Biópsia do linfonodo sentinela reduz risco de morte por melanoma, aponta grande meta-análise internacional
Revisão sistemática com mais de 40 mil pacientes confirma benefício de sobrevivência e menor recorrência da doença, fortalecendo o papel do procedimento no tratamento inicial do câncer de pele mais agressivo.

Domínio público
Uma das questões mais debatidas na oncologia do melanoma — se a biópsia do linfonodo sentinela realmente aumenta a sobrevivência dos pacientes — ganhou uma resposta mais robusta. Um amplo estudo internacional publicado nesta quinta-feira (5), na revista científica The Lancet Oncology, concluiu que pacientes com melanoma que passam pelo procedimento apresentam um risco significativamente menor de morrer da doença.
A análise, conduzida por pesquisadores do Melanoma Institute Australia e da University of Sydney, revisou décadas de pesquisas e reuniu dados de mais de 40 mil pacientes em 13 estudos comparáveis, incluindo ensaios clínicos e estudos observacionais ajustados. O resultado: a biópsia do linfonodo sentinela foi associada a uma redução de 14% no risco de morte por melanoma.
O trabalho, liderado pelo cirurgião e pesquisador Alexander H. R. Varey, buscou responder uma dúvida persistente na oncologia: o procedimento, amplamente utilizado para estadiamento da doença, também melhora a sobrevivência?
“Esta meta-análise mostra que pacientes que realizaram a biópsia do linfonodo sentinela tiveram risco significativamente menor de morte por melanoma, além de menor chance de recorrência da doença”, escreveram os autores no estudo.
Procedimento simples com impacto potencial
A biópsia do linfonodo sentinela consiste em identificar e remover o primeiro linfonodo para onde células tumorais provavelmente se espalhariam a partir do melanoma primário. O tecido é então analisado para detectar metástases microscópicas.
Por décadas, o procedimento foi valorizado principalmente por melhorar o estadiamento da doença — ajudando médicos a decidir quais pacientes precisam de terapias adicionais. Mas se essa abordagem também aumentava as chances de sobrevivência permaneceu incerto.
Segundo o professor John F. Thompson, cirurgião oncológico e coautor do estudo, o novo trabalho fornece a evidência mais sólida até agora.
“Nossos resultados mostram um benefício real em sobrevivência, além das vantagens já conhecidas de melhor estadiamento e controle regional da doença”, afirmou Thompson, do Melanoma Institute Australia.
Resultados consistentes em grande escala
Os pesquisadores examinaram inicialmente 1.560 registros científicos, dos quais 60 estudos preencheram os critérios para análise detalhada. Após ajustes metodológicos para evitar vieses, 13 estudos com dados comparáveis foram incluídos na meta-análise principal.
Entre os principais achados: redução de 14% no risco de morte por melanoma (hazard ratio 0,86); redução de 16% no risco de morte em cinco anos (HR 0,84) e redução de 29% no risco de recorrência da doença (HR 0,71).
Os resultados também apresentaram baixa heterogeneidade estatística, indicando que os efeitos observados foram consistentes entre os diferentes estudos analisados.
Implicações para a prática clínica
A biópsia do linfonodo sentinela já é considerada um procedimento relativamente simples, de baixo risco e custo moderado. Segundo os autores, a confirmação de um benefício de sobrevivência pode reforçar ainda mais sua adoção em pacientes elegíveis.
Além disso, a identificação precoce de metástases regionais permite iniciar terapias modernas — como imunoterapia ou tratamentos-alvo — em estágios mais iniciais da doença.
“A ampliação do uso da biópsia do linfonodo sentinela pode reduzir a incidência de recorrência e doença avançada, potencialmente diminuindo também os custos do sistema de saúde”, destacam os pesquisadores.
Uma resposta para uma controvérsia de décadas
O debate começou com um grande ensaio clínico iniciado nos anos 1990, que sugeriu um possível benefício de sobrevivência, mas não alcançou significância estatística suficiente para encerrar a discussão.
A nova meta-análise, ao reunir evidências de dezenas de centros e milhares de pacientes ao redor do mundo, oferece o retrato mais completo até agora.
Para especialistas, os resultados podem consolidar definitivamente o papel do procedimento no tratamento do melanoma — o tipo mais agressivo de câncer de pele e responsável pela maioria das mortes associadas à doença.
Referência
Avaliação do benefício de sobrevida da biópsia do linfonodo sentinela para melanoma: uma revisão sistemática e meta-análise
The Lancet OncologyPublicado em: 5 de março de 2026. Alexandre HR Varey, Marie B Weitemeyer, Caroline A Gjorup, Serigne N Lo, Gabrielle J Williams, João F. Thompson. DOI: 10.1016/S1470-2045(26)00026-4