Saúde

Capacidade intrínseca do organismo pode prever risco de AVC décadas antes, revela estudo com 184 mil pessoas
Análise internacional publicada na revista Nature Communications mostra que níveis mais altos de capacidade física e mental reduzem significativamente a probabilidade de acidente vascular cerebral
Por Laercio Damasceno - 11/03/2026


Domínio público

Por décadas, a prevenção do acidente vascular cerebral (AVC) concentrou-se em fatores clássicos como hipertensão, diabetes, tabagismo e sedentarismo. Agora, um grande estudo internacional sugere que um indicador mais amplo — a chamada capacidade intrínseca, que mede o conjunto das funções físicas e mentais do organismo — pode ser um poderoso preditor do risco futuro de AVC.

A pesquisa, publicada nesta quarta-feira (11), na revista Nature Communications, analisou dados de 184.219 participantes com 40 anos ou mais, acompanhados ao longo de 1.293.239 pessoas-ano de seguimento. Durante esse período, os pesquisadores identificaram 15.125 casos de AVC. Os resultados indicam que indivíduos com níveis mais elevados de capacidade intrínseca apresentaram reduções substanciais no risco de desenvolver a doença.

O estudo foi liderado por Ying Li, da School of Medicine da Zhejiang University, na China, em colaboração com pesquisadores de diferentes instituições da mesma universidade e hospitais afiliados, incluindo o Second Affiliated Hospital e o Sir Run Shaw Hospital.

“Observamos uma associação negativa clara entre capacidade intrínseca e risco de AVC”, explica Li. “Indivíduos que mantiveram níveis elevados e estáveis dessa capacidade ao longo do tempo apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer um evento cerebrovascular.”

Um novo indicador de envelhecimento saudável

O conceito de capacidade intrínseca foi introduzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como parte da estrutura de envelhecimento saudável. Ele representa o conjunto das capacidades físicas e mentais de uma pessoa e inclui cinco domínios principais: capacidade cognitiva, capacidade locomotora, vitalidade metabólica, capacidade sensorial e saúde psicológica.

Segundo os autores, avaliar esses domínios em conjunto pode oferecer uma visão mais integrada do envelhecimento biológico e de seus impactos na saúde.

No estudo, participantes foram divididos em quartis de capacidade intrínseca. Aqueles nos níveis mais altos apresentaram reduções progressivas no risco de AVC. Comparados ao grupo de menor capacidade, os três quartis superiores exibiram reduções de risco com razões de risco (HR) de 0,75, 0,70 e 0,64, respectivamente.

“Isso indica uma relação dose-resposta robusta”, afirma o coautor Wei Jiang, pesquisador da Zhejiang University of Water Resources and Electric Power. “Quanto maior a capacidade intrínseca, menor o risco de AVC.”

Idosos apresentam efeito ainda mais forte

A associação tornou-se ainda mais pronunciada entre pessoas com 80 anos ou mais, grupo que enfrenta o crescimento mais rápido na incidência de AVC em todo o mundo.

Entre esses participantes, os níveis mais elevados de capacidade intrínseca corresponderam a reduções de risco ainda maiores — com razões de risco chegando a 0,50, sugerindo uma queda de aproximadamente 50% na probabilidade de AVC em comparação com indivíduos de menor capacidade.

“Esse resultado é particularmente importante diante do rápido envelhecimento da população global”, afirma Li. “Nos próximos 30 anos, espera-se que o número de pessoas com mais de 80 anos dobre, o que pode aumentar significativamente a carga global do AVC.”


Mudanças ao longo do tempo também importam

Além da análise transversal, os pesquisadores examinaram como mudanças na capacidade intrínseca ao longo do tempo influenciam o risco de AVC.

Os resultados mostraram um padrão impressionante: pessoas com capacidade intrínseca persistentemente baixa apresentaram mais que o dobro do risco de AVC (HR 2,11); aqueles que mantiveram capacidade consistentemente alta tiveram risco reduzido (HR 0,81); participantes cuja capacidade diminuiu ao longo do tempo registraram aumento significativo do risco (HR 1,57); e Já indivíduos que melhoraram sua capacidade intrínseca reduziram drasticamente o risco (HR 0,36).

Para os pesquisadores, esses dados sugerem que a capacidade intrínseca não é apenas um marcador estático de saúde, mas um indicador dinâmico que pode ser modificado ao longo da vida.

Conexões biológicas

Cada domínio da capacidade intrínseca mostrou associação independente com o risco de AVC.

A capacidade locomotora, por exemplo, reflete o funcionamento muscular e motor, fatores essenciais para a manutenção da atividade física — conhecida por reduzir riscos cardiovasculares.

Já a capacidade cognitiva pode indicar alterações vasculares precoces no cérebro. Estudos anteriores mostram que 30% a 50% dos sobreviventes de AVC desenvolvem comprometimento cognitivo, sugerindo uma ligação estreita entre saúde cerebral e doença vascular.

A capacidade sensorial, que inclui audição e visão, também pode refletir danos vasculares sistêmicos. Condições como hipertensão e diabetes podem comprometer tanto os vasos cerebrais quanto estruturas sensoriais.

Por fim, o componente psicológico — especialmente sintomas depressivos — pode contribuir para inflamação crônica e disfunção endotelial, processos ligados ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Domínio público

Um novo alvo para prevenção

O AVC continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo. Dados epidemiológicos recentes indicam que a prevalência global da doença alcançou 93,8 milhões de pessoas em 2021, enquanto o impacto econômico ultrapassa US$ 890 bilhões por ano.

Apesar de avanços na prevenção e no tratamento, o envelhecimento populacional está impulsionando o aumento de casos. Entre 1990 e 2019, embora a taxa de mortalidade tenha diminuído cerca de 36%, o número total de eventos continua crescendo.

Nesse cenário, o estudo sugere que a avaliação da capacidade intrínseca pode se tornar uma ferramenta poderosa para identificar indivíduos em risco antes do aparecimento de sintomas clínicos.

A abordagem também se alinha ao conceito de “prevenção primordial do AVC”, defendido pela World Stroke Organization, que busca atuar antes mesmo do desenvolvimento dos fatores de risco tradicionais.

“Monitorar a capacidade intrínseca pode permitir intervenções precoces e personalizadas”, diz Jiang. “Programas que promovam atividade física, nutrição adequada, saúde mental e estimulação cognitiva podem preservar essa capacidade e reduzir o risco de doenças vasculares.”

Um novo paradigma de saúde pública

Para os autores, a principal implicação do estudo é a necessidade de integrar a avaliação da capacidade intrínseca aos sistemas de saúde — especialmente em populações envelhecidas.

“A prevenção do AVC não deve começar apenas quando surgem doenças crônicas”, conclui Li. “Ela deve começar muito antes, preservando as capacidades fundamentais que sustentam a saúde ao longo da vida.”

Se confirmados por novos estudos, os resultados indicam que medir e fortalecer a capacidade intrínseca pode se tornar um dos pilares da medicina preventiva no século XXI.


Referência
Li, Y., Chen, Y., Chen, Y. et al. Capacidade intrínseca e risco de acidente vascular cerebral em um estudo de coorte múltipla. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70524-x

 

.
.

Leia mais a seguir