Estudo nacional com quase 300 mil casos revela que menos de um quarto dos parceiros de gestantes com sífilis recebem tratamento adequado — falha que alimenta a reinfecção materna e dificulta o controle da doença no país.

Domínio público
A sífilis congênita — infecção transmitida da mãe para o bebê durante a gestação — continua avançando no Brasil, apesar da disponibilidade universal de diagnóstico e tratamento. Um amplo estudo epidemiológico publicado nesta segunda-feira (10), na revista The Lancet Regional Health – Americas, mostra que um dos principais pontos cegos do sistema de saúde brasileiro está no tratamento dos parceiros sexuais das gestantes infectadas.
A pesquisa, liderada pela epidemiologista Mariana D. Fernandes, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, e pelo infectologista Bruno B. Andrade, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Johns Hopkins University, analisou 17 anos de dados nacionais, entre 2007 e 2023. O levantamento utilizou registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e dados de nascidos vivos do SINASC, abrangendo 297.062 casos notificados de sífilis congênita no país.
Os resultados revelam um quadro preocupante: menos de um quarto dos parceiros das gestantes recebeu tratamento adequado, um fator que pode levar à reinfecção da mãe durante a gravidez e, consequentemente, à transmissão para o bebê.
“Mesmo quando a gestante recebe o tratamento correto, a proteção pode ser anulada se o parceiro sexual permanecer infectado”, explica Andrade. “Essa lacuna mantém a cadeia de transmissão ativa e compromete os esforços para eliminar a sífilis congênita.”
Uma epidemia silenciosa
A análise revela que a taxa nacional de sífilis congênita aumentou de 1,9 caso por mil nascidos vivos em 2007 para 9,6 por mil em 2023, indicando crescimento contínuo ao longo do período estudado.
Esse índice está muito acima da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde para a eliminação da transmissão vertical da doença: no máximo 0,5 caso por mil nascidos vivos.
Segundo Fernandes, a persistência da doença não se deve apenas à transmissão biológica, mas também a falhas estruturais no cuidado pré-natal.
“A sífilis congênita é considerada uma condição totalmente evitável. Quando ela ocorre, isso indica falhas no diagnóstico precoce, no tratamento ou no acompanhamento da gestante e de seu parceiro”, afirma a pesquisadora.
O papel crucial do parceiro
Entre os mais de 218 mil casos analisados com dados completos, apenas 23,1% registraram tratamento adequado do parceiro sexual.
A pesquisa aponta que o tratamento do parceiro está fortemente associado à qualidade do acompanhamento pré-natal. Mulheres que realizaram consultas durante a gestação tiveram mais que o triplo de chance de registrar tratamento do parceiro em comparação com aquelas que não tiveram acompanhamento.
Esse resultado confirma a importância do pré-natal como principal porta de entrada para o controle da doença.

Domínio público
“O atendimento pré-natal é o momento em que os profissionais de saúde podem identificar a infecção, iniciar o tratamento com penicilina benzatina e envolver o parceiro no cuidado”, diz Andrade.
Desigualdades raciais e sociais
O estudo também identificou profundas desigualdades sociais e raciais no acesso ao tratamento dos parceiros.
Mulheres negras ou pardas tiveram menor probabilidade de ter parceiros tratados adequadamente em comparação com mulheres brancas. A escolaridade materna também teve impacto importante: quanto maior o nível educacional, maior a chance de tratamento do parceiro.
Para os autores, essas diferenças refletem barreiras estruturais no sistema de saúde e desigualdades históricas no acesso a serviços.
“Essas disparidades não podem ser explicadas apenas por fatores individuais. Elas estão ligadas à distribuição desigual de recursos de saúde, à distância geográfica dos serviços e a padrões de desigualdade social”, afirma Fernandes.
Diferenças regionais
As desigualdades também aparecem no mapa do país. O estudo mostrou que as regiões Sudeste e Nordeste concentram as maiores taxas de sífilis congênita, enquanto a região Norte apresenta as menores taxas de tratamento de parceiros.
Já o Centro-Oeste e o Sul apresentaram maiores probabilidades de tratamento adequado dos parceiros.
Segundo os pesquisadores, fatores como cobertura da atenção primária, disponibilidade de profissionais de saúde e capacidade de diagnóstico influenciam essas diferenças.
Além disso, a capacidade de administrar penicilina benzatina nas unidades básicas de saúde ainda é irregular em várias regiões, o que limita o tratamento imediato.
Impacto para os recém-nascidos
As consequências da falha no controle da sífilis durante a gravidez podem ser graves.
Entre os casos analisados, cerca de 88% dos bebês nasceram vivos, mas o estudo também registrou abortos espontâneos, natimortos e mortes neonatais associadas à infecção.
A sífilis congênita pode provocar prematuridade, malformações e danos neurológicos permanentes.
Para Andrade, esses desfechos reforçam a urgência de fortalecer as políticas de prevenção.
“Cada caso de sífilis congênita representa uma oportunidade perdida de intervenção. O tratamento é simples e barato, mas exige organização do sistema de saúde”, diz o pesquisador.
Caminhos para o controle
Os autores defendem que o país precisa fortalecer estratégias já previstas nas políticas públicas, como o “pré-natal do parceiro”, iniciativa que busca integrar os homens às consultas e exames durante a gestação.
Entre as medidas consideradas prioritárias estão: ampliar a participação dos parceiros no pré-natal; garantir disponibilidade contínua de penicilina nas unidades de saúde; melhorar o registro de dados epidemiológicos; e reduzir desigualdades regionais no acesso ao cuidado.
Também é necessário aprimorar os sistemas de vigilância epidemiológica. Em 2017, uma mudança na definição nacional de caso retirou o tratamento do parceiro como critério para notificação da doença, o que pode ter reduzido a qualidade das informações registradas.
Para Fernandes, a solução exige uma abordagem integrada.
“A eliminação da sífilis congênita depende de tratar não apenas a gestante, mas também seu parceiro. Sem isso, o ciclo de transmissão continua se repetindo”, conclui a pesquisadora.
Mesmo com avanços no acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o estudo mostra que a batalha contra a sífilis congênita no Brasil ainda está longe do fim — e que um dos principais desafios continua sendo incluir os parceiros no cuidado pré-natal.
Referência
O papel negligenciado do tratamento de parceiros no controle da sífilis congênita no Brasil: evidências em âmbito nacional de 2007 a 2023. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 56 101434 Publicado: 10 de março de 2026. Mariana D. Fernandes, Rodrigo C. Menezes, Isadora BC Almeida, Catarina D. Fernandes, Isabella BB Ferreira, Bruno B. Andrade. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101434