Saúde

Genética ajuda a explicar por que algumas pessoas são mais vulneráveis a micoses de pele
O maior estudo já realizado sobre dermatofitose identifica 30 regiões do DNA ligadas ao risco de infecção e aponta o papel da barreira cutânea, do sistema imunológico e até da obesidade na suscetibilidade à doença
Por Laercio Damasceno - 06/03/2026


Domínio público


Por décadas, médicos observaram um fenômeno aparentemente simples: algumas pessoas contraem micoses de pele repetidamente, enquanto outras parecem quase imunes a essas infecções comuns. Agora, um estudo genético de escala sem precedentes começa a explicar por quê.

Pesquisadores internacionais analisaram dados genéticos de mais de 1,6 milhão de indivíduos e identificaram 30 regiões do genoma humano associadas à suscetibilidade à dermatofitose, um grupo de infecções fúngicas que inclui o popular “tinha” ou “micose de pele”. O estudo, publicado nesta sexta-feira (6), na revista Nature Communications, revela que diferenças genéticas ligadas à estrutura da pele, à resposta imunológica e até ao metabolismo podem influenciar quem desenvolve a infecção. 

A dermatofitose é causada por fungos especializados em consumir queratina, proteína que compõe pele, cabelos e unhas. Embora geralmente superficial, a infecção afeta cerca de 20% da população mundial em algum momento da vida e pode provocar manchas avermelhadas, coceira intensa, queda de cabelo ou alterações nas unhas.

“Sabíamos que fatores ambientais são importantes, mas os componentes genéticos ainda eram pouco compreendidos”, disse a geneticista Hanna M. Ollila, da Universidade de Helsinque e do Hospital Geral de Massachusetts, autora correspondente do estudo. “Ao analisar um conjunto de dados muito maior do que qualquer pesquisa anterior, conseguimos identificar vários mecanismos biológicos que ajudam a explicar por que algumas pessoas são mais suscetíveis às infecções.” 

O maior estudo genético sobre micoses

A equipe reuniu dados de quatro grandes biobancos internacionais: FinnGen, UK Biobank, Estonian Biobank e o Million Veteran Program, nos Estados Unidos. No total, foram analisados 256.822 casos de dermatofitose e mais de 1,37 milhão de indivíduos sem a infecção, permitindo um mapeamento genético detalhado da doença. 

O método utilizado, conhecido como estudo de associação genômica ampla (GWAS), busca variações genéticas que aparecem com mais frequência em pessoas com determinada condição. A análise revelou 30 regiões do genoma associadas ao risco de dermatofitose, várias delas nunca antes relacionadas à doença. 

Entre os genes mais fortemente associados estão ZNF646, HLA-DQB1, FLG, FTO, SLURP2 e KRT77, todos ligados a processos fundamentais na pele ou no sistema imunológico. 

“Os resultados mostram claramente que a integridade da pele e a resposta imune são elementos centrais na defesa contra fungos dermatófitos”, disse Hele Haapaniemi, pesquisadora do Instituto de Medicina Molecular da Finlândia (FIMM) e primeira autora do estudo.

A pele como primeira linha de defesa

Um dos achados mais consistentes envolve genes responsáveis pela produção e organização da queratina, a proteína que forma a estrutura externa da pele.

Os fungos que causam dermatofitose utilizam justamente essa proteína como fonte de energia, colonizando camadas superficiais da pele, do couro cabeludo ou das unhas. Por isso, pequenas alterações genéticas que modificam a estrutura da queratina podem alterar o risco de infecção.

Entre os genes identificados está FLG, responsável pela produção de filagrina, proteína essencial para a formação da camada mais externa da pele, chamada estrato córneo. Essa camada atua como uma barreira física contra microrganismos. 

Segundo os pesquisadores, mutações nesse gene podem comprometer a hidratação da pele e alterar seu pH, facilitando a proliferação de patógenos. Alterações semelhantes também já foram associadas a doenças como dermatite atópica. 

Outro gene identificado, KRT1, codifica uma proteína estrutural essencial para a estabilidade das células da pele. Variações nessa proteína podem modificar a resistência da pele ou alterar a forma como os fungos conseguem degradar a queratina. 

“Como os dermatófitos dependem da queratina para crescer, qualquer mudança genética que altere sua estrutura pode afetar a forma como o fungo coloniza a pele”, explicou Ollila.

Sistema imunológico também é decisivo

O estudo também encontrou fortes sinais genéticos na região do complexo HLA, parte do genoma que desempenha papel central na resposta imunológica.

O gene HLA-DQB1, por exemplo, mostrou associação significativa com a suscetibilidade à infecção. Esse gene participa da apresentação de antígenos a células T, etapa crucial para que o sistema imunológico reconheça e combata microrganismos invasores.

Os pesquisadores também identificaram ligações com genes como IL13 e SH2B3, envolvidos em inflamação, regulação do sistema imune e doenças autoimunes.

Esses resultados reforçam a ideia de que a dermatofitose não depende apenas da exposição ao fungo, mas também da capacidade do organismo de montar uma resposta imunológica eficaz.

Uma ligação inesperada com obesidade

Outro resultado intrigante foi a associação com o gene FTO, conhecido por sua relação com obesidade e índice de massa corporal.

Variações nesse gene já foram amplamente associadas a maior peso corporal. No novo estudo, elas também aparecem relacionadas a maior risco de dermatofitose. 

Os cientistas acreditam que isso pode ocorrer por diferentes motivos. Pessoas com obesidade podem apresentar alterações metabólicas, inflamatórias ou mesmo mudanças na microbiota da pele que favorecem infecções.

Além disso, a análise genética revelou uma correlação significativa entre dermatofitose e índice de massa corporal elevado, sugerindo que fatores metabólicos podem influenciar a vulnerabilidade à infecção. 

Conexões com outras doenças de pele

A pesquisa também identificou sobreposição genética entre dermatofitose e outras doenças cutâneas.

Os dados mostraram correlação genética com infecções bacterianas da pele, escabiose, herpes simples e diversas condições dermatológicas caracterizadas por vermelhidão e coceira. 

Isso sugere que algumas variantes genéticas podem afetar de forma geral a saúde da pele e a eficácia da barreira cutânea, aumentando o risco de múltiplas doenças.

Caminhos para novos tratamentos

Embora os resultados não levem imediatamente a novos medicamentos, os pesquisadores afirmam que o estudo oferece pistas importantes para estratégias de prevenção e tratamento.

Identificar os genes envolvidos na defesa da pele pode ajudar cientistas a desenvolver terapias que fortaleçam a barreira cutânea ou modulam a resposta imunológica contra fungos.

“Essas descobertas fornecem um mapa genético que pode orientar futuras pesquisas sobre terapias direcionadas”, disse Haapaniemi.

A equipe também destaca que estudos funcionais — em células e modelos biológicos — serão necessários para entender exatamente como essas variantes genéticas alteram a biologia da pele.

Um problema global crescente

A dermatofitose é considerada uma das infecções cutâneas mais comuns do planeta, especialmente em regiões quentes e úmidas, onde os fungos proliferam com facilidade.

Fatores como higiene, contato com animais infectados, compartilhamento de objetos pessoais e condições de saúde também influenciam o risco de infecção. 

Agora, com a descoberta de seus principais determinantes genéticos, os cientistas esperam compreender melhor por que a doença afeta certas populações com maior intensidade.

“Nosso estudo mostra que a dermatofitose é resultado de uma interação complexa entre genética, sistema imunológico e fatores ambientais”, disse Ollila. “Entender essa interação é fundamental para reduzir o impacto global dessas infecções comuns, mas frequentemente negligenciadas.” 

No fim, a mensagem da pesquisa é clara: mesmo uma infecção aparentemente banal pode esconder uma história complexa escrita no DNA.


Referência
Haapaniemi, H., Eghtedarian, R., Tervi, A. et al. A base genética da suscetibilidade à infecção cutânea por dermatofitose. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69670-z

 

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