Saúde

Homens enfrentam maior risco de morte na hipertensão pulmonar, revela análise global com mais de 21 mil pacientes
Estudo internacional mostra que desvantagem masculina persiste mesmo após ajuste por idade, gravidade da doença e tratamento
Por Laercio Damasceno - 11/03/2026


Domínio público


Uma das maiores análises já realizadas sobre hipertensão pulmonar (HP) trouxe uma conclusão intrigante para a medicina cardiovascular: homens diagnosticados com a doença apresentam risco significativamente maior de morte do que mulheres — independentemente da idade, do tipo da doença, da gravidade clínica ou do tratamento recebido.

O achado surge de um amplo estudo internacional publicado em 2026 na revista científica eBioMedicine, baseado em dados do consórcio global PVRI GoDeep, que reúne registros clínicos de pacientes com hipertensão pulmonar em diversos países. A pesquisa foi liderada pelo médico e pesquisador Athiththan Yogeswaran, do Universities of Giessen and Marburg Lung Center, na Alemanha, e contou com colaboração de dezenas de centros especializados na Europa, América do Norte e Ásia.

Segundo os autores, os resultados apontam para uma diferença biológica relevante entre os sexos na evolução da doença — um fenômeno que ainda permanece pouco compreendido.

“Observamos consistentemente que pacientes do sexo masculino apresentam maior risco de mortalidade em praticamente todos os cenários analisados”, afirma Yogeswaran no artigo. “Essa desvantagem persiste mesmo após ajustes rigorosos para idade, comorbidades, gravidade da doença e estratégias terapêuticas.”

Um banco de dados global sem precedentes

A análise utilizou dados do PVRI GoDeep meta-registry, um dos maiores bancos de dados clínicos sobre hipertensão pulmonar do mundo. Inicialmente, o repositório reunia 29.838 pacientes diagnosticados com a doença. Após critérios de inclusão e disponibilidade de dados hemodinâmicos completos, os pesquisadores analisaram 21.123 pacientes.

Entre eles: 25,4% tinham hipertensão arterial pulmonar (PAH), 9,2% pertenciam ao grupo associado a doença cardíaca esquerda, 12% tinham hipertensão pulmonar relacionada a doenças pulmonares, 12% estavam no grupo de doença tromboembólica crônica, 2,2% tinham formas raras classificadas como grupo 5 e 39,2% apresentavam formas mistas ou não classificadas.

A população estudada era relativamente idosa: a idade mediana foi de 64 anos.

Os dados clínicos indicavam doença avançada em muitos casos. Cerca de 65% dos pacientes estavam na classe funcional III da Organização Mundial da Saúde, indicando limitação significativa para atividades físicas, enquanto 13% estavam na classe IV, estágio mais grave da doença.

Outro indicador importante foi a capacidade funcional: a distância média no teste de caminhada de seis minutos foi de 290 metros, valor bem abaixo do observado em pessoas saudáveis.

Diferenças de Sobrevida entre os Sexos. a) Pacientes com hipertensão pulmonar (21.123 pacientes). O subpainel i) mostra a análise de sobrevida de Kaplan-Meier com intervalos de confiança de 95% por sexo e gravidade da hipertensão pulmonar (teste de log-rank: p < 0,001). O subpainel ii) exibe as razões de risco comparando homens e mulheres. 1) Resultados do modelo base usando dados não imputados, incluindo o termo de interação da RVP dicotomizada. O modelo é ajustado apenas para centro e década de diagnóstico como estratos e idade, como spline natural com 2 graus de liberdade. 2) Resultados do modelo completo semelhantes a 1)...

Durante o acompanhamento, que teve duração mediana de 2,2 anos, 5.880 pacientes morreram — o equivalente a 28% da amostra em cinco anos após o diagnóstico.

A desvantagem masculina

Quando os pesquisadores analisaram a relação entre sexo e sobrevivência, emergiu um padrão claro.

Mulheres apresentaram taxas de sobrevivência significativamente maiores em comparação com homens. Em modelos estatísticos que ajustaram múltiplos fatores clínicos, os homens exibiram um risco de morte 36% maior.

O estudo estimou um hazard ratio de 1,36 (IC 95%: 1,23–1,50) para mortalidade masculina — um indicador robusto de pior prognóstico.

Esse padrão persistiu em diferentes análises: em pacientes com hipertensão arterial pulmonar, em outras formas de hipertensão pulmonar, em diferentes faixas etárias, entre pacientes com diferentes níveis de gravidade da doença e mesmo após controle para comorbidades cardiovasculares, obesidade e doença renal crônica.

Segundo os autores, a consistência dos resultados reforça a hipótese de que fatores biológicos ligados ao sexo possam influenciar diretamente a evolução da doença.

Possíveis explicações biológicas

A hipertensão pulmonar é caracterizada pelo aumento anormal da pressão nas artérias pulmonares, o que sobrecarrega o ventrículo direito do coração e pode levar à insuficiência cardíaca.

Curiosamente, estudos anteriores já mostravam um paradoxo: mulheres são diagnosticadas com hipertensão pulmonar com maior frequência, mas parecem sobreviver mais tempo.

Para o cardiologista Werner Seeger, também da Universidade de Giessen e coautor do estudo, isso sugere diferenças fisiológicas ainda pouco exploradas.

“Há evidências crescentes de que hormônios sexuais, metabolismo celular e adaptações do ventrículo direito podem contribuir para esse fenômeno”, explicou Seeger. “Mas ainda precisamos compreender melhor os mecanismos que conferem essa vantagem feminina.”


Alguns pesquisadores suspeitam que o estrogênio possa desempenhar papel protetor no sistema cardiovascular pulmonar, modulando inflamação, remodelamento vascular e função cardíaca.

Outra hipótese envolve diferenças estruturais no coração direito entre homens e mulheres, que poderiam influenciar a capacidade do órgão de lidar com o aumento da pressão arterial pulmonar.

Impacto clínico

Para especialistas, os resultados têm implicações importantes para a prática médica.

Imagem de reprodução

A hipertensão pulmonar continua sendo uma doença grave e frequentemente subdiagnosticada. Os sintomas — como falta de ar, fadiga e dor torácica — podem ser confundidos com outras condições cardiovasculares ou pulmonares.

O estudo sugere que o sexo do paciente pode se tornar um fator relevante na avaliação de risco e no planejamento terapêutico.

“Essas diferenças precisam ser consideradas em futuras estratégias de tratamento e no desenvolvimento de terapias personalizadas”, destacam os autores.

Além disso, os pesquisadores defendem que ensaios clínicos futuros analisem separadamente homens e mulheres para identificar respostas terapêuticas distintas.

Próximos passos da pesquisa

Apesar da dimensão do estudo, os cientistas reconhecem limitações. Como a análise foi baseada em registros clínicos internacionais, não foi possível explorar diretamente mecanismos biológicos ou genéticos que expliquem as diferenças observadas.

Por isso, o próximo passo será integrar dados moleculares, genéticos e metabólicos aos registros clínicos.

“Precisamos agora entender por que essa diferença ocorre”, diz Yogeswaran. “Somente identificando os mecanismos biológicos poderemos desenvolver terapias mais eficazes e personalizadas.”

Se confirmadas por novos estudos, as descobertas poderão alterar a forma como médicos avaliam risco e tratam pacientes com hipertensão pulmonar — uma doença rara, mas devastadora.

E, ao revelar uma desigualdade inesperada entre os sexos, a pesquisa reforça um princípio cada vez mais central na medicina moderna: homens e mulheres podem apresentar trajetórias biológicas distintas para a mesma doença — e isso importa profundamente para o tratamento.


Referência
Desvantagem de sobrevida masculina na hipertensão pulmonar: independente da etiologia, idade, gravidade da doença, comorbidades e tratamento. Yogeswaran, AthiththanAnderson, James et al. eBioMedicine, Volume 123, 106063

 

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