Saúde

Crenças distorcidas e sonolência extrema definem novo perfil clínico de distúrbio do sono, aponta estudo japonês
Pesquisa com 283 pacientes revela que combinação de insônia e apneia forma condição mais grave e subdiagnosticada, com impacto direto na saúde pública e no tratamento clínico
Por Laercio Damasceno - 06/05/2026


Imagem: Reprodução


Uma combinação até então subestimada de fatores psicológicos e fisiológicos pode estar no centro de um dos quadros mais complexos dos distúrbios do sono. Estudo publicado nesta quarta-feira (6), na revista Scientific Reports, por pesquisadores do Centro Nacional de Neurologia e Psiquiatria de Tóquio identificou que a coexistência de crenças disfuncionais sobre o sono e sonolência diurna excessiva define um perfil clínico específico em pacientes com insônia e apneia do sono simultâneas — condição conhecida como COMISA.

A pesquisa, liderada por Tomohiro Utsumi, com colaboração de Takuya Yoshiike, Aoi Kawamura e equipe, analisou dados de 283 pacientes diagnosticados com diferentes distúrbios do sono. O resultado aponta que não são apenas os sintomas isolados que diferenciam os pacientes mais graves, mas a interação entre fatores cognitivos e comportamentais.

“Identificamos que a presença simultânea de altos níveis de sonolência diurna e crenças distorcidas sobre o sono constitui um marcador distintivo da COMISA”, afirma o pesquisador Kenichi Kuriyama, autor sênior do estudo.

Uma condição comum, mas pouco reconhecida

A relevância do achado cresce diante da alta prevalência dos distúrbios envolvidos. A insônia crônica afeta entre 6% e 10% da população, enquanto a apneia obstrutiva do sono atinge cerca de 26%. Mais alarmante ainda: entre 29% e 67% dos pacientes com insônia também apresentam apneia, e até 58% dos indivíduos com apneia relatam sintomas de insônia.

Esse cruzamento dá origem à COMISA, condição que, segundo o estudo, está associada a piores desfechos clínicos. Pacientes apresentam menor resposta a tratamentos tradicionais, como medicamentos hipnóticos e terapia cognitivo-comportamental, além de maior dificuldade de adesão ao uso de aparelhos de pressão positiva contínua (CPAP).

O papel das crenças e da sonolência

Os pesquisadores focaram em dois fatores principais: as chamadas “crenças disfuncionais sobre o sono” (DBAS, na sigla em inglês) e a sonolência diurna excessiva (EDS).

As crenças disfuncionais incluem pensamentos como a necessidade rígida de dormir um número específico de horas ou a ideia de que uma noite mal dormida compromete totalmente o dia seguinte. Já a sonolência diurna é um sintoma clássico da apneia, causada por interrupções respiratórias durante o sono.

Separadamente, esses fatores não se mostraram suficientes para diferenciar os quadros clínicos. Mas, quando combinados, revelaram um padrão claro. Pacientes com altos níveis de ambos apresentaram até 14 vezes mais chance de ter COMISA em comparação com aqueles com baixos níveis desses indicadores.

“Nem a sonolência nem as crenças isoladamente explicam o quadro. É a coexistência dos dois elementos que caracteriza esse fenótipo específico”, explica Utsumi.


Implicações clínicas

O estudo sugere uma mudança importante na forma como médicos devem abordar distúrbios do sono. Tradicionalmente, insônia e apneia são tratadas como condições separadas, muitas vezes por especialistas diferentes.

Segundo Kuriyama, isso pode levar a diagnósticos incompletos. “Pacientes com insônia que relatam sonolência diurna não devem ser automaticamente classificados como casos típicos de insônia. Pode haver apneia subjacente”, afirma.

Da mesma forma, pacientes com apneia que apresentam queixas persistentes de sono podem estar lidando com componentes cognitivos relevantes, que exigem intervenção psicológica.

A identificação precoce da COMISA é considerada crucial. Estudos anteriores já associaram essa condição a maior risco cardiovascular, hipertensão e agravamento de transtornos mentais.

Método rigoroso

A pesquisa utilizou dados de um banco japonês de polissonografia — exame padrão para avaliação do sono — coletados entre 2020 e 2023. Os pacientes foram divididos em três grupos: insônia isolada, apneia isolada e COMISA.

Para medir os fatores analisados, os cientistas aplicaram duas escalas reconhecidas: a DBAS-16, que avalia crenças sobre o sono, e a Escala de Sonolência de Epworth, que mede a propensão a cochilar em situações cotidianas.

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A robustez dos resultados foi confirmada por análises estatísticas avançadas, incluindo regressões logísticas ajustadas por idade, sexo, índice de massa corporal e presença de ansiedade ou depressão.

Um novo olhar sobre o sono

Especialistas apontam que o estudo reforça a necessidade de integrar abordagens biológicas e psicológicas na medicina do sono.

A interação entre apneia e insônia cria um ciclo de retroalimentação: a fragmentação do sono causada pela apneia intensifica pensamentos negativos sobre dormir, enquanto essas crenças aumentam a ansiedade e dificultam o descanso.

“É um fenômeno bidirecional. A fisiologia afeta a mente, e a mente amplifica o problema físico”, resume Kuriyama.

Impacto público

Com o aumento de casos de distúrbios do sono — impulsionado por fatores como estresse, uso excessivo de telas e envelhecimento populacional —, o reconhecimento da COMISA pode ter impacto direto em políticas de saúde.

A subnotificação da condição implica tratamentos ineficazes, maior custo para sistemas de saúde e redução da qualidade de vida dos pacientes.

Para os autores, incorporar avaliações combinadas de crenças e sonolência em consultas clínicas pode ser um passo simples, mas decisivo.

“Nosso estudo oferece uma base para estratégias de triagem mais precisas e intervenções mais direcionadas”, conclui Utsumi.

Ao revelar que o sono é tão influenciado pela mente quanto pelo corpo, a pesquisa japonesa amplia o entendimento sobre um problema cotidiano — e reforça que dormir bem pode ser mais complexo do que simplesmente fechar os olhos.


Referência
Utsumi, T., Yoshiike, T., Kawamura, A. et al. Combinação de crenças disfuncionais sobre o sono e sonolência diurna excessiva como característica psicocomportamental da insônia e apneia do sono comórbidas. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-50792-9

 

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