Saúde

Álcool eleva risco de infecção oral por HPV de alto risco, aponta estudo
Pesquisa com mais de 3 mil homens em três países indica que consumo moderado a alto pode favorecer infecção associada a câncer de garganta
Por Laercio Damasceno - 03/04/2026


Imagem: Reprodução


Um estudo mundial de grande escala trouxe novas evidências sobre um fator de risco ainda pouco compreendido na origem de cânceres de cabeça e pescoço: o consumo de álcool. Publicada nesta quinta-feira (2), na revista The Lancet Regional Health – Americas, a pesquisa mostra que homens que ingerem maior quantidade de bebidas alcoólicas têm maior probabilidade de apresentar infecção oral por tipos de alto risco do papilomavírus humano (HPV), principal precursor de tumores na orofaringe.

Coordenado pela epidemiologista Anna Beltrame, do Center for Immunization and Infection Research in Cancer, nos Estados Unidos, o estudo analisou dados de 3.121 homens participantes do consórcio internacional HIM (HPV Infection in Men), com amostras coletadas no Brasil, México e Estados Unidos. Entre os coautores estão pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), como Luisa L. Villa, e do Instituto Nacional de Saúde Pública do México, liderado por Eduardo Lazcano-Ponce.

A principal conclusão é clara: indivíduos que consumiram 16 ou mais doses de álcool por mês — o equivalente a cerca de quatro doses semanais — apresentaram um aumento significativo na detecção de HPV oral de alto risco (HR-HPV), mesmo após ajustes estatísticos para fatores como idade, comportamento sexual e tabagismo.

Segundo Beltrame, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o olhar sobre fatores modificáveis. “Observamos que níveis de consumo frequentemente considerados moderados já estão associados a maior probabilidade de infecção por HPV oral de alto risco, o que pode ter implicações diretas na prevenção de cânceres”, afirma a autora no artigo.

Crescente incidência de câncer ligado ao HPV

O HPV é um vírus amplamente disseminado, conhecido principalmente por sua associação com o câncer de colo do útero. No entanto, nas últimas décadas, sua relação com tumores da orofaringe — que incluem garganta, base da língua e amígdalas — tem se tornado cada vez mais evidente.

De acordo com dados citados no estudo, cerca de 42 mil novos casos de câncer orofaríngeo associados ao HPV foram registrados no mundo em 2018, sendo aproximadamente 80% em homens. A infecção persistente por variantes de alto risco, como o HPV-16, é o principal fator causal desses tumores.

Historicamente, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool eram considerados os principais responsáveis por cânceres de cabeça e pescoço. No entanto, com a redução das taxas de tabagismo em diversos países, a proporção de casos ligados ao HPV tem aumentado de forma consistente.

“Estamos diante de uma mudança no perfil epidemiológico desses cânceres”, explica Anna R. Giuliano, coautora do estudo e referência mundial em HPV. “Isso exige novas estratégias de prevenção que levem em conta tanto o comportamento sexual quanto outros fatores, como o consumo de álcool.”


Números que chamam atenção

Os dados da pesquisa revelam um cenário preocupante. Entre os participantes que relataram consumo de álcool no mês anterior, 20% apresentaram algum tipo de HPV oral. Desses, 6,1% estavam infectados por variantes de alto risco.

A análise detalhada mostrou que a prevalência de HR-HPV aumentava conforme o volume de álcool consumido: de 4,7% entre aqueles que ingeriam até duas doses mensais para 7,6% entre os que consumiam 16 doses ou mais.

Após ajustes estatísticos, o consumo mais elevado manteve associação significativa com a infecção (razão de chances ajustada de 1,60). Em outras palavras, esses indivíduos tinham cerca de 60% mais probabilidade de apresentar HPV oral de alto risco em comparação com os que bebiam pouco ou nada.

Um dado particularmente relevante foi observado entre não fumantes. Nesse grupo, o impacto do álcool foi ainda mais expressivo: o risco mais que dobrou entre os que consumiam maiores quantidades. Já entre fumantes ou ex-fumantes, a associação não foi estatisticamente significativa, sugerindo possíveis interações complexas entre os fatores.

Possíveis mecanismos biológicos

Embora o estudo não tenha investigado diretamente os mecanismos biológicos, os autores apontam hipóteses plausíveis. O álcool pode atuar como agente irritante da mucosa oral, facilitando a entrada do vírus nas células. Além disso, seu metabolismo gera compostos como o acetaldeído, que têm potencial carcinogênico.

Outro fator é o impacto do álcool no sistema imunológico. “O consumo pode comprometer a resposta imune local, dificultando a eliminação do vírus e favorecendo sua persistência”, destacam os pesquisadores.

Contexto global e impacto em saúde pública

O estudo se insere em um contexto mais amplo de preocupação global com os efeitos do álcool. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o consumo de bebidas alcoólicas está associado a cerca de 2,6 milhões de mortes anuais no mundo, incluindo aproximadamente 400 mil por câncer.

Até agora, pelo menos sete tipos de câncer já foram claramente associados ao álcool, incluindo os de fígado, esôfago e mama. A possível inclusão de infecções virais como etapa intermediária — no caso do HPV — amplia ainda mais o espectro de riscos.

Para especialistas, os novos achados têm implicações diretas em políticas públicas. “A prevenção do câncer relacionado ao HPV não pode se limitar à vacinação e ao comportamento sexual seguro. O consumo de álcool precisa entrar nessa equação”, afirma Giuliano.

Os autores ressaltam que o estudo tem caráter transversal, ou seja, não permite estabelecer causalidade definitiva. Ainda assim, os resultados são consistentes com evidências anteriores e reforçam a necessidade de investigações longitudinais.

“O próximo passo é entender se o álcool não apenas aumenta o risco de infecção, mas também sua persistência ao longo do tempo — fator crucial para o desenvolvimento do câncer”, explica Beltrame.

Um alerta silencioso

Em um cenário em que o consumo de álcool é amplamente difundido e socialmente aceito, os resultados acendem um alerta importante. Mesmo níveis considerados moderados podem ter consequências invisíveis, como o aumento da vulnerabilidade a infecções oncogênicas.

Para os pesquisadores, a mensagem é clara: reduzir o consumo de álcool pode ser uma estratégia relevante não apenas para prevenir doenças crônicas tradicionais, mas também para conter o avanço de cânceres associados ao HPV.

“Trata-se de uma oportunidade concreta de intervenção”, conclui o estudo. “E quanto mais cedo incorporarmos essa evidência às políticas de saúde, maior será o impacto na população.”


Referência
Associação entre o consumo de álcool e a infecção oral pelo papilomavírus humano de alto risco: um estudo transversal na coorte multinacional de infecção por HPV em homens (HIM). The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 58 101464 Publicado: 2 de abril de 2026. Ana Beltrame, Luisa L. Villa, Eduardo Lázcano-Ponce, Roberto Carvalho da Silva, Lenice Galan de Paula, Fã Wenyie outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101464Link externo.

 

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