Adolescentes que dormem pouco não são todos iguais, mostra estudo com imagens do cérebro
Pesquisa internacional identifica três perfis neurológicos distintos entre jovens com menos de oito horas de sono — incluindo um grupo geneticamente predisposto a dormir menos sem prejuízos aparentes

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Dormir menos de oito horas por noite durante a adolescência costuma ser tratado como um problema generalizado de saúde. Mas um novo estudo internacional sugere que a realidade é mais complexa: jovens que dormem pouco podem pertencer a perfis biológicos completamente diferentes — alguns com riscos ambientais ou psiquiátricos, e outros simplesmente com uma predisposição genética natural para precisar de menos sono.
A descoberta vem de uma análise inédita de imagens cerebrais publicada neste sábado (7), na revista Nature Communications, conduzida por pesquisadores da Universidade de Zhejiang e do Shanghai Children’s Medical Center, ligado à Shanghai Jiao Tong University School of Medicine. O trabalho analisou dados de mais de 3.200 adolescentes participantes do grande projeto científico norte-americano ABCD Study, que acompanha o desenvolvimento cerebral e comportamental de jovens.
Segundo os autores, a pesquisa identificou três subtipos neurobiológicos distintos de insuficiência de sono, cada um associado a diferentes fatores sociais, ambientais ou genéticos.
“Nosso estudo mostra que o sono insuficiente em adolescentes não é uma condição única”, explicou o engenheiro biomédico Dan Wu, da Universidade de Zhejiang e autor correspondente do artigo. “Existem trajetórias biológicas distintas que exigem abordagens diferentes de prevenção e intervenção.”
O que acontece no cérebro de quem dorme pouco
A equipe analisou exames de ressonância magnética de adolescentes com cerca de 12 anos de idade, combinando essas imagens com medições objetivas de sono registradas por dispositivos Fitbit durante uma semana. Jovens que dormiam menos de oito horas por noite foram classificados como tendo sono insuficiente.
Dos 3.266 participantes analisados, 853 estavam nesse grupo de privação de sono, enquanto 2.413 apresentavam duração considerada adequada.
Comparando os cérebros dos dois grupos, os cientistas encontraram um padrão consistente: adolescentes que dormiam menos apresentavam redução na espessura do córtex cerebral em 28 das 68 regiões analisadas.
A espessura cortical é um indicador importante do desenvolvimento cerebral. Durante a adolescência, mudanças nesse parâmetro refletem processos como poda sináptica e maturação neural — etapas fundamentais para funções cognitivas e emocionais.
Mas quando os pesquisadores aplicaram um modelo estatístico avançado chamado SuStaIn (Subtype and Stage Inference), descobriram que os padrões de alteração cerebral não eram uniformes.
Na verdade, havia três trajetórias distintas de mudanças cerebrais.
Três tipos de privação de sono
Os cientistas classificaram os adolescentes em três subtipos principais, com base nas regiões cerebrais onde as mudanças estruturais surgiam primeiro.
1. Dormidores naturalmente curtos
O primeiro grupo apresentava alterações iniciais no córtex pós-central, uma região ligada ao processamento sensorial. Surpreendentemente, esses adolescentes não exibiam diferenças significativas em comportamento de sono, ambiente doméstico ou saúde mental quando comparados aos jovens que dormiam o tempo recomendado.
Para os pesquisadores, isso indica um grupo de “short sleepers naturais” — pessoas biologicamente predispostas a dormir menos sem prejuízo aparente.
Esse perfil também apresentou maior “idade cerebral”, sugerindo um amadurecimento neural mais avançado, e um maior escore de risco genético para sono curto, reforçando a hipótese de predisposição biológica.
“Esse grupo pode não precisar de intervenção médica”, disse o pediatra Fan Jiang, do Shanghai Children’s Medical Center. “Identificá-los é importante para evitar preocupação ou tratamentos desnecessários.”
2. Privação de sono causada pelo ambiente
O segundo subtipo apresentava alterações no córtex pericalcarino, região do lobo occipital ligada ao processamento visual.
Esses adolescentes estavam expostos a condições ambientais desfavoráveis — incluindo maior poluição luminosa noturna, mais ruído e contextos socioeconômicos menos favorecidos.
Os dados indicam que nesses casos a duração do sono mediava o impacto do ambiente no cérebro. Ou seja, luz artificial e ruído perturbavam o sono, que por sua vez estava associado ao afinamento cortical.
Segundo os autores, isso reforça evidências de que poluição luminosa e urbana pode interferir no desenvolvimento neurológico juvenil.
3. Privação associada a risco psiquiátrico
O terceiro grupo apresentou alterações iniciais no córtex entorrinal, região fundamental para memória e comunicação entre o hipocampo e o neocórtex.
Esse subtipo foi o que apresentou maior associação com problemas de saúde mental, incluindo níveis mais altos de sintomas internalizantes — como ansiedade e depressão — medidos por questionários comportamentais.
Além disso, esses adolescentes mostraram idade cerebral mais jovem, sugerindo atraso no desenvolvimento neural.
Para o médico Guanghai Wang, também autor do estudo, esse perfil pode representar um grupo especialmente vulnerável.
“Alterações nessa região do cérebro são frequentemente associadas a processos cognitivos e emocionais. Isso pode indicar um elo entre privação de sono e transtornos psiquiátricos emergentes na adolescência”, disse Wang.

Domínio público
Um problema global de saúde pública
A privação de sono entre adolescentes é considerada uma preocupação crescente em saúde pública. Estudos anteriores estimam que cerca de um terço da população dorme menos do que o recomendado, enquanto mudanças biológicas da puberdade, estresse acadêmico e uso de tecnologia contribuem para o problema.
Mas o novo estudo sugere que tratar todos os adolescentes com sono curto como um único grupo pode ser um erro.
Ao identificar subtipos distintos — genético, ambiental e psiquiátrico — os pesquisadores acreditam que será possível desenvolver intervenções mais precisas.
Entre elas estão desde melhorias no ambiente de sono, como redução de luz artificial e ruído, até estratégias de monitoramento psicológico para jovens em maior risco.
Caminho para intervenções personalizadas
Os autores ressaltam que o trabalho ainda tem limitações. O modelo usado infere trajetórias de desenvolvimento a partir de dados em grande parte transversais, e os pesquisadores planejam acompanhar os participantes ao longo do tempo para confirmar as mudanças cerebrais observadas.
Mesmo assim, especialistas consideram que o estudo representa um avanço importante na compreensão da relação entre sono e desenvolvimento neural.
“A adolescência é um período crítico para o cérebro”, disse Dan Wu. “Compreender por que alguns jovens dormem pouco — e quais são as consequências — é essencial para proteger sua saúde mental e cognitiva no futuro.”
Referência
Chen, Y., Li, M., Zhao, Z. et al. Subtipos de neuroimagem da insuficiência de sono em adolescentes estratificam aqueles que dormem pouco naturalmente daqueles com comorbidades ou insuficiência induzida pelo ambiente. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70135-6