Brasil revela mapa genético inédito do câncer de pulmão e aponta desigualdades no acesso a terapias-alvo
Estudo com 1.131 pacientes mostra que 88% dos tumores têm alterações oncogênicas; mutações em TP53 agravam prognóstico, mas podem orientar decisões terapêuticas

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Um dos maiores retratos já feitos do câncer de pulmão no Brasil revela que a vasta maioria dos pacientes carrega alterações genéticas potencialmente acionáveis — e que o perfil molecular varia de acordo com histórico de tabagismo e ancestralidade genética.
Publicado nesta quarta-feira (4), na The Lancet Regional Health – Americas, o estudo analisou 1.131 pacientes atendidos entre 2018 e 2023 no Hospital de Amor, centro filantrópico de referência nacional vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A pesquisa, liderada por Rui Manuel Reis e Letícia Ferro Leal, combinou sequenciamento genético de nova geração (NGS), análise de fusões gênicas, imunohistoquímica para PD-L1 e marcadores de ancestralidade, produzindo um panorama raro em países de população altamente miscigenada.
“Mostramos que a maioria dos pacientes brasileiros com câncer de pulmão apresenta alterações genômicas potencialmente tratáveis. Isso reforça a necessidade de incorporar o perfil molecular completo na rotina do SUS”,
Monise Tadin Reis coautora da pesquisa

Figura. Distribuição geográfica e análise de ancestralidade dos pacientes. (a) Distribuição por estado e região do Brasil, com base no endereço fornecido no momento do diagnóstico (n = 1131). Os estados sem pacientes estão representados em cinza; (b) Distribuição das proporções de ancestralidade para cada grupo ancestral (n = 941). O eixo X representa cada paciente, enquanto o eixo Y indica a proporção de ancestralidade; (c) Distribuição das proporções de ancestralidade para cada região brasileira, com base no endereço fornecido no momento do diagnóstico (n = 941).
Mutações frequentes e impacto clínico
Alterações oncogênicas foram detectadas em 88% dos pacientes. As mutações mais comuns ocorreram nos genes: TP53 – 58%, KRAS – 25,6%, EGFR – 20,6% e Fusões em ALK – 6,1%
Mais da metade da coorte (58,4%) apresentava mutações classificadas como “TIER I”, ou seja, com terapias-alvo disponíveis.
O gene TP53, conhecido como “guardião do genoma”, destacou-se não apenas pela frequência, mas pelo impacto prognóstico. Pacientes com mutações nesse gene tiveram sobrevida significativamente menor. No entanto, entre os portadores da alteração, a quimioterapia esteve associada a maior sobrevida (15 meses versus 2 meses; p < 0,0001).
“Os dados sugerem que o status de TP53 pode ajudar a orientar estratégias terapêuticas, inclusive na doença com mutação em EGFR”, disse Leal.
Entre pacientes com mutações em EGFR tratados com inibidores de tirosina-quinase (TKIs), a presença concomitante de TP53 reduziu drasticamente a sobrevida específica por câncer (24 meses contra 61 meses; p = 0,003).
Tabagismo e risco de morte
O estudo confirmou o peso do cigarro no prognóstico. Fumantes atuais apresentaram risco 38% maior de morte (HR: 1,38). Pacientes com metástases no sistema nervoso central tiveram risco mais de seis vezes maior (HR: 6,38).
A sobrevida mediana global foi de 20 meses. O pior desempenho funcional (ECOG 2–4) praticamente dobrou o risco de morte (HR: 1,99).
“Mesmo na era da oncologia de precisão, fatores clínicos clássicos continuam sendo determinantes importantes do desfecho”, observam os autores.
Ancestralidade influencia perfil molecular
A pesquisa também incorporou análise de ancestralidade genética em 941 pacientes. A composição média foi: 71,7% europeia, 14,6% africana, 7,4% indígena americana e 6,1% asiática
Maior ancestralidade africana esteve independentemente associada à presença de mutações em TP53 (OR: 1,53). Já mutações em EGFR foram fortemente associadas a pacientes que nunca fumaram (OR: 12,87).
Segundo os pesquisadores, os achados não devem ser interpretados como determinismo biológico, mas como evidência da necessidade de estudos em populações miscigenadas.
“O Brasil é um laboratório natural de diversidade genética. Ignorar isso significa correr o risco de aplicar diretrizes baseadas em populações que não refletem nossa realidade”, afirmou Reis.
Implicações para o SUS
O trabalho foi financiado por programas públicos de pesquisa e prevenção oncológica, incluindo o Ministério Público do Trabalho e o PRONON/MS.
Para os autores, os resultados reforçam a urgência de ampliar o acesso ao diagnóstico molecular abrangente na rede pública.
“A incorporação sistemática do perfil genômico pode reduzir desigualdades regionais e melhorar a alocação de terapias-alvo”, concluem.
Enquanto terapias personalizadas avançam nos grandes centros globais, o estudo brasileiro indica que a medicina de precisão no país dependerá menos da inovação tecnológica — já disponível — e mais da capacidade de torná-la equitativa.
Referência
Caracterização clínica e molecular de uma grande coorte brasileira de câncer de pulmão: um estudo observacional em condições reais de prática clínica. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 56 101429 Publicado: 4 de março de 2026. Rodrigo de Oliveira Cavagna, Flávia Escremim de Paula, Gustavo Noriz Berardinelli, Murilo Bonatelli, Iara Santana, Monise Tadin Reis e outros.
DOI: 10.1016/j.lana.2026.101429