Saúde

Metabolismo reprogramado: estudo revela como células B aceleram defesa imunológica
Pesquisa internacional mostra que absorção de aminoácidos e síntese de colesterol são decisivas para a proliferação de células de defesa — descoberta abre caminho para novas terapias imunológicas
Por Laercio Damasceno - 10/04/2026


Imagem: Reprodução


Um estudo publicado nesta quinta-feira (9), na revista científica eLife, traz novas evidências de que o sistema imunológico depende de uma profunda reprogramação metabólica para responder a infecções. Liderada por Dana MS Cheung, da University of Dundee, a pesquisa demonstra que células B — responsáveis pela produção de anticorpos — reorganizam seu metabolismo de forma dinâmica ao serem ativadas, permitindo crescimento acelerado e maior eficiência na defesa do organismo.

O trabalho, que reúne cientistas também da University of Milan, identificou três pilares metabólicos essenciais para esse processo: aumento da captação de aminoácidos, intensificação da produção de colesterol e ativação da prenilação de proteínas. Esses mecanismos, segundo os autores, são determinantes para que as células B saiam de um estado “dormente” e entrem em rápida proliferação.

“Mostramos que o metabolismo não é apenas um suporte passivo, mas um motor ativo da resposta imune”, afirma Cheung no artigo. “Sem essas mudanças, as células B simplesmente não conseguem se expandir de forma eficiente.”

Da inércia à explosão celular

Em condições normais, células B circulam no organismo em estado de baixa atividade metabólica. No entanto, quando expostas a agentes infecciosos — como o lipopolissacarídeo (LPS), componente de bactérias — elas são ativadas por receptores específicos, como o TLR4. Esse processo desencadeia uma cascata de sinais que culmina na produção de anticorpos.

O novo estudo detalha o que acontece “por dentro” dessas células durante essa transição. Utilizando proteômica quantitativa — técnica capaz de mapear milhares de proteínas simultaneamente — os pesquisadores identificaram mais de 7 mil proteínas e observaram um aumento de aproximadamente duas vezes na massa proteica celular após 24 horas de ativação .

Além disso, cerca de 863 proteínas foram significativamente aumentadas, enquanto centenas de outras surgiram exclusivamente após o estímulo. Entre os processos mais ativados estão aqueles ligados ao ciclo celular, produção de ribossomos e síntese proteica — todos essenciais para a multiplicação celular.

“É uma mudança sistêmica”, explica J Simon C Arthur, coautor do estudo. “A célula precisa reconstruir praticamente toda sua maquinaria interna para sustentar a divisão rápida.”

Aminoácidos: combustível da expansão

Um dos achados mais relevantes envolve o papel dos aminoácidos. A pesquisa identificou forte aumento na expressão do transportador SLC7A5, responsável por levar aminoácidos essenciais para dentro da célula. Quando esse gene foi desativado em experimentos, a proliferação das células B foi severamente comprometida .

Isso indica que a simples disponibilidade de nutrientes no organismo não é suficiente — é necessário que a célula amplie ativamente sua capacidade de absorção.

“Sem aminoácidos suficientes, não há como sustentar a síntese de proteínas necessária para a divisão celular”, destaca Cheung. “Esse é um gargalo crítico da resposta imune.”

Colesterol com nova função

Outro ponto surpreendente do estudo é o papel do colesterol. Tradicionalmente associado a doenças cardiovasculares, ele surge aqui como componente essencial para a expansão celular. Os pesquisadores observaram aumento significativo na produção de colesterol intracelular após a ativação das células B.

Mais importante: ao bloquear a enzima HMG-CoA redutase — chave na síntese de colesterol — a proliferação celular foi interrompida .

Segundo os autores, isso ocorre porque o colesterol e seus derivados são necessários para a prenilação de proteínas, um processo que permite a correta localização e funcionamento de moléculas envolvidas no crescimento celular.

“É um exemplo claro de como moléculas conhecidas podem ter funções inesperadas em contextos biológicos específicos”, afirma Arthur.

Uma lacuna histórica preenchida

Até então, a maioria dos estudos sobre metabolismo imunológico focava em células T. As células B, apesar de fundamentais na produção de anticorpos, permaneciam relativamente pouco exploradas nesse aspecto.

O novo trabalho preenche essa lacuna ao demonstrar que a reprogramação metabólica não só ocorre, como é indispensável para a função dessas células.

Historicamente, pesquisas já haviam mostrado aumento no consumo de glicose durante a ativação de células B. No entanto, o novo estudo revela que outros caminhos metabólicos — especialmente aqueles ligados a lipídios e aminoácidos — são igualmente, ou até mais, importantes.

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As implicações do estudo vão além da imunologia básica. Ao identificar pontos críticos do metabolismo celular, a pesquisa abre possibilidades para o desenvolvimento de novas terapias.

Por um lado, estimular esses processos pode fortalecer respostas imunológicas em vacinas ou em pacientes imunocomprometidos. Por outro, bloquear essas vias pode ser útil em doenças autoimunes ou cânceres de células B, como linfomas.

Se conseguimos modular esses circuitos metabólicos, podemos potencialmente controlar a resposta imune de forma mais precisa”, diz Cheung.


Especialistas apontam que medicamentos já existentes, como estatinas — que atuam justamente na via do colesterol — podem ganhar novos usos terapêuticos a partir dessas descobertas.

Ciência em expansão

O estudo também reforça uma tendência crescente na biomedicina: a integração entre metabolismo e imunidade, área conhecida como imunometabolismo.

Nos últimos anos, essa abordagem tem revelado que o funcionamento do sistema imune está profundamente ligado ao estado metabólico das células — uma conexão que pode redefinir estratégias terapêuticas.

Ao desvendar como células B reorganizam seu metabolismo para responder a ameaças, a pesquisa da equipe de Dundee e Milão não apenas amplia o conhecimento científico, mas também aponta caminhos concretos para intervenções médicas mais eficazes.

Como resume Arthur: “Entender o metabolismo das células imunes é entender o próprio motor da defesa do corpo humano.”


Referência
Dana MS Cheung, Momchil Razsolkov, Fabrizia Bonacina, Stephen Andrews, Megan Sumoreeah, Linda V Sinclair, André JM Howden, J Simon C Arthur 2025. Lipopolissacarídeo estimula mudanças dinâmicas no metabolismo de células B para promover a proliferação eLife 14 : RP109093. https://doi.org/ 10.7554/eLife.109093.2

 

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