Saúde

Meta-análise global revela que mulheres vulneráveis têm até cinco vezes mais risco de câncer de colo do útero
Estudo publicado na Nature Communications analisou 127 pesquisas e aponta falhas persistentes em vacinação e rastreamento; especialistas pedem estratégias direcionadas para populações negligenciadas
Por Laercio Damasceno - 02/03/2026


Domínio público


Um amplo estudo internacional publicado nesta segunda-feira, (2), na revista científica Nature Communications, concluiu que mulheres em situação de vulnerabilidade social e clínica enfrentam risco significativamente maior de desenvolver câncer de colo do útero e lesões cervicais de alto grau — condições potencialmente precursoras da doença.

A revisão sistemática e meta-análise, conduzida por pesquisadores da Université Bourgogne Europe, da University of Tartu e do McGill University Health Centre, avaliou 127 estudos realizados em países de alta e média-alta renda. O trabalho identificou que mulheres consideradas vulneráveis apresentaram risco 2,78 vezes maior de câncer de colo do útero (RR 2,78; IC 95% 2,32–3,32) e 2,5 vezes maior de lesões cervicais de alto grau (RR 2,5; IC 95% 2,05–3,04) em comparação com a população feminina geral.

“Mesmo em países com infraestrutura robusta de rastreamento e vacinação contra o HPV, os benefícios não estão sendo distribuídos de forma equitativa”, afirmou o pesquisador principal, Amir Hassine, em comunicado divulgado com o artigo.

HIV, sistema prisional e uso de substâncias concentram maior risco

Entre os subgrupos analisados, mulheres vivendo com HIV apresentaram o maior risco relativo de câncer de colo do útero: cinco vezes maior que o da população geral (RR 5,02; IC 95% 4,05–6,21). Mulheres privadas de liberdade (RR 3,01) e aquelas com transtornos por uso de substâncias (RR 2,75) também registraram elevações expressivas.

Para lesões de alto grau, trabalhadoras do sexo, mulheres com HIV e mulheres encarceradas figuraram entre os grupos mais afetados, com riscos entre três e quatro vezes superiores.

“Esses resultados sugerem que a progressão de lesões pré-cancerosas para câncer invasivo não depende apenas de fatores biológicos, mas também de desigualdades no acesso ao rastreamento, diagnóstico precoce e tratamento adequado”, escreveram os autores.


O estudo também encontrou aumento significativo — ainda que mais moderado — entre mulheres migrantes (RR 1,43 para câncer; RR 1,68 para lesões), mulheres de baixo nível socioeconômico (RR 1,12 para câncer) e mulheres com transtornos mentais (RR 1,37).

Desigualdades persistentes

O câncer de colo do útero é amplamente prevenível por meio da vacinação contra o HPV e de programas de rastreamento. Ainda assim, causa cerca de 300 mil mortes por ano no mundo, segundo dados citados no artigo.

Os autores destacam que 92% dos estudos sobre câncer incluídos na análise foram conduzidos em países de alta renda, indicando que a desigualdade observada não se deve apenas à falta de recursos, mas a barreiras estruturais e sociais persistentes.

“O conceito de vulnerabilidade ainda é pouco padronizado na literatura científica”, afirmou Marc Bardou, coautor e pesquisador da Université Bourgogne Europe. “Sem uma definição clara e dados consolidados, políticas públicas tendem a falhar justamente onde são mais necessárias.”

Barreiras estruturais e falhas no acompanhamento

Segundo a análise, fatores como baixa cobertura vacinal, menor adesão ao rastreamento, perda de seguimento após exames alterados e barreiras culturais ou institucionais contribuem para o risco ampliado.

No caso de mulheres migrantes, por exemplo, o risco variou de acordo com o país de origem e o tempo de residência no país anfitrião. Já entre mulheres com transtornos mentais, os autores apontam possíveis impactos da menor participação em programas preventivos e maior prevalência de fatores de risco associados.

A meta-análise também identificou alta heterogeneidade entre os estudos (I² superior a 98% em alguns desfechos) e indícios de viés de publicação, o que sugere cautela na interpretação dos valores absolutos — mas não altera a direção consistente do achado principal: todos os grupos vulneráveis apresentaram risco superior ao da população geral.

Os pesquisadores defendem estratégias direcionadas, como ampliação do uso de autotestes para HPV, unidades móveis de rastreamento, agentes comunitários de saúde e sistemas ativos de busca para reduzir perdas no acompanhamento.

Eles citam ainda a necessidade de políticas que incorporem índices de vulnerabilidade social nos programas de rastreamento, além de abordagens integradas que combinem vacinação e testagem — como a estratégia conhecida como HPV-Faster.

“Se quisermos cumprir as metas globais de eliminação do câncer de colo do útero, precisamos ir além da oferta universal e enfrentar as desigualdades estruturais que deixam milhões de mulheres para trás”, concluem os autores.

O protocolo do estudo foi registrado na base internacional PROSPERO (CRD42024535331), e os dados completos estão disponíveis em repositório público.


Referência
Hassine, A., Tisler, A., Martel, M. et al. Risco de câncer cervical e lesões de alto grau em mulheres vulneráveis: uma revisão sistemática e meta-análise. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70050-w

 

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