Estudo global aponta 2 milhões de mortes ligadas a temperaturas extremas e revela que o frio ainda é o maior vilão silencioso da saúde pública

Imagem: Reprodução
O calor foi tratado, por décadas, como o principal risco climático à vida humana. Agora, uma das maiores pesquisas já realizadas sobre o tema mostra que o impacto é mais amplo, desigual e, sobretudo, mais complexo — com efeitos diretos sobre doenças cardiovasculares, transtornos mentais e até acidentes.
Uma análise internacional envolvendo mais de 46 milhões de mortes em dez países revela que temperaturas fora do ideal — tanto frio quanto calor — foram responsáveis por cerca de 2,03 milhões de óbitos entre 2000 e 2019. O número representa 4,38% de todas as mortes registradas no período, segundo estudo publicado nesta sexta-feira (1º), na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet.
Coordenado por Yuming Guo e Shanshan Li, da Universidade Monash, na Austrália, o trabalho reuniu pesquisadores de instituições como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Sydney e Universidade de Ottawa, analisando dados de 1.117 localidades em países com diferentes climas e níveis socioeconômicos.
“Identificamos padrões distintos e até inesperados na relação entre temperatura e mortalidade”, afirma Guo. “O frio extremo continua sendo responsável pela maior parcela de mortes, mas o calor tem efeitos específicos e intensos em determinadas causas, como doenças infecciosas e acidentes.”
Frio: o assassino subestimado
Ao contrário da percepção popular — frequentemente associada a ondas de calor — o estudo mostra que o frio responde por cerca de 1,55 milhão das mortes analisadas, quase três vezes mais que o calor (470 mil).

Temperatura média anual (A) e número anual de mortes por 100.000 habitantes (B) durante o período específico em 1117 localidades em dez países ou territórios .
A explicação está nos efeitos fisiológicos silenciosos. Temperaturas baixas provocam vasoconstrição, aumentam a pressão arterial e favorecem eventos cardiovasculares agudos. Não por acaso, doenças do coração lideram o ranking de mortes associadas ao clima, com cerca de 690 mil óbitos atribuídos.
“O frio exerce um estresse contínuo sobre o organismo, especialmente em pessoas com doenças crônicas”, explica o patologista Paulo Saldiva, da USP, um dos autores do estudo. “É um risco menos visível que o calor extremo, mas muito mais persistente.”
Além disso, períodos frios tendem a durar mais e afetar populações de forma prolongada, o que amplia seu impacto cumulativo.
Calor: efeitos mais agudos e sociais
Se o frio mata mais no total, o calor extremo se destaca por sua intensidade imediata. O estudo identificou que os riscos de morte aumentam no mesmo dia da exposição ao calor, especialmente para doenças neurológicas e infecciosas.
Casos de infecções e mortes por causas externas — como acidentes e violência — também crescem significativamente em dias mais quentes. Segundo os autores, isso pode estar ligado tanto à maior proliferação de agentes infecciosos quanto a fatores comportamentais.
“A temperatura elevada funciona como um estressor ambiental”, diz Shanshan Li. “Ela pode aumentar a agressividade, reduzir o sono e alterar o comportamento, o que ajuda a explicar o aumento de acidentes e episódios de violência.”
Entre jovens de até 59 anos, o calor elevou de forma significativa o risco de mortes por lesões e causas externas — um dado que reforça a dimensão social do fenômeno.
Doenças mentais e neurológicas em foco
Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa foi o impacto das temperaturas sobre transtornos mentais e doenças do sistema nervoso.
Essas condições apresentaram as maiores proporções de mortes atribuídas ao clima: 6,53% para transtornos mentais e 6,40% para doenças neurológicas.
Segundo os pesquisadores, isso se deve à dificuldade de regulação térmica em pacientes com essas condições, agravada por medicamentos que interferem no sistema nervoso.
“Pacientes psiquiátricos e neurológicos têm menor capacidade de adaptação às variações térmicas”, explica Saldiva. “Isso pode levar a descompensações graves e até fatais.”
Idade e gênero: risco desiguais
O estudo também revela que os efeitos da temperatura não são uniformes. Idosos (acima de 60 anos) apresentam risco significativamente maior de morte em temperaturas frias, especialmente por doenças neurológicas e câncer.
Já adultos mais jovens são mais vulneráveis ao calor, sobretudo em relação a acidentes e causas externas.
Diferenças entre homens e mulheres também foram identificadas:
- Homens tendem a sofrer mais com o frio, especialmente em doenças cardiovasculares;
- Mulheres apresentam maior risco em ondas de calor, particularmente para problemas cardíacos.
Essas variações refletem tanto fatores biológicos quanto sociais — como tipo de trabalho, condições de moradia e acesso a recursos.
Um problema global em expansão
Embora o estudo tenha analisado países como Brasil, Canadá, Austrália e Coreia do Sul, os autores alertam que os dados podem subestimar o impacto global, especialmente em regiões mais pobres, como África e Oriente Médio, que não foram incluídas.
O contexto histórico também reforça a urgência do tema. Desde o início dos anos 2000, eventos climáticos extremos vêm se intensificando, impulsionados pelas mudanças climáticas.
Segundo estimativas citadas no estudo, temperaturas não ideais já estão associadas a cerca de 5 milhões de mortes anuais no mundo.
Impacto e políticas públicas
Para os especialistas, os resultados exigem uma revisão nas estratégias de saúde pública. Tradicionalmente focadas em ondas de calor, as políticas precisam incorporar medidas contra o frio — especialmente em regiões onde ele é negligenciado.
Entre as recomendações estão: sistemas de alerta para extremos climáticos; melhorias em habitação e isolamento térmico; campanhas de proteção a idosos e grupos vulneráveis e planejamento urbano com foco em conforto térmico.
“Não existe uma solução única”, afirma Guo. “As intervenções precisam ser adaptadas às características de cada população — idade, gênero, condições de saúde e contexto socioeconômico.”
O estudo conclui que compreender como diferentes temperaturas afetam causas específicas de morte é essencial para enfrentar os desafios de um planeta em aquecimento.
Mais do que uma questão ambiental, trata-se de um problema de saúde pública global — silencioso, desigual e crescente.
“Temperatura não é apenas um dado meteorológico”, resume Li. “É um determinante direto da sobrevivência humana.”
Referência
Risco de mortalidade devido a temperaturas não ideais por causa de morte, idade e sexo: um estudo de séries temporais em vários países. eClinicalMedicine. Publicado em: 1 de maio de 2026. Bo Wen, Yao Wu, Rong Bin Xu, Pei Yu, Yanming Liu, Wenhua Yue outros. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103920