Por décadas, o Brasil foi um laboratório vivo da transição epidemiológica. Agora, novos dados revelam como esse progresso foi abruptamente interrompido — e parcialmente reconstruído — pela pandemia de COVID-19.

Domínio público
Em um dos retratos mais abrangentes já produzidos sobre a saúde da população brasileira, o estudo “Burden of disease and life expectancy decomposition in Brazil and its federated units, 1990–2023”, conduzido pelos GBD 2023 Brazil Collaborators e publicado nesta segunda-feira (17), na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, traça uma narrativa complexa: progresso sustentado por três décadas, seguido de um choque sem precedentes e uma recuperação desigual.
A pesquisa, financiada pela Fundação Gates e pelo Ministério da Saúde do Brasil, mobilizou centenas de pesquisadores ligados à rede do Global Burden of Disease (GBD) e analisou mais de 3.398 fontes de dados, incluindo registros hospitalares, inquéritos nacionais e sistemas de mortalidade .
Três décadas de avanço — e uma ruptura
Entre 1990 e 2019, o Brasil experimentou uma queda expressiva na mortalidade e um aumento consistente na expectativa de vida. A taxa de mortalidade padronizada por idade caiu 34,5%, enquanto a expectativa de vida cresceu 7,01 anos.

Figura. Principais causas de nível 3 de anos de vida ajustados por incapacidade (DALY), óbitos, anos vividos com incapacidade (YLD) e anos de vida perdidos (YLL) no Brasil, utilizando taxas padronizadas por idade por 100.000 habitantes para 1990, 2019, 2021 e 2023.
Segundo a epidemiologista Deborah Carvalho Malta, uma das autoras correspondentes do estudo, “esses ganhos refletem melhorias estruturais — da vacinação ao acesso à atenção primária — além da expansão de políticas sociais e do Sistema Único de Saúde (SUS)”.
Mas esse progresso foi interrompido de forma abrupta.
Entre 2019 e 2021, auge da pandemia de COVID-19, o país registrou um aumento de 27,6% na mortalidade e de 18,3% nos anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALYs). A expectativa de vida caiu 3,4 anos nesse período — um retrocesso raro em séries históricas modernas.
Em 2021, a COVID-19 tornou-se a principal causa de morte no país, com 186 óbitos por 100 mil habitantes .
Um impacto desigual
A pandemia não afetou o Brasil de maneira homogênea. Estados da região Norte, como Amazonas e Roraima, registraram aumentos superiores a 50% na mortalidade durante o período crítico .
“O padrão regional revela desigualdades históricas em infraestrutura de saúde, acesso a serviços e capacidade de resposta”, observam os autores. A descentralização do SUS, embora essencial para a capilaridade do sistema, resultou em respostas heterogêneas, muitas vezes dependentes de decisões locais.
Além disso, fatores políticos e institucionais agravaram o cenário. O estudo aponta que a falta de coordenação nacional e atrasos na vacinação contribuíram para um dos maiores excessos de mortes do mundo, com mais de 700 mil óbitos por COVID-19 no país .
A transição epidemiológica continua — com novos desafios
Antes da pandemia, o Brasil já havia consolidado sua transição epidemiológica: doenças infecciosas deram lugar às doenças crônicas não transmissíveis como principais causas de morte.
Em 2019, os líderes eram: doença isquêmica do coração; acidente vascular cerebral (AVC) e infecções respiratórias inferiores
Após o pico da pandemia, em 2023, o padrão voltou a se aproximar do cenário pré-COVID. No entanto, mudanças silenciosas continuam em curso.
O estudo destaca o crescimento de fatores de risco metabólicos. O índice de massa corporal elevado (IMC) tornou-se o principal fator de risco para carga de doença em 2023, ultrapassando a hipertensão. Já a glicemia elevada subiu para a terceira posição .
“Estamos diante de uma nova fase da transição epidemiológica, marcada pelo peso crescente da obesidade, diabetes e envelhecimento populacional”, apontam os pesquisadores.
Recuperação — mas não retorno completo
Em 2023, a mortalidade no Brasil retornou a níveis próximos aos observados antes da pandemia, cerca de 590 mortes por 100 mil habitantes . A expectativa de vida também voltou a crescer, resultando em um ganho total de 7,18 anos entre 1990 e 2023.
Ainda assim, os autores alertam: a recuperação não significa um retorno ao status anterior.
Persistem desigualdades regionais, impactos psicológicos — como o aumento de transtornos de ansiedade — e mudanças estruturais no perfil de doenças. Entre os destaques pós-pandemia estão: crescimento dos transtornos mentais; aumento da carga de diabetes e dor lombar e persistência da violência interpessoal como causa relevante de DALYs
Lições para o futuro
Para os autores, o estudo oferece um diagnóstico claro — e um alerta.
“O Brasil demonstrou resiliência, mas também expôs fragilidades profundas”, concluem. “Fortalecer a equidade, investir em prevenção e preparar o sistema para futuras crises sanitárias são prioridades urgentes” .
Num país continental, onde avanços convivem com desigualdades persistentes, a trajetória da saúde pública brasileira segue sendo uma história em aberto — agora marcada por uma das mais dramáticas inflexões de sua história recente.
Referência
Decomposição da carga de doenças e da expectativa de vida no Brasil e suas unidades federativas, 1990–2023: uma análise baseada no estudo da carga global de doenças de 2023. The Lancet Saúde Regional – Américas. Publicado em: 17 de março de 2026. Colaboradores do GBD 2023 Brasil. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101441Link externo