Saúde

Imunoterapia em xeque: estudo revela papel ambíguo de via molecular no câncer de mama
Pesquisa internacional mostra que a via JAK-STAT pode tanto impulsionar tumores quanto fortalecer o sistema imune — descoberta pode redefinir tratamentos e evitar terapias ineficazes
Por Laercio Damasceno - 08/04/2026


Imagem: Reprodução


Uma das principais apostas da oncologia moderna, a imunoterapia contra o câncer de mama acaba de ganhar um novo capítulo — e não sem controvérsia. Um estudo publicado nesta terça-feira (7), na revista científica eLife, por uma equipe liderada pelos pesquisadores Jianbo Zhou e Heng Zhang revela que a via molecular JAK-STAT, tradicionalmente vista como um alvo terapêutico, desempenha um papel duplo e até paradoxal na doença. Dependendo do contexto celular, ela pode tanto favorecer o crescimento tumoral quanto fortalecer a resposta imunológica do organismo .

A descoberta, baseada em análises multiômicas — que combinam dados genéticos, transcriptômicos e celulares —, pode ter impacto direto na forma como médicos escolhem tratamentos, especialmente em pacientes com câncer de mama triplo-negativo, uma das variantes mais agressivas da doença.

“Nosso trabalho mostra que a inibição indiscriminada da via JAK-STAT pode ser contraproducente”, afirma Jianbo Zhou, pesquisador da Universidade de Sichuan e um dos autores principais do estudo. “Em vez de bloquear completamente essa via, precisamos entender quando e onde ela é benéfica ou prejudicial.”

Uma via, dois efeitos opostos

A via JAK-STAT é um dos principais mecanismos de comunicação celular, responsável por transmitir sinais químicos que regulam crescimento, inflamação e resposta imune. Por décadas, foi considerada um alvo promissor para terapias anticâncer, justamente por sua associação com a proliferação tumoral.

O novo estudo, no entanto, desafia essa visão simplificada. Ao analisar milhares de células individuais de tumores mamários e tecidos saudáveis, os pesquisadores identificaram que a atividade da via varia significativamente entre diferentes tipos celulares.

Nos linfócitos T — células fundamentais do sistema imunológico — níveis elevados da via JAK-STAT estão associados a maior capacidade de destruir células tumorais. Já nas células tumorais propriamente ditas, a mesma ativação está ligada a características malignas, como proliferação acelerada e mecanismos de evasão imunológica .

“É literalmente uma espada de dois gumes”, diz Heng Zhang. “Enquanto fortalece o ataque do sistema imune, também pode ajudar o tumor a se proteger.”


Impacto direto na imunoterapia

A imunoterapia, especialmente com inibidores de checkpoint imunológico como os anti-PD-1, revolucionou o tratamento do câncer ao estimular o próprio organismo a combater tumores. No entanto, a resposta dos pacientes ainda é altamente variável.

Segundo o estudo, a atividade elevada da via JAK-STAT pode servir como um marcador preditivo de sucesso nesse tipo de tratamento. Pacientes com níveis mais altos dessa sinalização, especialmente aqueles com câncer de mama triplo-negativo, apresentaram melhores respostas à imunoterapia .

Um dos achados mais relevantes envolve a proteína STAT4, identificada como um biomarcador-chave. Ela atua simultaneamente promovendo funções tumorais e fortalecendo a ação de células imunológicas, tornando-se um indicador preciso da eficácia potencial do tratamento.

“Identificamos o eixo STAT4 como um dos principais determinantes da resposta à imunoterapia”, explica Lei Yu, coautor do estudo. “Isso abre caminho para estratégias mais personalizadas.”

Dados robustos e colaboração internacional

A pesquisa analisou um amplo conjunto de dados, incluindo mais de mil amostras tumorais do banco The Cancer Genome Atlas (TCGA) e milhares de células individuais obtidas por sequenciamento de RNA. Também foram incluídos dados de pacientes submetidos à imunoterapia, permitindo correlacionar diretamente a atividade molecular com os desfechos clínicos.

Instituições como a Universidade de Sichuan, o Centro de Câncer da Universidade Sun Yat-Sen e hospitais especializados em oncologia participaram da investigação, reforçando o caráter internacional e multidisciplinar do trabalho.

Além disso, experimentos laboratoriais com células tumorais confirmaram os achados computacionais, demonstrando que a manipulação da via JAK-STAT altera diretamente o comportamento das células cancerígenas.

Imagem: Reprodução

Desde a década de 1990, a via JAK-STAT vem sendo estudada como um dos principais motores do câncer. Medicamentos inibidores dessa via já são utilizados em doenças inflamatórias e vêm sendo testados em oncologia.

O novo estudo, porém, sugere que essa abordagem pode precisar de revisão. Em vez de bloquear totalmente a via, o futuro pode estar em modulá-la de forma seletiva, preservando seus efeitos benéficos no sistema imune.

“Estamos entrando em uma era de precisão extrema”, afirma Hailin Tang, outro autor do artigo. “Não basta saber qual via está ativa — é preciso entender em qual célula, em qual momento e com qual intensidade.”

O câncer de mama é o mais comum entre mulheres no mundo, representando cerca de 32% dos novos casos e 14% das mortes por câncer feminino . No Brasil, a doença também lidera as estatísticas, o que torna avanços nesse campo particularmente relevantes para a saúde pública.

Especialistas apontam que a incorporação de biomarcadores como o STAT4 pode reduzir custos e aumentar a eficácia dos tratamentos, evitando terapias caras e ineficazes em pacientes que não responderiam a elas.

O próximo passo, segundo os autores, é validar os achados em ensaios clínicos e desenvolver testes diagnósticos que possam ser usados na prática médica.

“A promessa da medicina personalizada está cada vez mais próxima”, conclui Zhou. “Mas ela exige que abandonemos soluções simples para problemas complexos.”

Se confirmadas, as descobertas podem não apenas redefinir o tratamento do câncer de mama, mas também influenciar estratégias terapêuticas em outros tipos de câncer, consolidando uma nova visão sobre o papel das vias moleculares na oncologia moderna.


Referência
Jianbo ZhouHeng ZhangHai Lin TangLei YuFu Peng2026 A heterogeneidade da via JAK-STAT governa a resposta à imunoterapia no câncer de mama eLife 15 : RP110635. https://doi.org/ 10.7554/eLife.110635.1

 

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