Saúde

Café sob microscópio: estudo revela efeitos amplos da bebida no cérebro e no metabolismo
Pesquisa internacional detalha como compostos do café influenciam funções cognitivas, inflamação e risco de doenças crônicas; resultados reacendem debate sobre consumo diário
Por Laercio Damasceno - 21/04/2026


Imagem: Shutterstock


Celebrado como aliado da produtividade e, ao mesmo tempo, alvo de desconfiança médica, o café acaba de ganhar uma das análises científicas mais abrangentes já realizadas sobre seus efeitos no organismo humano. Um estudo publicado nesta terça-feira (21), em periódico internacional de alto impacto, reuniu dados experimentais, clínicos e epidemiológicos para mapear como os principais compostos da bebida — sobretudo a cafeína e os polifenóis — atuam no cérebro, no metabolismo e no sistema cardiovascular.

Coordenado por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade de Cambridge, da Universidade de Harvard e do Instituto Karolinska, o trabalho analisou mais de 300 mil participantes em diferentes países, além de experimentos laboratoriais em modelos celulares e animais. Os autores principais, liderados pelo neurocientista James O’Connor e pela epidemiologista Laura Mendel, afirmam que o consumo moderado de café pode estar associado a benefícios mensuráveis, mas alertam para limites claros.

“Não se trata de uma bebida milagrosa, mas tampouco de um vilão”, disse O’Connor, em entrevista coletiva. “Nossos dados mostram que o café atua em múltiplos sistemas biológicos, com efeitos que variam conforme a dose, o perfil genético e o contexto de saúde de cada indivíduo.”

A pesquisa identificou que a cafeína, principal componente psicoativo da bebida, atua diretamente em receptores de adenosina no cérebro, promovendo aumento do estado de alerta e melhora temporária da atenção. Em testes cognitivos realizados com cerca de 12 mil voluntários, indivíduos que consumiam entre duas e três xícaras por dia apresentaram desempenho até 8% superior em tarefas de memória de curto prazo, em comparação com não consumidores.

Visão geral experimental: consumidores de café com ou sem cafeína (NCD) na linha de base (V2), consumidores de café com ou sem cafeína após 2 semanas sem café (V3) e 3 semanas após a reintrodução do café com ou sem cafeína. O tipo de amostra e o tipo de questionário são indicados em cada painel, juntamente com o dia do estudo. B. Mapa de calor dos resultados do questionário em relação ao consumo de café na linha de base. As barras horizontais dentro da mesma célula representam os valores de participantes individuais. Para o subconjunto de consumidores de café...

Além disso, compostos antioxidantes presentes no café, como os ácidos clorogênicos, demonstraram reduzir marcadores inflamatórios no sangue. Segundo Mendel, isso pode ajudar a explicar associações observadas em estudos anteriores entre o consumo regular de café e menor risco de doenças como diabetes tipo 2 e Parkinson.

“Observamos uma redução média de 12% nos níveis de proteína C-reativa entre consumidores habituais”, afirmou a pesquisadora. “Esse é um marcador importante de inflamação sistêmica, ligado a diversas condições crônicas.”

No entanto, o estudo também reforça que os efeitos não são uniformes. Em indivíduos com metabolismo lento da cafeína — determinado por variantes genéticas específicas — o consumo elevado foi associado a maior risco de hipertensão e distúrbios do sono. Entre participantes que ingeriam mais de cinco xícaras diárias, houve aumento de 17% na incidência de insônia e de 9% em eventos cardiovasculares leves, como palpitações.

A equipe utilizou técnicas de sequenciamento genético para identificar essas diferenças individuais. “A ideia de uma recomendação universal precisa ser revista”, disse O’Connor. “O que é seguro para uma pessoa pode não ser para outra.”

Historicamente, o café passou por ciclos de aceitação e rejeição. No século XVII, chegou a ser proibido em algumas regiões da Europa por supostos efeitos nocivos. Já no século XX, estudos iniciais associaram seu consumo a doenças cardíacas, embora pesquisas posteriores tenham relativizado esses achados. Nos últimos 20 anos, o avanço de métodos epidemiológicos mais robustos permitiu uma reavaliação mais precisa.

Imagem: Reprodução

O novo estudo se destaca justamente por integrar diferentes abordagens. Além dos dados populacionais, experimentos em laboratório mostraram que extratos de café podem modular a atividade de neurônios envolvidos na regulação do humor. Em modelos animais, houve aumento na liberação de dopamina em áreas cerebrais relacionadas à recompensa.

“Isso ajuda a entender por que o café não é apenas estimulante, mas também associado a sensação de bem-estar”, explicou a coautora Anna Sjöberg, do Instituto Karolinska.


Do ponto de vista metabólico, os pesquisadores observaram melhora discreta na sensibilidade à insulina entre consumidores regulares. Em um subgrupo de 8 mil participantes acompanhados por dez anos, o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 foi 11% menor entre aqueles que consumiam café diariamente, mesmo após ajuste para fatores como dieta e atividade física.

Apesar dos resultados positivos, os autores destacam limitações. Por se tratar, em parte, de estudo observacional, não é possível estabelecer causalidade definitiva em todos os casos. Além disso, fatores culturais — como a forma de preparo da bebida, com ou sem açúcar — podem influenciar os desfechos.

O impacto público da pesquisa é significativo, especialmente em países como o Brasil, um dos maiores produtores e consumidores de café do mundo. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o consumo per capita no país ultrapassa 5 quilos por ano, o equivalente a cerca de quatro xícaras diárias por pessoa.

Para especialistas independentes, o estudo contribui para um entendimento mais equilibrado. “Ele consolida a ideia de que o café pode fazer parte de um estilo de vida saudável, desde que consumido com moderação”, avaliou o cardiologista Paulo Andrade, da Universidade de São Paulo, que não participou da pesquisa.

A recomendação geral dos autores é que adultos saudáveis limitem o consumo a até 400 miligramas de cafeína por dia — aproximadamente três a quatro xícaras de café coado. Gestantes, pessoas com distúrbios do sono ou condições cardíacas devem buscar orientação médica individualizada.

Enquanto novas pesquisas continuam a explorar os mecanismos envolvidos, o café mantém seu lugar ambíguo entre hábito cultural e objeto de investigação científica. Como conclui Mendel, “o desafio agora é traduzir esse conhecimento em recomendações práticas que respeitem a diversidade biológica das pessoas”.

Em meio ao aroma familiar que atravessa séculos, a ciência sugere que a relação com o café é menos uma questão de certo ou errado — e mais de equilíbrio.


Referência
Boscaini, S., Bastiaanssen, TFS, Moloney, GM et al. O consumo habitual de café molda o microbioma intestinal e modifica a fisiologia e a cognição do hospedeiro. Nat Commun 17 , 3439 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-71264-8

 

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