Calor acima da média eleva risco de desnutrição infantil no Brasil, aponta estudo com 6,5 milhões de crianças
Pesquisa publicada na The Lancet Planetary Health revela que cada aumento de 1°C está associado a até 10% mais chances de baixo peso; impacto é maior no Norte, Nordeste e entre populações vulneráveis

Mãe e seus três filhos na Bahia. Foto de Bernard Foubert/ Photononstp/ AFP
Por anos, o Brasil foi citado como exemplo de redução consistente da desnutrição infantil. Agora, um amplo estudo nacional sugere que a elevação das temperaturas pode ameaçar parte desses avanços — sobretudo entre as crianças mais pobres.
Publicada nesta semana nesta terça-feira (3), na The Lancet Planetary Health, a pesquisa analisou dados de 6.498.546 crianças de 12 a 59 meses acompanhadas entre 2008 e 2017 em todos os 5.570 municípios do país. O estudo identificou que, para cada aumento de 1°C acima da mediana anual de 26°C, as chances acumuladas de desnutrição cresceram significativamente ao longo de até 52 semanas.
O risco de baixo peso para a idade aumentou 10% (OR 1,10; IC 95% 1,099–1,103), enquanto os casos de emagrecimento agudo (baixo peso para altura) e baixa estatura para idade cresceram 8% (OR 1,08 em ambos os casos).
“Observamos que temperaturas mais altas estão associadas a piores indicadores nutricionais infantis, tanto em formas agudas quanto crônicas de desnutrição”, afirmou a pesquisadora Rita de Cássia Ribeiro-Silva, da Universidade Federal da Bahia, autora correspondente do estudo. “O impacto não é distribuído igualmente — ele recai de maneira mais intensa sobre populações já vulneráveis.”
Norte e Nordeste concentram maior risco
A análise estratificada revelou desigualdades marcantes. No Norte, o aumento de 1°C esteve associado a uma elevação de 21% nas chances de baixo peso. No Nordeste, o aumento foi de 12%. Municípios com maior índice de privação socioeconômica também registraram riscos mais elevados.
Crianças que vivem em áreas rurais apresentaram maior vulnerabilidade, especialmente para baixo peso e baixa estatura. Entre filhos de mães indígenas, o risco associado ao calor foi ainda mais acentuado.
Segundo os autores, esses achados refletem a interação entre estresse térmico e desigualdades estruturais.
“O calor extremo pode reduzir o apetite, aumentar episódios de diarreia e prejudicar a absorção de nutrientes no curto prazo”, explicou Maurício L. Barreto, também da Fundação Oswaldo Cruz. “Mas há também efeitos indiretos, como perdas agrícolas e aumento do preço dos alimentos, que afetam a segurança alimentar ao longo do tempo.”

Figura . Associação entre a temperatura ambiente e os resultados nutricionais infantis por defasagem (semana) no Brasil, 2007–17.
As análises estratificadas destacaram que a magnitude da associação variou de acordo com as características geográficas, socioeconômicas e demográficas. Para baixo peso, as razões de chances (OR) foram maiores no Norte (OR 1,21 [IC 95% 1,19–1,23]) e no Nordeste (OR 1,12 [1,11–1,12]), e entre crianças cujas mães se autodeclararam indígenas (OR: 1,14 [1,14–1,16]), aquelas que viviam em áreas rurais (OR 1,14 [1,14–1,15]) e aquelas de municípios com maior índice de privação (OR 1,13 [1,13–1,13]). Para a desnutrição aguda, as razões de chances (ORs) foram maiores no Centro-Oeste (OR 1,07 [IC 95% 1,05–1,08]), entre crianças de mães indígenas (OR 1,10 [1,07–1,12]), residentes em áreas urbanas (OR 1,08 [1,08–1,08]) e de municípios com maior índice de privação (OR 1,06 [1,06–1,06]). Para o atraso no crescimento, as ORs foram mais elevadas no Norte (OR 1,21 [IC 95% 1,19–1,22]), naqueles cujas mães se autoidentificaram como Parda (OR 1,08 [1,08–1,08])...
Efeitos imediatos e prolongados
O estudo utilizou modelos estatísticos de defasagem distribuída para avaliar tanto impactos imediatos quanto cumulativos da temperatura. Para baixo peso e emagrecimento agudo, os efeitos foram mais intensos nas primeiras semanas após a exposição ao calor. Já a baixa estatura — marcador de desnutrição crônica — apresentou associação mais tardia, compatível com processos prolongados de privação nutricional.
Os pesquisadores utilizaram dados do sistema nacional de vigilância alimentar e os vincularam à Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros, que reúne principalmente famílias inscritas em programas de assistência social.
O Brasil já enfrenta um cenário preocupante: cerca de 12% das crianças menores de cinco anos apresentam déficit de estatura, e aproximadamente 36,7% dos domicílios convivem com algum grau de insegurança alimentar.
Justiça ambiental e mudanças climáticas
Para os autores, os resultados expõem uma dimensão de “injustiça ambiental”.
“As populações que menos contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa são justamente as que sofrem as consequências mais severas”, disse Ribeiro-Silva. “Temperatura e desigualdade interagem, aprofundando vulnerabilidades históricas.”
O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Ministério da Saúde e pela Wellcome Trust.
Embora os pesquisadores ressaltem que o desenho observacional não permite estabelecer causalidade definitiva, a consistência dos resultados em diferentes análises de sensibilidade reforça a robustez dos achados.
Diante da intensificação das mudanças climáticas, os autores defendem políticas integradas que combinem adaptação climática e combate à pobreza.
“Proteger a nutrição infantil em um mundo mais quente exigirá fortalecer redes de proteção social, ampliar o acesso à saúde e garantir segurança alimentar”, afirmou Barreto. “Sem isso, o progresso das últimas décadas pode ser revertido.”
Referência
Temperatura ambiente e estado nutricional de mais de 6 milhões de crianças no Brasil: um estudo de coorte. A revista The Lancet sobre saúde planetária. Publicado em: 3 de março de 2026. Rita de Cássia Ribeiro-Silva, Lisianne Passos Luz, Laís Silva Sacramento, Taísa Rodrigues Cortes, Lais Helena Leandro Ribeiro, Maxine Peppere outros. DOI: 10.1016/j.lanplh.2026.101428