ou internações prolongadas.

“Estamos diante da possibilidade de uma mudança de paradigma”, escreveram os autores. “Mas a implementação clínica exige validação cuidadosa, avaliação de custo-benefício e forte supervisão em uso racional de antimicrobianos.”


Se confirmada em estudos futuros, a tecnologia poderá redefinir o manejo de infecções em pacientes imunossuprimidos — antecipando o combate a patógenos antes que a febre soe o alarme.


Referência
Previsão de infecção da corrente sanguínea por sequenciamento metagenômico livre de células plasmáticas: um estudo de coorte prospectivo. The Lancet Microbe. Publicado em: 1 de março de 2026. Joshua Wolf, Kathryn P Goggin, Yuki Inaba, Kim J Allison, Asim A Ahmed, Gabriela Marone outros. DOI: 10.1016/j.lanmic.2025.101312Link externo

 

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