Saúde

Genética do vírus da hepatite D revela diversidade inédita e impõe novos desafios ao diagnóstico global
Maior estudo já realizado identifica subtipos desconhecidos do HDV e reforça a necessidade de ampliar testagem e estratégias terapêuticas
Por Laercio Damasceno - 09/04/2026



Imagem: Reprodução


Um amplo estudo internacional publicado nesta quinta-feira (9), na revista The Lancet Microbe, lança nova luz sobre a complexidade genética do vírus da hepatite D (HDV), considerado a forma mais agressiva de hepatite viral. A pesquisa, liderada por Savrina Manhas e colegas, analisou amostras de 407 pacientes com infecção crônica em 24 países e identificou uma diversidade genética significativamente maior do que se supunha até agora, com a descoberta de novos subgenótipos do vírus.

A hepatite D ocorre apenas em indivíduos já infectados pelo vírus da hepatite B (HBV), o que agrava substancialmente o quadro clínico. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas vivem com HBV, e aproximadamente 12 milhões delas também carregam o HDV . Essa coinfecção está associada a maior risco de cirrose e câncer hepático.

“Nosso estudo representa o maior conjunto de dados de sequenciamento completo do HDV até hoje”, afirma a pesquisadora Savrina Manhas, principal autora do trabalho. “Identificamos novos subgenótipos dentro do HDV genótipo 1, o que sugere que a diversidade genética do vírus é muito mais ampla do que se pensava.”

A equipe — que inclui cientistas como Silvia Chang, Ross Martin e o hepatologista francês Tarik Asselah — utilizou técnicas avançadas de sequenciamento genético para mapear tanto o HDV quanto o HBV em amostras coletadas em ensaios clínicos e em populações diversas. Os resultados mostram que o genótipo HDV-1 é predominante, presente em 89% dos casos analisados, frequentemente associado ao genótipo D do HBV, formando a combinação mais comum (79% dos pacientes) .

Mas o dado mais relevante foi a identificação de quatro novos subgenótipos dentro do HDV-1, classificados provisoriamente como GT1fp a GT1ip. Esses subtipos não haviam sido descritos anteriormente e revelam uma ramificação evolutiva mais complexa do vírus. “Essa descoberta tem implicações diretas para o desenvolvimento de testes diagnósticos mais sensíveis”, explica Asselah, professor da Université de Paris Cité. “Se não considerarmos essa diversidade, corremos o risco de subdiagnosticar a infecção.”

A figura mostra os níveis de RNA do HDV disponíveis para os participantes com genotipagem bem-sucedida (n=345) e as cargas virais do HDV disponíveis para os participantes que não tiveram a genotipagem bem-sucedida (n=16). A carga viral não estava disponível para alguns participantes (n=46). A linha vermelha indica o valor mediano para cada grupo. HDV = vírus da hepatite

A análise filogenética, baseada em mais de 700 sequências virais, também evidenciou que o HDV apresenta uma variabilidade genética muito superior à do HBV — podendo chegar a 40% ao longo do genoma completo, contra cerca de 13% no vírus B . Essa diferença ajuda a explicar por que o HDV é mais difícil de detectar e tratar.

Outro aspecto relevante do estudo foi a avaliação da resposta ao medicamento bulevirtide, uma terapia relativamente recente aprovada para hepatite D. Os dados indicam que a eficácia do tratamento foi semelhante entre os diferentes subgenótipos do HDV-1, o que sugere um potencial terapêutico amplo, independentemente da variação genética.

“Isso é encorajador, pois indica que o tratamento pode funcionar de forma consistente em diferentes populações”, afirma Ross Martin, coautor do estudo. Ainda assim, ele ressalta que a compreensão das diferenças genéticas pode ajudar a aprimorar futuras terapias e estratégias personalizadas.

Historicamente, o conhecimento sobre o HDV tem sido limitado pela escassez de dados genômicos. Até recentemente, havia cerca de 1.300 sequências disponíveis em bancos públicos, número muito inferior ao do HBV, que conta com cerca de 10 mil . Essa lacuna dificultava a compreensão da distribuição global dos genótipos e sua relação com a gravidade da doença.

O novo estudo busca preencher essa lacuna ao fornecer 386 sequências completas do HDV — um avanço significativo para a epidemiologia molecular do vírus. Ainda assim, os autores alertam que regiões como a África permanecem sub-representadas nos dados, o que pode ocultar ainda mais diversidade genética.

“O próximo passo é expandir o sequenciamento para áreas pouco estudadas”, diz Silvia Chang. “Sem isso, não teremos uma visão completa da circulação global do vírus.”

O impacto dessas descobertas vai além do campo científico. Especialistas apontam que a subnotificação da hepatite D é um problema crítico de saúde pública. Como o HDV depende da presença do HBV, muitos pacientes não são testados especificamente para o vírus delta, o que leva a diagnósticos incompletos.

Nesse contexto, o estudo reforça a recomendação de que todos os indivíduos com hepatite B sejam testados para HDV — uma medida que pode melhorar significativamente o manejo clínico e reduzir complicações graves.

Para o hepatologista italiano Pietro Lampertico, também autor do trabalho, “a compreensão da diversidade genética do HDV é essencial para garantir que novas terapias sejam eficazes globalmente”. Ele acrescenta que “o desenvolvimento de testes pan-genotípicos será fundamental para enfrentar esse desafio”.

Combinando inovação tecnológica, colaboração internacional e análise de grande escala, o estudo marca um avanço decisivo na compreensão da hepatite D. Mais do que revelar a complexidade de um vírus negligenciado, ele aponta caminhos concretos para melhorar o diagnóstico, o tratamento e, sobretudo, o controle de uma doença que ainda afeta milhões em silêncio ao redor do mundo.


Referência
Classificação e sequenciamento do vírus da hepatite D em uma grande coorte de indivíduos cronicamente infectados, pareados com o sequenciamento do vírus da hepatite B concomitante: um estudo de caracterização genômica.
The Lancet MicrobePublicado em: 9 de abril de 2026. Savrina Manhas, Silvia Chang, Ross Martin, André Lopez, Thomas Aeschbacher, Simin Xue outros. DOI: 10.1016/j.lanmic.2025.101328

 

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