Sono ruim e traumas sociais aparecem como motores centrais da ansiedade, mostra estudo
Análise de mais de 4 mil pessoas revela hierarquia de fatores sociais e de estilo de vida associados aos sintomas de transtorno de ansiedade generalizada — com destaque para qualidade do sono, desemprego e isolamento social.

Domínio público
Um amplo estudo baseado em técnicas de aprendizado de máquina revelou que fatores sociais e hábitos de vida — especialmente a qualidade do sono — desempenham papel dominante na intensidade dos sintomas de ansiedade. A pesquisa, publicada nesta segunda-feira (9), na revista PLOS Mental Health, analisou dados de mais de quatro mil participantes de diversos países e identificou uma hierarquia clara de fatores associados ao transtorno de ansiedade generalizada (TAG).
O trabalho foi conduzido por Jerzy Bala, Jennifer J. Newson e Tara C. Thiagarajan, pesquisadores da organização científica Sapien Labs, nos Estados Unidos, como parte do Global Mind Project, um esforço internacional que investiga determinantes ambientais e sociais da saúde mental.
Os resultados indicam que dormir mal com frequência é o fator mais fortemente associado a sintomas moderados ou graves de ansiedade, superando outros determinantes como emprego, frequência de socialização e experiências de trauma interpessoal. Segundo os autores, o estudo fornece uma das visões mais abrangentes já produzidas sobre como diferentes aspectos da vida cotidiana se combinam para moldar o risco de ansiedade.
“A qualidade do sono surgiu consistentemente como o fator mais importante na classificação dos sintomas de ansiedade em todas as faixas etárias”, escrevem Bala e colegas no artigo.
Inteligência artificial para entender a ansiedade
Para conduzir a análise, os pesquisadores aplicaram vários modelos de aprendizado de máquina — incluindo Random Forest, Gradient Boosting, Naïve Bayes e regressão logística — a um conjunto de dados com 4.186 indivíduos entre 18 e 85 anos.
Os participantes responderam ao questionário clínico GAD-7, amplamente usado para avaliar sintomas de transtorno de ansiedade generalizada. A escala mede sinais como preocupação excessiva, inquietação, irritabilidade e medo persistente nas duas semanas anteriores à avaliação.
Além do teste psicológico, os voluntários forneceram informações detalhadas sobre dezenas de variáveis de contexto de vida, incluindo: frequência de exercícios físicos, qualidade do sono, interação social presencial, status de emprego, consumo de substâncias e experiências de trauma ou adversidade.
No total, cerca de 24% dos participantes apresentaram sintomas moderados a graves de ansiedade, definidos por pontuações iguais ou superiores a 10 no GAD-7.
Entre os modelos testados, a regressão logística apresentou o melhor equilíbrio de desempenho, alcançando uma área sob a curva (AUC) de aproximadamente 0,80 na identificação de indivíduos com sintomas significativos.
O peso dominante do sono
Ao comparar a contribuição de cada fator para a capacidade preditiva do modelo, a frequência de uma boa noite de sono apareceu no topo da hierarquia.
Pessoas que relataram “raramente” ou “quase nunca” dormir bem tiveram probabilidade muito maior de apresentar ansiedade moderada ou grave. Em contraste, indivíduos que disseram dormir bem “na maioria das vezes” ou “sempre” apresentaram menor probabilidade de sintomas intensos.
Os autores observaram que o impacto do sono foi superior ao de outras variáveis sociais importantes. Em segundo lugar apareceu o status de emprego, seguido por frequência de socialização, experiências de trauma interpessoal e atividade física.
“Mesmo quando removemos a variável sono, outros fatores de vida ainda permitem prever sintomas de ansiedade com considerável precisão”, afirmam os pesquisadores, sugerindo que esses elementos frequentemente interagem entre si.
Por exemplo, eventos adversos ou desemprego podem prejudicar o sono, que por sua vez intensifica a ansiedade — criando um ciclo de retroalimentação.
Diferenças entre gerações
A análise também revelou que os fatores associados à ansiedade variam conforme a idade.
Entre adultos mais velhos, o desemprego ou incapacidade de trabalhar apareceu como um dos principais preditores de ansiedade. Já entre jovens de 18 a 34 anos, experiências de trauma interpessoal — como bullying ou abuso — tiveram maior peso relativo.
Outro achado surpreendente foi que os modelos preditivos funcionaram melhor para pessoas mais velhas do que para jovens. Para indivíduos com mais de 65 anos, os algoritmos atingiram precisão próxima de 77%, enquanto nos grupos abaixo de 34 anos o desempenho caiu para cerca de 67%.
Isso sugere que fatores adicionais — como dieta, uso de redes sociais ou exposição a poluentes ambientais — podem influenciar mais fortemente a ansiedade em gerações mais jovens, mas não foram incluídos na análise atual.
Implicações para políticas de saúde mental
Embora o estudo seja transversal — o que significa que não pode estabelecer relações diretas de causa e efeito — os autores argumentam que os resultados reforçam a importância dos determinantes sociais da saúde mental.

Domínio público
“Esses achados destacam a base sociológica substancial dos sintomas de ansiedade”, escrevem os pesquisadores.
Do ponto de vista clínico, a pesquisa sugere que intervenções simples de estilo de vida — como melhorar a higiene do sono, incentivar exercícios físicos e promover interações sociais — podem desempenhar papel relevante na prevenção da ansiedade.
Já no nível populacional, os autores apontam que políticas de emprego, redução de violência e proteção contra abusos podem contribuir significativamente para diminuir a incidência de transtornos de ansiedade.
Segundo Thiagarajan, compreender o contexto de vida de cada paciente pode ser tão importante quanto o tratamento farmacológico ou psicoterapêutico tradicional.
“Antes de decidir uma estratégia terapêutica para ansiedade, é crucial entender as circunstâncias de vida do indivíduo”, escrevem os autores, sugerindo uma abordagem mais integrada entre saúde mental e políticas sociais.
Referência
Bala J, Newson JJ, Thiagarajan TC (2026) Contribuição dos determinantes sociais para os sintomas do transtorno de ansiedade generalizada. PLOS Ment Health 3(3): e0000552. https://doi.org/10.1371/journal.pmen.0000552