Terapia por prótons não supera radioterapia convencional em câncer de orofaringe, revela ensaio clínico de fase 3
Os participantes foram randomizados em uma proporção de 2:1 para receber IMPT (136 pacientes) ou IMRT (69 pacientes), ambos combinados com quimioterapia à base de cisplatina.

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Um dos debates mais persistentes na oncologia radioterápica — se tecnologias de ponta como a terapia por prótons realmente oferecem vantagens clínicas significativas — acaba de ganhar uma resposta robusta. Um ensaio clínico randomizado de fase 3, publicado neste sábado (21), na The Lancet, conclui que a terapia por feixe de prótons modulada por intensidade (IMPT) não apresenta benefícios clínicos substanciais em comparação com a radioterapia de intensidade modulada (IMRT) no tratamento do carcinoma espinocelular de orofaringe.
O estudo, denominado TORPEdO, foi liderado por David J Thomson, do The Christie NHS Foundation Trust, em colaboração com instituições como o Institute of Cancer Research e a University of Manchester. Financiado pela Cancer Research UK, o trabalho representa a avaliação mais rigorosa até o momento dessa tecnologia em um sistema público de saúde.
Um teste decisivo em larga escala
Entre fevereiro de 2020 e junho de 2023, 205 pacientes com câncer de orofaringe localmente avançado foram recrutados em 20 hospitais do NHS britânico. Os participantes foram randomizados em uma proporção de 2:1 para receber IMPT (136 pacientes) ou IMRT (69 pacientes), ambos combinados com quimioterapia à base de cisplatina.
O desenho metodológico foi particularmente rigoroso. O estudo adotou endpoints coprimários centrados no paciente: dependência de sonda de alimentação ou perda de peso grave (20%) após 12 meses, além de um escore composto de qualidade de vida física (UW-QoL), que avalia funções como deglutição, fala, mastigação e salivação. A análise seguiu o princípio de intenção de tratar modificada, com ajustes multivariáveis e múltiplas análises de sensibilidade.
“Nosso objetivo era testar se as vantagens dosimétricas da IMPT — isto é, a capacidade de poupar tecidos saudáveis — se traduziriam em benefícios clínicos reais”, afirma Thomson.
Resultados: equivalência clínica
Os resultados, no entanto, indicam equivalência entre as duas abordagens. Após 12 meses, a taxa combinada de dependência de sonda ou perda de peso grave foi de 18% no grupo IMPT contra 7% no grupo IMRT (odds ratio ajustado de 2,80; p=0,079), uma diferença que não atingiu significância estatística.
Da mesma forma, os escores médios de qualidade de vida física foram praticamente idênticos: 78,3 no grupo IMPT versus 77,1 no IMRT (diferença de 1,3 pontos; p=0,56).
Em termos de controle tumoral, os dados também não favoreceram a terapia por prótons. A taxa de controle loco-regional em 24 meses foi de 94% para IMPT e 97% para IMRT, enquanto a sobrevida global foi de 95% em ambos os grupos.
“Esses achados sugerem que, apesar de seu apelo tecnológico, a IMPT não oferece vantagens clínicas mensuráveis em relação à IMRT no contexto estudado”, destaca Emma Hall, coautora do estudo.
Toxicidade: um quadro complexo
A análise de eventos adversos revelou nuances importantes. Durante o tratamento, eventos agudos graves (grau 3) foram menos frequentes com IMPT (50%) do que com IMRT (72%; p=0,0035), sugerindo melhor tolerabilidade inicial.
No entanto, efeitos tardios contaram uma história diferente. Eventos adversos graves tardios ocorreram em 25% dos pacientes tratados com IMPT, contra 14% no grupo IMRT. Parte dessa diferença foi atribuída a perda auditiva e perda de peso persistente.
Nenhuma morte relacionada ao tratamento foi registrada em nenhum dos grupos.
O paradoxo dos prótons
Do ponto de vista físico, a terapia por prótons oferece uma vantagem clara: sua distribuição de dose permite minimizar a radiação em tecidos adjacentes, reduzindo danos colaterais. De fato, o estudo confirmou que a IMPT resultou em doses menores em órgãos críticos, como glândulas salivares e estruturas de deglutição.
Ainda assim, essas vantagens não se traduziram em benefícios clínicos significativos — um fenômeno que desafia expectativas e levanta questões sobre a relação entre parâmetros físicos e desfechos clínicos.

“Isso reforça a importância de ensaios randomizados rigorosos antes da adoção ampla de tecnologias caras”, observa Christopher M Nutting, também coautor.
Implicações para sistemas de saúde
A terapia por prótons é substancialmente mais cara e menos disponível do que a radioterapia convencional. No Reino Unido, seu uso é restrito a poucos centros especializados. Diante disso, os resultados do TORPEdO têm implicações diretas para políticas públicas.
Os autores concluem que, em contextos onde a IMPT não é amplamente acessível, a IMRT deve continuar sendo o padrão de tratamento para câncer de orofaringe.
Além disso, o estudo destaca a importância de incorporar medidas relatadas pelos próprios pacientes (patient-reported outcomes) na avaliação de novas tecnologias — uma tendência crescente na oncologia moderna.
O futuro da radioterapia
Apesar dos resultados, os pesquisadores não descartam completamente o papel da terapia por prótons. Análises exploratórias sugerem que subgrupos específicos de pacientes — identificados por modelos preditivos de complicações — podem se beneficiar mais da IMPT.
Estudos futuros deverão focar nessa estratificação, bem como em análises de custo-efetividade ainda em andamento.
“Não se trata de abandonar a inovação, mas de direcioná-la com base em evidências sólidas”, conclui Thomson.
Em um campo onde o avanço tecnológico frequentemente precede a comprovação clínica, o TORPEdO oferece um lembrete crucial: nem toda inovação se traduz automaticamente em melhor cuidado — e, às vezes, o padrão estabelecido continua sendo a melhor escolha.
Referência
Terapia com feixe de prótons para câncer orofaríngeo (TORPEdO): um ensaio clínico randomizado de fase 3. The Lancet, Publicado em: 21 de março de 2026. David J Thomson,James M Price, Matthew Tyler, Matthew Beasley, Jim Lester, Christopher M Nuttinge outros. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00314-4Link externo