Saúde

Rinovírus pode causar infecção prolongada de células das amígdalas e adenoides
Estudo com crianças mostra que o vírus do resfriado comum é capaz de se replicar em tecidos do sistema imunológico, mesmo na ausência de sintomas
Por Felipe Medeiros - 20/03/2026


O rinovírus pode permanecer ativo por mais tempo no sistema respiratório e levanta a hipótese de que as amígdalas funcionam como uma espécie de reservatório viral – Foto: Arte com imagens de Pexels e Wikicommons


Orinovírus é conhecido como o principal causador do resfriado comum e está entre os vírus respiratórios mais frequentes na infância. Embora, na maioria das vezes, provoque quadros leves e autolimitados, ele também pode estar associado a infecções respiratórias recorrentes e à piora de doenças como asma, sinusite e otite média. Um estudo realizado por pesquisadores da USP em Ribeirão Preto amplia essa compreensão ao mostrar que o vírus não se restringe ao epitélio nasal, podendo infectar e se replicar em células do interior das amígdalas e adenoides, estruturas centrais do sistema imunológico infantil.

A pesquisa indica que, mesmo na ausência de sintomas respiratórios, o rinovírus pode permanecer ativo nesses tecidos, levantando a hipótese de que as amígdalas funcionem como uma espécie de reservatório viral. Esse mecanismo pode ajudar a explicar tanto a recorrência de infecções respiratórias quanto a detecção prolongada do vírus em secreções, mesmo após o fim dos sintomas clínicos.

Publicado no Journal of Medical Virology, o estudo analisou amígdalas palatinas, adenoides e secreções respiratórias de crianças submetidas à adenoamigdalectomia – cirurgia indicada, principalmente, em casos de obstrução respiratória ou infecções recorrentes. Orientado pelo professor Eurico Arruda, do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o trabalho contou com a participação do professor Ronaldo Bragança Martins Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP e dos pesquisadores Edwin Tamashiro, Wilma Anselmo Lima e Fabiana Valera, da FMRP.

Segundo o professor Eurico Arruda, a investigação foi motivada por achados anteriores do próprio grupo. “Em um estudo publicado em 2012, detectamos material genético de diversos vírus respiratórios em amígdalas e adenoides de crianças assintomáticas. O que chamou a atenção foi a alta frequência dessas detecções, inclusive de rinovírus, mesmo sem sinais clínicos de infecção.”

Do resfriado comum ao sistema imunológico

Tradicionalmente, o rinovírus é descrito como um agente que infecta células epiteliais das vias aéreas superiores, causando a destruição dessas células durante o processo de replicação. Por esse motivo, sua presença prolongada em atividade no interior de tecidos das amígdalas e adenoides seria um resultado improvável.

“Os rinovírus são vírus líticos para células epiteliais respiratórias, ou seja, eles destroem a célula ao se replicarem. Não seria esperado que seu material genético permanecesse por longos períodos nos tecidos do sistema imunológico que ficam em amígdalas e adenoides”, afirma o docente. Assim, os pesquisadores investigaram se o vírus estava deixando apenas material genético como vestígios genéticos ou se, de fato, permanecia biologicamente ativo nesses tecidos.

Análise de tecidos e identificação do vírus ativo

O trabalho analisou amostras de 293 crianças submetidas à cirurgia de retirada das amígdalas e adenoides. Esses tecidos, removidos por indicação médica, foram doados com consentimento dos responsáveis e utilizados exclusivamente para fins de pesquisa.

Inicialmente, as amostras foram submetidas a testes de RT-PCR em tempo real, uma técnica de biologia molecular que detecta e quantifica o material genético do vírus. As amostras positivas para rinovírus passaram então por análises mais aprofundadas.

Entre as técnicas utilizadas estão a imuno-histoquímica, que permite visualizar proteínas virais diretamente nos tecidos; a hibridização in situ cromogênica, usada para identificar a replicação do RNA viral dentro das células; a citometria de fluxo, que caracteriza os tipos celulares infectados; e o isolamento viral em cultura de células, método que comprova se o vírus presente é capaz de infectar novas células e, portanto, persistir infeccioso.

“Essas abordagens combinadas nos permitiram demonstrar não apenas a presença do vírus, mas sua replicação ativa e a produção de vírus infecciosos dentro dos tecidos amigdalianos”, detalha o pesquisador.

Linfócitos também são alvos do rinovírus

Um dos achados mais surpreendentes do estudo foi a identificação dos tipos celulares infectados. Além das células epiteliais da superfície das amígdalas, os pesquisadores observaram infecção de linfócitos T CD4 e linfócitos B – células fundamentais da resposta imune adaptativa.

“Foram identificados linfócitos T auxiliares e linfócitos B infectados, o que não era esperado. Isso sugere que o rinovírus consegue infectar células de vida longa sem provocar sua destruição imediata”, explica Arruda. Essa característica pode permitir que o vírus permaneça no organismo por períodos prolongados, escapando da resposta imunológica clássica.

O estudo também identificou os rinovírus das três espécies conhecidas, A, B e C, com discreto predomínio da espécie A. Em alguns casos, o mesmo genótipo foi encontrado simultaneamente na amígdala e na adenoide da mesma criança.

Possíveis impactos clínicos

Todas as crianças incluídas no estudo estavam assintomáticas no momento da cirurgia e não apresentavam sinais de infecção respiratória havia pelo menos um mês. Ainda assim, o vírus ativo foi detectado em uma parcela significativa das amostras.

“Não temos como afirmar que um mesmo vírus persiste por anos no tecido, porque não é possível coletar amostras repetidas do mesmo paciente. Mas a ausência de sintomas e a alta frequência de detecção em crianças diferentes são evidências indiretas de que essas são infecções assintomáticas prolongadas”, afirma o professor.

Apesar da infecção de linfócitos, o estudo não encontrou sinais evidentes de inflamação local intensa. Isso sugere que o rinovírus pode adotar estratégias para escapar da resposta imune quando infecta células do sistema imunológico, diferentemente do que ocorre no epitélio respiratório.

Limitações e próximos passos

“Por se tratar de um estudo transversal, a pesquisa apresenta limitações, já que as amostras foram coletadas apenas uma vez, no dia da cirurgia, sem acompanhamento temporal. Os resultados refletem um retrato instantâneo daquele momento”, explica Arruda. Ainda assim, ele destaca que o conjunto de evidências é relevante, sobretudo ao demonstrar a capacidade do rinovírus de infectar e se replicar em linfócitos.

Os achados também ampliam o entendimento sobre infecções respiratórias recorrentes. “Se os rinovírus infectam células linfoides de longa duração com produção de vírus infecciosos, é possível que, em certas situações, haja excreção viral em secreções respiratórias”, afirma o pesquisador. Embora ainda não seja possível afirmar se essa persistência possa causar doença em pessoas com o sistema imune saudável, o mecanismo pode ter impacto em pacientes com doenças de base, como asma, otite média crônica, sinusite crônica e casos de imunossupressão.

A partir desses resultados, o grupo agora investiga os mecanismos moleculares que permitem que diferentes vírus infectem linfócitos de forma prolongada, sem destruição celular. “Estudos longitudinais [com acompanhamento ao longo do tempo] também estão em planejamento para avaliar, no pós-operatório, crianças que apresentavam infecção ativa nas amígdalas”, conclui o professor.


Mais informações: e-mail eaneto@fmrp.usp.br, com Eurico de Arruda Neto

 

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