Saúde

Doença chama doença: estudo com 49,6 milhões revela avanço silencioso da multimorbidade
Levantamento inédito publicado na The Lancet Public Health mostra que oito enfermidades concentram quase 80% dos primeiros diagnósticos e que desigualdade social acelera o acúmulo de doenças ao longo da vida
Por Laercio Damasceno - 01/05/2026


Imagem: Reprodução


Em um dos mais abrangentes retratos já feitos sobre a saúde de uma população inteira, pesquisadores analisaram dados de 49,6 milhões de adultos na Inglaterra e chegaram a uma conclusão inquietante: doenças não surgem isoladamente — elas se acumulam, se retroalimentam e avançam com maior velocidade entre os mais vulneráveis.

O estudo, publicado nesta sexta-feira (1º), na revista científica The Lancet Public Health, revela que a chamada multimorbidade — a presença de duas ou mais doenças crônicas em um mesmo indivíduo — segue uma trajetória previsível e desigual. “A presença de uma condição inicial aumenta significativamente o risco de desenvolver outras”, afirma o pesquisador Eirion Slade, autor principal do trabalho.

A pesquisa acompanhou a população adulta inglesa ao longo de seis anos, utilizando dados do sistema público de saúde do país. Os resultados mostram que a progressão de uma doença para múltiplas condições ocorre a uma taxa de 8,56 casos por 100 pessoas ao ano — número que sobe para 13,6 quando o paciente já possui duas enfermidades.

O início do efeito dominó

O estudo identificou um grupo de oito doenças que funcionam como “porta de entrada” para a multimorbidade. Depressão, hipertensão, câncer, diabetes, asma, osteoartrite, doença coronariana e acidente vascular cerebral respondem por 78,5% dos primeiros diagnósticos registrados.

“A identificação dessas condições iniciais é crucial para políticas de prevenção”, explica Ellie Bragan Turner, coautora do estudo. Segundo ela, essas doenças compartilham fatores de risco comuns, como obesidade e tabagismo, o que abre espaço para intervenções precoces.

A incidência mais alta foi observada na depressão, com 1.088 casos por 100 mil pessoas ao ano, seguida pela hipertensão (885 casos) e pelo câncer (525).

Idade, renda e desigualdade

O avanço das doenças não ocorre de forma homogênea. A idade é um dos fatores mais determinantes: enquanto jovens de 20 a 29 anos apresentam taxa de progressão de 3,72 por 100 pessoas ao ano, o índice salta para mais de 38 entre idosos com mais de 90 anos.

Mas é a desigualdade social que imprime o ritmo mais acelerado ao fenômeno. Indivíduos que vivem nas áreas mais pobres têm 37% mais risco de desenvolver múltiplas doenças em comparação com os mais ricos.

“O impacto da privação socioeconômica é consistente e profundo”, afirma Kamlesh Khunti, um dos autores seniores. “Isso reforça que políticas de saúde precisam dialogar com determinantes sociais, não apenas clínicos.”


Um dado chamou a atenção dos pesquisadores: entre pessoas negras, a taxa de progressão foi alta independentemente da condição econômica. “Isso sugere que fatores estruturais e possivelmente sistêmicos estão em jogo”, aponta Jonathan Valabhji.

Um problema global em expansão

O crescimento da multimorbidade está diretamente ligado ao envelhecimento populacional e ao aumento da expectativa de vida — um fenômeno observado em todo o mundo. Nas últimas décadas, avanços médicos reduziram a mortalidade, mas ampliaram o número de pessoas vivendo com doenças crônicas.

Historicamente, sistemas de saúde foram estruturados para tratar enfermidades isoladas. Hoje, enfrentam o desafio de lidar com pacientes que acumulam múltiplas condições simultaneamente, o que aumenta custos, complexidade e demanda por serviços.

Segundo o estudo, mais de 60% da população analisada não tinha nenhuma doença crônica no início do acompanhamento. No entanto, uma vez que a primeira condição surge, o risco de progressão se intensifica rapidamente.

Prevenção como estratégia central

Os autores defendem uma mudança de paradigma: sair do foco exclusivo no tratamento e investir na prevenção precoce. Intervenções como controle de peso e cessação do tabagismo podem ter impacto significativo na redução da multimorbidade.

“Se conseguimos atrasar ou evitar a primeira doença, podemos alterar toda a trajetória de saúde do indivíduo”, diz Slade.

O estudo também sugere que políticas públicas devem ser direcionadas de forma mais precisa, levando em conta a interação entre fatores como renda, etnia e idade — abordagem conhecida como “interseccionalidade”.

Impacto público e desafios

Os resultados têm implicações diretas para sistemas de saúde, especialmente em países com desigualdades marcantes, como o Brasil. A tendência de envelhecimento populacional, combinada com altos índices de doenças crônicas, pode reproduzir — ou até ampliar — o cenário observado na Inglaterra.

Especialistas apontam que a multimorbidade já é um dos principais desafios da saúde pública global. Ela afeta qualidade de vida, reduz a expectativa de vida saudável e pressiona sistemas de saúde com custos crescentes.

Apesar da robustez dos dados, os autores reconhecem limitações, como a ausência de informações detalhadas sobre fatores de risco individuais e possíveis distorções no acesso aos serviços de saúde. Ainda assim, o estudo é considerado um marco por seu alcance populacional inédito.

Um alerta para o futuro

Ao revelar como doenças se encadeiam ao longo da vida, o estudo lança um alerta: a saúde não pode mais ser pensada de forma fragmentada. Combater uma única doença pode não ser suficiente — é preciso interromper o ciclo.

“A multimorbidade não é apenas uma questão médica, mas social”, conclui Turner. “E enfrentá-la exige uma resposta igualmente ampla.”

Se nada for feito, o efeito dominó das doenças tende a se intensificar nas próximas décadas — transformando um problema silencioso em uma das maiores crises de saúde pública do século XXI.


Referência
Progressão de múltiplas doenças crônicas (multimorbidade) na Inglaterra: um estudo descritivo baseado na população de 49,6 milhões de adultos. A revista The Lancet Public HealthVol. 11 No. 5 e280 Publicado: maio de 2026. Eirion Slade, Ellie Bragan Turner, Adrian Pratt, Rupert Dunbar-Rees, Nasrin Hafezparast, Emma Barrone outros. DOI: 10.1016/S2468-2667(26)00052-6Link externo

 

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