Pesquisa inédita com 190 países revela impacto silencioso da doença no crescimento econômico e pressiona governos por políticas urgentes de prevenção

Tratada prioritariamente como um desafio médico, a diabetes agora se impõe também como uma ameaça macroeconômica de escala global. Um estudo publicado nesta terça-feira (5), na revista científica Nature Communications, projeta que a doença poderá gerar perdas acumuladas de até US$ 5,177 trilhões (em dólares internacionais) entre 2021 e 2050, afetando diretamente o crescimento econômico de 190 países.
Assinado por pesquisadores como Jinxi Li, Ruxu Zhang e Xiaoxv Yin, ligados à Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong e à Southern Medical University, na China, o trabalho utiliza um modelo macroeconômico inovador que incorpora variáveis de saúde para estimar impactos no Produto Interno Bruto (PIB). A conclusão é contundente: a diabetes não apenas sobrecarrega sistemas de saúde, mas compromete a produtividade, reduz investimentos e desacelera economias inteiras.
“Tradicionalmente, o controle da diabetes foi visto como um custo. Nosso estudo mostra que ele deve ser encarado como investimento estratégico”, afirmam os autores.
Uma epidemia global com efeitos econômicos profundos
Atualmente, cerca de 500 milhões de pessoas vivem com diabetes no mundo, número que cresce continuamente desde os anos 1980, impulsionado por fatores como sedentarismo, insegurança alimentar e poluição. Em 2021, a doença foi responsável por 1,66 milhão de mortes, além de milhões de casos de incapacidade permanente.
Mas o impacto vai além das estatísticas de saúde. Segundo o estudo, a maior parte das perdas econômicas decorre não da mortalidade precoce, mas da incapacidade causada pela doença, que reduz a produtividade da força de trabalho.
O modelo utilizado pelos pesquisadores considera dois canais principais de impacto: a diminuição da oferta de trabalho — causada por mortes e afastamentos — e a redução do capital disponível para investimento, já que recursos são desviados para tratamentos médicos.
Países ricos perdem mais — mas pobres sofrem mais
Um dos achados mais relevantes da pesquisa é a desigualdade na distribuição do impacto econômico. Países de alta renda concentram a maior parte das perdas absolutas — cerca de US$ 3,2 trilhões, ou 62% do total global.
Os Estados Unidos lideram o ranking, seguidos por China e Índia. Já em termos proporcionais, pequenas economias e países com altos custos de saúde, como Kuwait e Singapura, apresentam perdas mais intensas em relação ao PIB.
Por outro lado, países de baixa e média renda concentram 81% da carga global da doença, medida em anos de vida perdidos ou vividos com incapacidade (DALYs), mas respondem por apenas 37,8% do impacto econômico.
Essa aparente contradição revela desigualdades estruturais. “Nações com sistemas de saúde mais robustos gastam mais no tratamento, o que eleva o custo econômico. Já países mais pobres enfrentam maior carga da doença, mas com menor gasto — muitas vezes por falta de acesso a cuidados”, explicam os autores.
Impacto no crescimento global
Na prática, a diabetes representa uma redução estimada de 0,12% do PIB global acumulado no período analisado. Embora o percentual pareça pequeno, seu valor absoluto supera o PIB anual de economias desenvolvidas.
Sem medidas de controle, o cenário pode se agravar. O estudo indica que uma redução de apenas 20% na incidência e mortalidade da doença até 2050 poderia gerar uma economia global de US$ 190 bilhões.
Em um cenário mais ambicioso, com níveis mínimos globais de incidência, os ganhos econômicos poderiam chegar a US$ 1,11 trilhão.
Contexto histórico: da saúde ao desenvolvimento
Historicamente, doenças crônicas como a diabetes foram analisadas sob a ótica dos sistemas de saúde. No entanto, nas últimas décadas, economistas passaram a incorporá-las em modelos de crescimento, reconhecendo que a saúde da população é um fator determinante do desenvolvimento econômico.
O estudo segue essa linha ao utilizar um modelo baseado na teoria do crescimento de Robert Solow, ampliado para incluir capital humano e saúde.
“Saúde não é apenas bem-estar — é um motor de crescimento econômico”, reforçam os pesquisadores.
Caminhos para evitar perdas
Diante do cenário, o estudo defende uma abordagem integrada que combine prevenção, tratamento e inovação tecnológica. Entre as recomendações estão: fortalecimento da atenção primária, promoção de hábitos saudáveis, ampliação do acesso a medicamentos e uso de tecnologias digitais e telemedicina

Imagem: Reprodução
Organizações internacionais como a OMS e a Federação Internacional de Diabetes já apontam medidas semelhantes, destacando a importância de políticas públicas coordenadas.
Um alerta para governos
Para especialistas, o principal mérito do estudo é traduzir um problema de saúde em números econômicos claros — linguagem que influencia decisões políticas.
Ao quantificar perdas trilionárias, a pesquisa reposiciona a diabetes como um tema central não apenas para ministérios da saúde, mas também para áreas de planejamento econômico e fiscal.
“O combate à diabetes deve ser visto como investimento com retorno mensurável”, concluem os autores.
Se nada for feito, o custo da inação será alto — não apenas em vidas, mas em crescimento econômico global.
Referência
Li, J., Zhang, R., Li, R. et al. O ônus econômico global do diabetes para 190 países entre 2021 e 2050: um estudo de modelagem macroeconômica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-72694-0