Uso recreativo de gás do riso provoca pico tóxico no sangue que desaparece em poucos dias, revela estudo
Pesquisa com pacientes hospitalizados em Paris mostra que níveis de homocisteína — marcador metabólico ligado à toxicidade do óxido nitroso — despencam rapidamente após a interrupção do consumo, reforçando a urgência de exames precoces para diagnósti

Domínio público
O consumo recreativo de óxido nitroso — conhecido popularmente como “gás do riso” — provoca um aumento abrupto de uma substância tóxica no sangue que pode cair drasticamente em questão de horas após a interrupção do uso. A descoberta, descrita em um estudo publicado nesta quinta-feira (5), na revista Scientific Reports, ajuda médicos a entender melhor como detectar os efeitos biológicos da substância e por que diagnósticos tardios podem mascarar a gravidade da intoxicação.
A pesquisa, conduzida por neurologistas de hospitais universitários da região de Paris, analisou dados de 86 pacientes hospitalizados com comprometimentos neurológicos associados ao uso de óxido nitroso entre 2018 e 2023. Os resultados revelaram que 92% dos pacientes apresentavam níveis anormalmente altos de homocisteína, um marcador metabólico ligado à deficiência funcional de vitamina B12 e à toxicidade induzida pelo gás.
Segundo o neurologista Yachar Dawudi, do Centro Hospitalar de Saint-Denis e autor principal do estudo, a velocidade com que esse marcador desaparece do sangue pode dificultar o diagnóstico.
“Observamos uma queda dramática dos níveis de homocisteína nas primeiras horas após a interrupção do uso do óxido nitroso”, escreveu Dawudi. “Isso significa que a utilidade clínica desse biomarcador depende fortemente da realização do exame muito cedo.”
Um marcador que desaparece rapidamente
O óxido nitroso é amplamente utilizado na medicina como anestésico e analgésico, mas seu uso recreativo vem aumentando em diversos países, especialmente entre jovens. A substância inativa a vitamina B12 ao oxidar o íon de cobalto presente na molécula, bloqueando a enzima metionina sintase — essencial para o metabolismo da homocisteína. O resultado é o acúmulo dessa molécula no sangue.
No estudo, os pacientes tinham idade mediana de 22 anos, e muitos apresentavam sintomas neurológicos graves, incluindo neuropatia periférica e inflamação da medula espinhal. Os níveis medianos de homocisteína alcançaram 69 micromoles por litro, mais de quatro vezes acima do limite considerado normal.
Quando o exame foi realizado nas primeiras oito horas após a admissão hospitalar, os níveis eram ainda mais elevados — mediana de 106 micromoles por litro. A partir daí, os pesquisadores observaram uma queda acelerada nas horas e dias seguintes, com retorno aos níveis normais cerca de uma semana depois.
“Essa dinâmica sugere que resultados aparentemente moderados podem não refletir um consumo baixo, mas simplesmente um atraso na coleta da amostra”, escreveram os autores.
O paradoxo da vitamina B12
Outro achado chamou a atenção da equipe: 80% dos pacientes apresentavam níveis normais de vitamina B12, apesar de sinais claros de intoxicação metabólica.
Isso ocorre porque o gás não necessariamente reduz a quantidade da vitamina no sangue, mas bloqueia sua função bioquímica, tornando-a incapaz de atuar no metabolismo celular.
O estudo também detectou que cerca de 23% dos pacientes já haviam tomado suplementos de vitamina B12 antes da hospitalização, muitas vezes por conta própria. Esses indivíduos apresentaram níveis significativamente menores de homocisteína — cerca da metade dos observados em pacientes sem suplementação.
Para Mickael Bonnan, neurologista do Hospital Henri-Mondor e coautor da pesquisa, esse comportamento adiciona outra camada de complexidade ao diagnóstico.
“A automedicação com vitamina B12 pode alterar os níveis de homocisteína e tornar mais difícil interpretar os resultados laboratoriais”, afirmou Bonnan no estudo.
Alerta crescente de saúde pública
O trabalho reforça preocupações de autoridades de saúde sobre o aumento do consumo recreativo de óxido nitroso, frequentemente vendido em cartuchos usados para sifões culinários.
Casos de complicações neurológicas associadas à substância vêm sendo relatados com maior frequência na Europa e em outras regiões, especialmente entre jovens adultos.
Os pesquisadores afirmam que os resultados podem ajudar médicos a identificar melhor a intoxicação e estabelecer protocolos mais precisos para exames laboratoriais.
“Os marcadores químicos atualmente disponíveis só são úteis por um período limitado após o consumo”, concluíram os autores. “Compreender a dinâmica da homocisteína é fundamental para o manejo clínico de pacientes com intoxicação grave por óxido nitroso.”
Referência
Dawudi, Y., Gendre, T. & Bonnan, M. Declínio rápido do nível elevado de homocisteína no uso de óxido nitroso. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-42078-x