Saúde

Dor crônica e TDAH: estudo revela elo invisível que agrava sofrimento de pacientes
Pesquisa com quase mil adultos em centros de dor no Japão aponta que sintomas de déficit de atenção estão associados a quadros mais intensos — e que ansiedade e depressão são peças-chave nesse mecanismo
Por Laercio Damasceno - 23/04/2026


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Por trás de dores crônicas resistentes a tratamentos convencionais, pode haver um fator pouco investigado na prática clínica: sintomas de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Um estudo multicêntrico conduzido no Japão, com 958 pacientes atendidos em centros especializados, indica que indivíduos com sinais de TDAH apresentam maior probabilidade de relatar dores extremamente intensas — e que esse vínculo é mediado, sobretudo, por ansiedade, depressão e padrões cognitivos negativos.

Publicado nesta quinta-feira (23), na revista Scientific Reports, o trabalho liderado por Satoshi Kasahara, da Universidade de Tóquio, analisou adultos com dor persistente por mais de três meses, mesmo após tratamentos padrão. “Nossos resultados mostram que os sintomas de TDAH estão mais fortemente associados à gravidade da dor do que os sintomas de autismo, e que fatores emocionais desempenham papel central nesse processo”, afirma o autor principal no artigo .

Um problema multifatorial — e ainda subestimado

A dor crônica, segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor, é definida como aquela que persiste por mais de três meses e resulta de uma interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Nas últimas décadas, o modelo biopsicossocial ganhou força, defendendo abordagens multidisciplinares que integrem diferentes especialidades médicas.

Apesar desse avanço conceitual, muitos pacientes continuam sem resposta terapêutica satisfatória. É nesse contexto que o estudo japonês buscou investigar a influência de condições neurodesenvolvimentais — especialmente TDAH e transtorno do espectro autista (TEA) — na experiência da dor.

A amostra analisada incluiu pacientes atendidos em 13 centros de dor distribuídos pelo país. Entre eles, 17,1% apresentaram triagem positiva para TDAH, enquanto apenas 4,4% foram positivos para TEA . A diferença, segundo os autores, já sinaliza um padrão relevante: o TDAH aparece com frequência mais que dobrada em comparação à população geral.

Dor extrema e atenção dispersa

O dado mais expressivo surge quando se observa o grupo com dor mais severa. Entre os pacientes que classificaram sua dor entre 9 e 10 numa escala de 0 a 10 — considerados casos extremos —, 27,4% apresentaram sintomas compatíveis com TDAH .

“Há uma tendência clara: quanto maior a intensidade da dor, maior a taxa de sintomas de TDAH”, destacam os pesquisadores. Essa associação, no entanto, não se manteve para o autismo, que não apresentou correlação significativa com a intensidade da dor.

Os autores ressaltam que o TDAH envolve disfunções nos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico — os mesmos que participam da modulação da dor no sistema nervoso central. Essa sobreposição biológica ajuda a explicar por que pacientes com TDAH podem apresentar maior sensibilidade à dor ou menor capacidade de regulação.

O papel central das emoções

Apesar da associação inicial entre TDAH e dor intensa, a análise estatística revelou um detalhe crucial: essa relação desaparece quando fatores como ansiedade, depressão e “catastrofização da dor” são considerados.

“Os sintomas de TDAH não atuam de forma direta sobre a dor, mas sim por meio de caminhos emocionais e cognitivos”, explicam os autores .


A chamada catastrofização refere-se à tendência de interpretar a dor de forma exageradamente negativa, antecipando consequências graves e sentindo-se incapaz de lidar com o sofrimento. No estudo, pacientes com TDAH apresentaram níveis significativamente mais altos desse padrão cognitivo.

“Os sintomas de TDAH não atuam de forma direta sobre a dor, mas sim por meio de caminhos emocionais e cognitivos”, explicam os autores . Em modelos estatísticos mais completos, ansiedade e depressão surgem como os principais mediadores, seguidos pela catastrofização.

Em termos práticos, isso significa que indivíduos com TDAH tendem a desenvolver maior instabilidade emocional, o que amplifica a percepção da dor e dificulta sua gestão.

Um ciclo difícil de romper

A pesquisa também identificou que pacientes com TDAH apresentam piores indicadores em diversas dimensões: maior incapacidade funcional, mais insônia, pior qualidade de vida e menor autoeficácia para lidar com a dor.

Esse conjunto de fatores cria um ciclo vicioso: a dor agrava o sofrimento psicológico, que por sua vez intensifica a dor. “Trata-se de um sistema de retroalimentação, em que aspectos cognitivos e emocionais amplificam a experiência dolorosa”, afirma o estudo.

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Além disso, o trabalho aponta que mais de 80% dos casos de TDAH em adultos permanecem sem diagnóstico — especialmente em contextos não psiquiátricos, como clínicas de dor. Isso contribui para que o problema passe despercebido e não seja tratado de forma adequada.

Implicações clínicas e novas estratégias

Os autores defendem que a triagem para TDAH deve se tornar parte rotineira da avaliação de pacientes com dor crônica, especialmente nos casos mais graves. Ferramentas simples, como questionários de autorrelato, podem ajudar a identificar indivíduos em risco.

“Reconhecer o TDAH nesses pacientes pode abrir novas possibilidades terapêuticas”, afirmam os pesquisadores . Estudos anteriores já sugerem que o tratamento do TDAH — incluindo medicação — pode reduzir não apenas os sintomas do transtorno, mas também a intensidade da dor.

A abordagem recomendada é interdisciplinar: psiquiatras atuando no manejo farmacológico e emocional, psicólogos aplicando terapias cognitivas e comportamentais, e fisioterapeutas focando na reabilitação funcional.

Autismo: impacto indireto

Embora o TEA não tenha se mostrado diretamente associado à intensidade da dor, o estudo indica que pacientes com traços autistas apresentam maior impacto funcional e emocional. Eles relatam mais insônia, ansiedade e pior qualidade de vida, ainda que a dor em si não seja mais intensa.

Os autores sugerem que isso pode estar ligado à chamada “paradoxo da dor” no autismo — em que coexistem hipersensibilidade e subexpressão dos sintomas, dificultando a avaliação clínica.

Um novo olhar sobre a dor

O estudo japonês reforça a necessidade de ampliar o olhar sobre a dor crônica, incorporando dimensões neuropsicológicas frequentemente negligenciadas. Ao evidenciar o papel do TDAH e dos fatores emocionais, a pesquisa aponta caminhos para tratamentos mais eficazes e personalizados.

“Precisamos ir além da abordagem puramente física e considerar a complexidade da experiência humana da dor”, concluem os autores .

Em um cenário global marcado pelo aumento de doenças crônicas e transtornos mentais, a integração entre neurologia, psiquiatria e medicina da dor surge não apenas como tendência, mas como necessidade urgente.


Referência
Kasahara, S., Aono, S., Takatsuki, K. et al. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e transtorno do espectro autista em dor crônica: um estudo em centros de dor japoneses. Sci Rep 16 , 10544 (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-45300-y

 

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