Terapia hormonal que 'desliga' ovários reduz risco de morte por câncer de mama, aponta meganálise global
Estudo com 15 mil mulheres mostra queda de até 26% na mortalidade entre pacientes mais jovens; estratégia pode redefinir diretrizes clínicas

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A oncologia tratou o câncer de mama como uma doença de múltiplas faces — e, em mulheres jovens, um desafio ainda mais complexo. Agora, uma das mais abrangentes análises já realizadas lança nova luz sobre um caminho terapêutico que remonta ao século XIX: suprimir a função ovariana. Publicado na revista The Lancet, o estudo coordenado pelo Early Breast Cancer Trialists’ Collaborative Group (EBCTCG) reúne dados individuais de mais de 15 mil mulheres em 23 ensaios clínicos randomizados e conclui que a chamada supressão da função ovariana (OFS, na sigla em inglês) reduz significativamente tanto a recorrência quanto a mortalidade por câncer de mama.
A análise, conduzida por pesquisadores ligados ao Nuffield Department of Population Health, envolveu mulheres na pré-menopausa com tumores positivos para receptor de estrogênio — um tipo de câncer que depende de hormônios femininos para crescer. Ao longo de um seguimento médio de 11 anos, a supressão ovariana levou a uma redução de 18% no risco de recidiva da doença (razão de risco de 0,82) e de 14% na mortalidade específica por câncer de mama.
“O que mostramos é que, mesmo quando combinada com tratamentos modernos como quimioterapia e tamoxifeno, a supressão ovariana oferece um benefício adicional consistente e clinicamente relevante”, afirmam os autores no artigo.
Impacto mais forte entre mulheres jovens
Os resultados mais expressivos foram observados entre pacientes com menos de 45 anos. Nesse grupo, a combinação de supressão ovariana com terapia hormonal padrão reduziu em cerca de 26% o risco de morte pela doença (RR 0,74).
Segundo os pesquisadores, isso se deve ao fato de que mulheres mais jovens apresentam maior atividade hormonal ovariana, o que pode estimular o crescimento tumoral. Ao bloquear essa produção — seja por cirurgia, radioterapia ou medicamentos como agonistas de GnRH — o ambiente biológico se torna menos favorável ao câncer.
“Esses dados reforçam a importância de estratégias individualizadas, especialmente para mulheres mais jovens, que têm maior risco de recorrência ao longo da vida”, destaca o relatório.
Uma prática antiga, agora com evidência robusta
A ideia de “desligar” os ovários como forma de tratar o câncer de mama não é nova. Os primeiros registros datam do fim do século XIX, quando cirurgiões observaram regressão tumoral após a remoção dos ovários. Já o primeiro ensaio clínico randomizado com essa abordagem começou em 1948, no Reino Unido.
Apesar disso, o avanço de terapias como o tamoxifeno e, mais recentemente, os inibidores de aromatase, fez com que o papel da supressão ovariana permanecesse controverso por décadas.
“Estudos anteriores mostravam benefícios, mas havia incerteza sobre o quanto essa estratégia acrescentava aos tratamentos já existentes”, explicam os autores.
A nova metanálise resolve parte dessa dúvida ao integrar dados de ensaios antigos e contemporâneos, com diferentes combinações terapêuticas.
Benefícios persistem por décadas
Um dos aspectos mais relevantes do estudo é o acompanhamento de longo prazo. Os pesquisadores observaram que a redução no risco de morte não se limita aos primeiros anos após o tratamento, mas se estende por pelo menos duas décadas — um dado crucial para tumores hormonais, conhecidos por recidivas tardias.
Em números absolutos, a mortalidade em 15 anos caiu de 34,4% para 31,3% com o uso da supressão ovariana.
Além disso, não houve aumento significativo de mortes por outras causas, um ponto sensível em terapias hormonais intensivas.
Efeitos colaterais e dilemas clínicos
Apesar dos benefícios, a estratégia não está isenta de efeitos adversos. A supressão ovariana induz uma menopausa precoce, frequentemente acompanhada de sintomas como ondas de calor, insônia, fadiga e alterações de humor.
Há também preocupações com osteoporose e impacto na qualidade de vida, especialmente em tratamentos prolongados. “Embora os dados sobre toxicidade sejam limitados, os efeitos menopausais são consistentes”, aponta o estudo.
Isso coloca médicos e pacientes diante de um dilema: como equilibrar ganho de sobrevida e qualidade de vida.
Implicações para políticas de saúde
Os achados têm potencial para influenciar diretrizes clínicas em escala global. Em muitos países, incluindo o Brasil, o tratamento padrão para mulheres na pré-menopausa com câncer de mama ainda se baseia predominantemente no uso de tamoxifeno.
Com as novas evidências, especialistas defendem que a supressão ovariana seja considerada de forma mais ampla, especialmente em pacientes de maior risco.
“O estudo fornece base sólida para decisões compartilhadas entre médicos e pacientes, permitindo escolhas mais informadas”, afirmam os autores.
Caminhos futuros
Apesar do avanço, várias perguntas permanecem. Qual a duração ideal da supressão ovariana? Como combinar essa estratégia com terapias mais recentes, como inibidores de CDK4/6 ou degradadores seletivos do receptor de estrogênio?
Para os pesquisadores, a resposta virá de novos ensaios clínicos e do acompanhamento de longo prazo das pacientes já tratadas.
Enquanto isso, o estudo reforça uma lição recorrente na medicina: às vezes, soluções antigas ganham novo valor quando revisitadas com ferramentas modernas.
E, no caso do câncer de mama em mulheres jovens, essa redescoberta pode significar mais anos de vida — e novas perspectivas para milhares de pacientes ao redor do mundo.
Referência
Efeitos da ablação ou supressão ovariana na recorrência e sobrevida do câncer de mama: metanálise em nível de paciente com 15.000 mulheres em 23 ensaios clínicos randomizados. The LancetVol. 407 No. 10540 p1699 Publicado: 02 de maio de 2026. Grupo Colaborativo de Ensaios Clínicos de Câncer de Mama Inicial (EBCTCG)†