Tecnologia substitui seringa e reduz dor em crianças no dentista, aponta estudo clínico
Ensaio randomizado com 112 pacientes revela que sistemas computadorizados e sem agulha diminuem ansiedade e sofrimento durante anestesia odontológica infantil, sem comprometer a segurança

Imagem: Reprodução
Em consultórios odontológicos ao redor do mundo, a cena se repete: crianças tensas diante da temida seringa. Um estudo clínico publicado nesta sexta-feira (1º), na revista Scientific Reports, traz evidências robustas de que esse cenário pode estar com os dias contados. A pesquisa, conduzida pelos cirurgiões-dentistas Sara Badr e Abdul Wahab Nourallah, da Universidade de Latakia, na Síria, demonstra que tecnologias alternativas de aplicação anestésica reduzem significativamente a dor e a ansiedade em pacientes pediátricos.
O ensaio clínico randomizado avaliou 112 crianças entre 6 e 10 anos submetidas a pulpotomia — procedimento comum em dentes de leite — comparando quatro métodos de anestesia: a seringa convencional, sistemas computadorizados (CCLAD), dispositivos com vibração e injeção sem agulha por jato de alta pressão.
Os resultados foram claros: a seringa tradicional apresentou os piores indicadores de dor, ansiedade e estresse fisiológico. Já as tecnologias alternativas, especialmente o sistema computadorizado, mostraram desempenho superior de forma consistente.
“A dor relacionada à injeção não é apenas física, mas também emocional. Reduzi-la melhora toda a experiência da criança no consultório”, afirma Sara Badr, autora principal do estudo.
Dor concentrada no momento da anestesia
Um dos achados mais relevantes do estudo é que o sofrimento infantil está concentrado quase exclusivamente no momento da aplicação da anestesia — e não no tratamento em si.
Utilizando escalas reconhecidas internacionalmente, como a Wong-Baker (autoavaliação da dor) e a FLACC (avaliação comportamental), os pesquisadores observaram que crianças submetidas à seringa convencional relataram níveis significativamente mais altos de dor logo após a injeção.
Além disso, testes de ansiedade, como o Venham Picture Test, indicaram maior estresse emocional nesse grupo. Em contraste, os sistemas alternativos reduziram esses índices de forma consistente.
“Os dados mostram que a experiência negativa está concentrada em um evento breve, mas crítico: a injeção. Melhorar esse momento pode transformar a relação da criança com o dentista”, explica Abdul Wahab Nourallah.
Impacto fisiológico e emocional
O estudo também mediu respostas fisiológicas, como frequência cardíaca e saturação de oxigênio. Houve aumento da frequência cardíaca durante a anestesia — sinal típico de estresse — mais acentuado no grupo da seringa tradicional.
Por outro lado, a saturação de oxigênio permaneceu estável em todos os grupos, indicando que nenhuma das técnicas comprometeu a segurança dos pacientes.
Curiosamente, apesar das diferenças na dor e ansiedade, o nível de cooperação das crianças durante o tratamento foi semelhante entre os grupos. Isso sugere que todas as técnicas são clinicamente eficazes, mas algumas proporcionam uma experiência significativamente mais confortável.
Pais percebem a diferença
Outro dado relevante foi o impacto na percepção dos responsáveis. A satisfação dos pais foi significativamente maior quando técnicas alternativas foram utilizadas.
Segundo os autores, isso ocorre porque os cuidadores reagem diretamente aos sinais visíveis de desconforto infantil.
“A percepção dos pais é fundamental. Menos sofrimento durante o atendimento aumenta a confiança no tratamento e pode melhorar a adesão futura”, destaca o estudo.
Contexto histórico e avanço tecnológico
O medo de dentista, especialmente relacionado a agulhas, é um fenômeno amplamente documentado. Estudos indicam que a fobia de injeção é uma das principais causas de ansiedade odontológica em crianças, podendo levar à evasão de tratamentos e piora da saúde bucal ao longo da vida.
Historicamente, tentativas de reduzir esse desconforto incluíram anestésicos tópicos, aquecimento da solução e uso de agulhas mais finas — estratégias com resultados limitados.
Nos últimos anos, no entanto, dispositivos tecnológicos passaram a atuar diretamente na percepção sensorial da dor. Sistemas computadorizados controlam a velocidade e pressão da anestesia; dispositivos vibratórios atuam no chamado “controle do portão da dor”; e injetores sem agulha eliminam o estímulo visual e físico da punção.
Limitações e desafios
Apesar dos resultados promissores, os autores alertam para limitações. O estudo foi realizado em um único centro, com crianças cooperativas e em condições específicas de tratamento.
Além disso, fatores econômicos podem dificultar a adoção em larga escala. Equipamentos como o CCLAD têm custo mais elevado e exigem treinamento profissional.
“Não defendemos a substituição total da seringa, mas o uso seletivo dessas tecnologias, especialmente em crianças mais ansiosas”, pondera Nourallah.
Especialistas apontam que a adoção dessas tecnologias pode ter efeitos além do consultório. Reduzir experiências traumáticas na infância pode melhorar a relação com o cuidado odontológico ao longo da vida, diminuindo a incidência de doenças bucais.
Em países com sistemas públicos sobrecarregados, no entanto, o custo ainda é um entrave.
Mesmo assim, o estudo reforça uma tendência clara: a odontologia caminha para um modelo mais centrado no paciente, onde conforto e experiência são tão importantes quanto a eficácia clínica.
Um novo paradigma no consultório
Ao evidenciar que a dor da anestesia é evitável — e não inevitável — o trabalho de Badr e Nourallah coloca em xeque práticas consolidadas há décadas.
A seringa tradicional, símbolo do medo infantil, pode deixar de ser protagonista em consultórios que buscam humanizar o atendimento.
Para as crianças, isso significa menos lágrimas. Para os dentistas, um desafio: adaptar-se a uma nova era em que tecnologia e empatia caminham lado a lado.
Referência
Badr, S., Nourallah, AW. Avaliação comparativa de sistemas de administração de anestésicos sobre dor, ansiedade e respostas fisiológicas em pacientes odontopediátricos: um ensaio clínico randomizado. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-50368-7