Saúde

Células-tronco rejuvenescem idosos frágeis e avançam como promessa terapêutica
Estudo clínico de fase 2 mostra melhora significativa na mobilidade, força e qualidade de vida após infusão de células derivadas do cordão umbilical
Por MaisConhecer - 21/04/2026


Células-tronco mesenquimais derivadas do cordão umbilical (UC-MSCs). Imagem: Reprodução


A síndrome da fragilidade foi tratada, por muito tempo, como uma consequência inevitável do envelhecimento — um declínio progressivo que reduz a força, a mobilidade e a autonomia de milhões de idosos. Agora, um ensaio clínico conduzido no Vietnã indica que a medicina regenerativa pode começar a mudar esse cenário. Um estudo publicado nesta terça-feira (21), na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, demonstrou que a infusão de células-tronco mesenquimais derivadas do cordão umbilical (UC-MSCs) é segura e capaz de melhorar significativamente a função física em idosos frágeis .

A pesquisa, liderada por Liem T. Nguyen e equipe do Vinmec Research Institute of Stem Cell and Gene Technology, em parceria com a VinUniversity e a Hanoi Medical University, acompanhou 147 participantes com idades entre 60 e 85 anos diagnosticados com fragilidade clínica. Os voluntários foram divididos em dois grupos: um recebeu duas infusões intravenosas de células-tronco ao longo de três meses, enquanto o outro recebeu apenas suplementação nutricional padrão .

Os resultados, após nove meses de acompanhamento, chamaram a atenção da comunidade científica. O principal indicador de desempenho físico — o escore SPPB (Short Physical Performance Battery) — aumentou significativamente no grupo tratado. A diferença média foi de 1,1 ponto em relação ao grupo controle, valor considerado clinicamente relevante. “Esse nível de melhora ultrapassa o limiar mínimo de impacto funcional e indica um benefício real para a vida diária dos pacientes”, afirma Nguyen no artigo .

Imagem: Reprodução

Além disso, os participantes tratados apresentaram ganhos consistentes em força muscular — com aumento de até 4 kg na força de preensão manual — e maior nível de atividade física semanal. A fadiga, um dos sintomas centrais da fragilidade, também diminuiu de forma significativa. “Observamos melhorias amplas, que vão da mobilidade à percepção de saúde geral”, destacam os autores .

Do ponto de vista de segurança, os dados são igualmente relevantes. Nenhum evento adverso grave foi registrado durante o estudo. Apenas efeitos leves, como dor de cabeça e tontura, ocorreram em cerca de 13,7% dos pacientes e desapareceram espontaneamente. “A ausência de complicações graves reforça o perfil de segurança da terapia”, escrevem os pesquisadores .

A fragilidade afeta entre 4,9% e 27,3% da população idosa mundial, dependendo dos critérios utilizados, e está associada a maior risco de quedas, hospitalizações e morte. Com o envelhecimento acelerado da população global, o problema tornou-se uma prioridade de saúde pública. Até agora, as intervenções disponíveis — como exercícios físicos e suporte nutricional — têm eficácia limitada, especialmente em casos mais avançados .

É nesse contexto que a terapia celular ganha destaque. As células-tronco mesenquimais são conhecidas por suas propriedades anti-inflamatórias e regenerativas. No estudo, os pesquisadores observaram uma redução significativa de marcadores inflamatórios, como interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-a), após o tratamento. Esses compostos estão diretamente ligados ao processo de “inflamação crônica do envelhecimento”, conhecido como inflammaging .

Outro achado relevante foi a diminuição da expressão do gene p16INK4a, um marcador de envelhecimento celular. Segundo os autores, isso sugere que a terapia pode atuar não apenas nos sintomas, mas também em mecanismos biológicos subjacentes à fragilidade. “Os resultados apontam para um possível efeito modificador da doença”, afirma o estudo .

Apesar do entusiasmo, os pesquisadores adotam cautela. O ensaio foi conduzido em um único centro e com desenho aberto, o que pode introduzir vieses. Além disso, embora os efeitos tenham sido consistentes ao longo de nove meses, alguns marcadores biológicos apresentaram melhora temporária, levantando dúvidas sobre a duração do benefício. “É provável que estratégias com doses repetidas ou terapias combinadas sejam necessárias para manter os efeitos a longo prazo”, avaliam .

Especialistas independentes veem o estudo como um avanço importante, mas ainda preliminar. Ensaios clínicos maiores, multicêntricos e duplo-cegos — considerados padrão-ouro — serão necessários para confirmar os resultados e definir protocolos ideais de tratamento.

Ainda assim, o impacto potencial é significativo. Se confirmada, a terapia com células-tronco pode inaugurar uma nova abordagem para o envelhecimento, tratando a fragilidade não apenas como um conjunto de sintomas, mas como uma condição biológica modificável.

“Estamos diante de uma possível mudança de paradigma”, concluem os autores. “A fragilidade pode deixar de ser um destino inevitável e passar a ser uma condição tratável.”


Para milhões de idosos em todo o mundo, essa perspectiva representa mais do que um avanço científico — é a promessa concreta de envelhecer com mais autonomia, dignidade e qualidade de vida.


Referência
Segurança e eficácia da infusão de células-tronco mesenquimais alogênicas derivadas do cordão umbilical para fragilidade: um ensaio clínico de fase 2, unicêntrico, randomizado, aberto e controlado. eBioMedicina Vol. 127 106268 Publicado: 21 de abril de 2026. Liem T. Nguyen, Kien T. Nguyen, LanTM Dao, Van T. Hoang, Trang TK Phan, Nhung TH Dinhe outros.
DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106268

 

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