Saúde

Filtro no sangue reduz mortes em choque séptico grave, aponta estudo internacional
Ensaio clínico de fase 3 indica queda significativa na mortalidade em pacientes com alto nível de endotoxinas; abordagem reforça avanço da medicina de precisão em UTIs
Por Laercio Damasceno - 24/03/2026


Imagem: Reprodução


Um tratamento experimental que “filtra” toxinas do sangue pode reduzir de forma relevante a mortalidade em pacientes com uma das formas mais graves de sepse — o choque séptico endotóxico. É o que aponta um estudo clínico internacional publicado nesta segunda-feira (23), na revista The Lancet Respiratory Medicine, que reacende o debate sobre terapias direcionadas em medicina intensiva.

O ensaio, batizado de Tigris, envolveu 157 pacientes em 19 hospitais dos Estados Unidos e testou o uso da hemoadsorção com polimixina B — um dispositivo capaz de remover endotoxinas bacterianas diretamente da corrente sanguínea. Essas substâncias, derivadas principalmente de bactérias Gram-negativas, estão associadas à falência múltipla de órgãos e a altas taxas de mortalidade.

Segundo os resultados, pacientes tratados com a tecnologia apresentaram uma probabilidade de benefício de 95,3% na redução de mortes em 28 dias. O efeito foi ainda mais expressivo no acompanhamento de 90 dias, com probabilidade de benefício de 99,4%.

“Observamos um sinal clínico consistente de redução da mortalidade em um grupo muito específico de pacientes”, afirma o nefrologista Javier A. Neyra, da Universidade do Alabama em Birmingham, um dos autores principais do estudo. “Isso reforça a importância de identificar subgrupos biológicos dentro da sepse.”

Uma doença comum, mas heterogênea

A sepse é uma resposta inflamatória desregulada do organismo a infecções e pode evoluir rapidamente para choque séptico — estágio em que a pressão arterial despenca e órgãos entram em colapso. Estima-se que a condição afete cerca de 500 mil pessoas por ano nos Estados Unidos, com mortalidade que pode chegar a 40%.

Apesar da gravidade, não há terapias específicas amplamente eficazes. O tratamento padrão baseia-se em antibióticos, reposição de fluidos e suporte intensivo.

O estudo Tigris parte de uma premissa que vem ganhando força na medicina: a de que a sepse não é uma doença única, mas um conjunto de “endótipos” — subgrupos com mecanismos biológicos distintos. No caso analisado, os pesquisadores focaram pacientes com níveis elevados de endotoxinas no sangue, identificados por um teste específico.

“Estamos entrando na era da medicina de precisão também nas UTIs”, afirma Matthieu Legrand, da Universidade da Califórnia em São Francisco. “Nem todos os pacientes com sepse são iguais, e tratá-los como se fossem pode ser uma das razões do fracasso de muitos ensaios clínicos anteriores.”

Como funciona o tratamento

A hemoadsorção com polimixina B utiliza um cartucho acoplado a uma máquina semelhante à de hemodiálise. O sangue do paciente circula por esse sistema, onde as endotoxinas se ligam à substância e são removidas antes de o sangue retornar ao corpo.

No estudo, os pacientes receberam duas sessões do tratamento, com duração de cerca de duas horas cada.

Os resultados mostraram que, após 28 dias, 39% dos pacientes tratados morreram, contra 45% no grupo controle. A diferença se ampliou ao longo do tempo, sugerindo que o tratamento pode influenciar não apenas a fase aguda, mas também a recuperação posterior.

Em termos absolutos, a redução de risco chegou a 15,5% em 90 dias, o que corresponde a um número necessário para tratar (NNT) de aproximadamente 6,5 pacientes para evitar uma morte.

Segurança e limitações

O perfil de segurança foi considerado aceitável. Eventos adversos graves ocorreram em 30% dos pacientes tratados, contra 22% no grupo controle — diferença que não foi estatisticamente significativa. Apenas 2% dos casos foram diretamente atribuídos ao procedimento.

Ainda assim, os autores destacam limitações importantes. O estudo incluiu um número relativamente pequeno de pacientes, reflexo da dificuldade em encontrar indivíduos com o perfil biológico específico. Ao todo, quase 15 mil pessoas foram triadas para recrutar apenas 157 participantes.

Domínio público

Além disso, os resultados não podem ser generalizados para todos os casos de sepse. “Trata-se de uma população altamente selecionada. A aplicação indiscriminada pode não trazer os mesmos benefícios”, alertam os pesquisadores.

Impacto e próximos passos

Especialistas veem o estudo como um marco potencial na área. A abordagem baseada em biomarcadores — como o nível de endotoxinas — pode redefinir a forma como ensaios clínicos são conduzidos em doenças complexas.

“O fracasso histórico em desenvolver terapias para sepse pode estar ligado à falta de estratificação dos pacientes”, escrevem os autores.

Se confirmados por novos estudos, os resultados podem abrir caminho para protocolos mais personalizados em unidades de terapia intensiva, com impacto direto na sobrevivência de pacientes críticos.

Por ora, a mensagem central é clara: em um campo marcado por décadas de frustrações, a combinação entre tecnologia extracorpórea e medicina de precisão pode representar uma das apostas mais promissoras no combate à sepse grave.


Referência
Hemoadsorção de polimixina B no choque séptico endotóxico (Tigris): um ensaio clínico multicêntrico, aberto, bayesiano, randomizado e controlado de fase 3. The Lancet Medicina Respiratória. Publicado em: 23 de março de 2026. Javier A Neyra, Matthieu Legrand, Mark A Tidswell, Ali Al-Khafaji, Claude Galphin, Ronald Rainse outros. DOI: 10.1016/S2213-2600(26)00047-0

 

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