Saúde

Gordura visceral afeta cérebro e acelera declínio cognitivo, aponta estudo internacional
Pesquisa acompanhou mais de 500 pessoas por até 16 anos e mostra que reduzir gordura abdominal profunda — e não apenas perder peso — pode proteger a estrutura cerebral e a memória
Por Laercio Damasceno - 26/03/2026


Imagem: Reprodução


Um dos maiores estudos já realizados sobre a relação entre obesidade e saúde cerebral traz uma conclusão que pode mudar o foco das políticas públicas e da prática clínica: não é apenas o peso total que importa, mas onde a gordura está concentrada. A redução sustentada da gordura visceral — aquela que se acumula na região abdominal, envolvendo órgãos internos — está associada a menor atrofia cerebral e melhor desempenho cognitivo ao longo do envelhecimento.

Os resultados foram publicados nesta quinta-feira (26), na revista Nature Communications, e integram o projeto FIT (Follow-up Intervention Trial), liderado por pesquisadores da Ben-Gurion University of the Negev, em Israel, com colaboração internacional, incluindo a Harvard T.H. Chan School of Public Health e a University of Leipzig Medical Center.

“Observamos que a redução prolongada da gordura visceral, independentemente da perda de peso total, está ligada à preservação da estrutura cerebral e da função cognitiva”, afirma a pesquisadora Iris Shai, coordenadora do estudo.

Um acompanhamento de até 16 anos

O trabalho analisou 533 adultos, com idade média de 61 anos, acompanhados ao longo de 5 a 16 anos após intervenções de estilo de vida. Os participantes faziam parte de quatro ensaios clínicos anteriores (DIRECT, CASCADE, CENTRAL e DIRECT-PLUS), que investigaram dietas e hábitos saudáveis.

Ao longo do tempo, os pesquisadores utilizaram ressonância magnética para medir tanto a gordura abdominal quanto a estrutura do cérebro. O desempenho cognitivo foi avaliado por meio do teste MoCA (Montreal Cognitive Assessment), cuja pontuação média foi de 23,6 — abaixo do ideal para indivíduos sem comprometimento cognitivo.

Os dados mostram que participantes com menor exposição acumulada à gordura visceral apresentaram melhores resultados cognitivos e maiores volumes cerebrais, especialmente em regiões críticas como substância cinzenta e hipocampo.

Gordura visceral, não o peso total

Um dos achados mais relevantes do estudo é que o índice de massa corporal (IMC), tradicionalmente usado para medir obesidade, não apresentou associação significativa com alterações cerebrais.

“Os modelos baseados em IMC não mostraram relações consistentes com a estrutura cerebral, ao contrário da gordura visceral, que se destacou como um fator determinante”, aponta o estudo.

Em termos práticos, isso significa que duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos muito diferentes, dependendo da quantidade de gordura acumulada no abdômen.

Durante as intervenções, a redução média da gordura visceral foi de cerca de 24%. Aqueles que conseguiram manter essa perda ao longo dos anos apresentaram menor taxa de atrofia cerebral — um dos principais marcadores do envelhecimento cognitivo.

Impacto direto no cérebro

Os resultados indicam que a gordura visceral influencia diretamente o ritmo de envelhecimento do cérebro. Participantes com maior acúmulo dessa gordura apresentaram taxas mais rápidas de perda de volume cerebral, incluindo regiões associadas à memória e ao raciocínio.

Além disso, análises estatísticas revelaram uma relação inversa clara: quanto maior a gordura visceral acumulada ao longo do tempo, pior o desempenho cognitivo.

Outro dado importante é que essa associação não foi observada para outros tipos de gordura, como a subcutânea (aquela logo abaixo da pele), reforçando o papel específico da gordura visceral como fator de risco.

O papel do metabolismo

O estudo também investigou possíveis mecanismos biológicos por trás dessa relação. A principal hipótese envolve o controle glicêmico.

Segundo os autores, níveis elevados de glicose no sangue e hemoglobina glicada (HbA1c) — indicadores de diabetes e resistência à insulina — foram os únicos biomarcadores consistentemente associados à atrofia cerebral ao longo do tempo.

“A melhora no controle glicêmico parece ser um dos principais caminhos pelos quais a redução da gordura visceral protege o cérebro”, afirmam os pesquisadores.

A gordura visceral é metabolicamente ativa e produz substâncias inflamatórias que podem afetar o cérebro, contribuindo para processos como neuroinflamação, redução da plasticidade neural e até acúmulo de proteínas tóxicas associadas à doença de Alzheimer.

Contexto global e impacto público

Os resultados chegam em um momento de alerta global. A obesidade e a demência estão em crescimento acelerado no mundo. Estimativas indicam que o número de pessoas com demência pode triplicar até 2050.

Tradicionalmente, a obesidade é considerada um fator de risco para doenças cardiovasculares e diabetes. Mais recentemente, também passou a ser reconhecida como um fator modificável para demência. No entanto, este estudo sugere que o foco deve ser refinado.

“A gordura visceral pode ser um dos principais motores da relação entre obesidade e neurodegeneração”, destacam os autores.


Apesar da robustez — com acompanhamento prolongado, uso de imagens cerebrais e análise de múltiplos fatores — o estudo apresenta limitações. A amostra era predominantemente masculina (86%) e composta por indivíduos com sobrepeso ou obesidade, o que pode restringir a generalização dos resultados.

Além disso, o acompanhamento após as intervenções não foi randomizado, o que limita conclusões definitivas de causa e efeito.

Ainda assim, especialistas consideram os achados relevantes. O estudo reforça a ideia de que intervenções precoces no estilo de vida — como dieta equilibrada e atividade física — podem ter efeitos duradouros sobre a saúde cerebral.

Uma mudança de paradigma

Ao destacar a gordura visceral como alvo prioritário, a pesquisa pode influenciar diretrizes clínicas e políticas públicas. Em vez de focar apenas na perda de peso total, estratégias de saúde podem passar a priorizar a redução da gordura abdominal.

“Identificar fatores modificáveis para o declínio cognitivo é uma prioridade global. Nossos resultados apontam a gordura visceral como um desses alvos”, concluem os autores.

Em um cenário de envelhecimento populacional acelerado, a mensagem é clara: cuidar do metabolismo hoje pode ser decisivo para preservar o cérebro amanhã.


Referência
Pachter, D., Klein, H., Kamer, O. et al. A perda sustentada de gordura visceral está associada à atenuação da atrofia cerebral e à melhora da função cognitiva no final da meia-idade. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-71141-4

 

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