Pílula tripla reduz risco de AVC recorrente em pacientes com hemorragia cerebral
Estudo internacional mostra que combinação de três anti-hipertensivos em baixas doses diminui em quase 40% a recorrência de AVC e melhora o controle da pressão arterial

Combinação das três classes de medicações em doses baixas também aumentou a eficiência do controle da hipertensão sem os efeitos adversos dos aumentos de doses observados com remédio único – Foto: kjpargeter/Magnific
Uma única pílula contendo baixas doses de três medicamentos anti-hipertensivos é a aposta de neurologistas para reduzir os casos de hemorragia intracerebral espontânea. Trata-se de um acidente vascular cerebral (AVC) agudo, causado pela ruptura de um vaso sanguíneo no cérebro, responsável por pelo menos 10% dos 20 milhões de novos AVCs que ocorrem no mundo a cada ano.
A aprovação da nova terapia veio de um estudo multinacional cujos resultados acabam de ser publicados no The New England Journal of Medicine. Chamado Trident, sigla para Triple Therapy Prevention of Recurrent Intracerebral Disease Events Trial – Ensaio Clínico de Terapia Tripla para Prevenção de Eventos Recorrentes de Doença Intracerebral, a pesquisa foi realizada em 61 hospitais de 12 diferentes países, acompanhando durante dois anos e meio 1.670 pessoas portadoras do problema.
Como muitos estudos comprovam o benefício de anti-hipertensivos na redução do risco de AVC recorrente, os pesquisadores do Trident avaliaram a eficácia da novidade sobre o controle dos episódios recorrentes de AVC e também do aumento da hipertensão arterial em 833 pacientes que receberam a pílula tripla e em 837 que usaram um placebo. Todos os participantes mantiveram, ao mesmo tempo, suas medicações de rotina.
Como resultados, observou-se uma menor recorrência nos AVCs – 4,6% entre os que tomaram a pílula tripla contra 7,4% do grupo placebo, representando em torno de 39% de redução no risco de um novo AVC para os usuários da nova terapia. Além dos eventos cardiovasculares, a média da pressão sistólica (o número maior na medição e que indica a força máxima do sangue nas artérias) entre aqueles que usaram a pílula ficou em 127 mmHg, enquanto os que usaram o placebo tiveram a média de 138 mmHg. Aos seis meses de tratamento, quase metade das pessoas da pílula tripla manteve uma pressão arterial abaixo de 130 mmHg, média alcançada por apenas um quarto do grupo placebo.
Três formas diferentes e complementares no controle da hipertensão
Combinados num único comprimido, estão a telmisartana 20 mg, o anlodipino 2,5 mg e a indapamida 1,25 mg, drogas comumente usadas para hipertensão arterial. “A escolha dessas três medicações faz sentido porque elas atuam por mecanismos diferentes e complementares”, comenta Octávio Pontes Neto, pesquisador brasileiro integrante do grupo de pesquisa e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
Segundo o professor, ao combinar baixas doses fixas dessas medicações, os pesquisadores acreditavam alcançar o objetivo do melhor controle da pressão arterial e dos recorrentes AVCs em sobreviventes de hemorragia intracerebral. Medicamentos esses que foram escolhidos e agrupados num só formato “por agirem cada um em um eixo diferente e complementar da regulação da pressão arterial”.
Pontes Neto informa que a telmisartana é um bloqueador do receptor da angiotensina (hormônio fundamental no controle da pressão arterial) que reduz a vasoconstrição. O anlodipino bloqueia os canais de cálcio, proteínas que regulam o fluxo deste íon para dentro da células, promovendo vasodilatação arterial. .Já a indapamida é um diurético que reduz o volume de fluido circulante ao aumentar a eliminação da urina. Há um ganho farmacológico com o conjunto, já que essas drogas não “duplicam” o mesmo efeito, como é verificado nos aumentos das dosagens de um anti-hipertensivo específico.
“Os efeitos são somados por vias distintas, o que ajuda a baixar a pressão de forma mais eficiente”, garante.
Perguntado sobre uma possível melhor adesão ao tratamento, o pesquisador afirma que, embora a adesão e a praticidade de uma única pílula seja parte importante da estratégia, o benefício maior não foi só este. É que a combinação farmacológica das três classes de medicações em doses baixas aumentou a eficiência do controle da hipertensão sem os efeitos adversos dos aumentos de doses observados com remédio único.
A própria justificativa do estudo, conta o professor, destaca que o controle pressórico após hemorragia intracerebral costuma ser insatisfatório no longo prazo — situação mais bem controlada com a pílula tripla, obtendo maior redução da pressão arterial com melhor tolerabilidade global.
A estratégia da pílula tripla anti-hipertensiva se mostrou capaz de reduzir os episódios frequentes da doença, considerada um dos subtipos mais graves de AVC. Com prognóstico ruim, ela é capaz de levar à morte ou incapacidade cerca de dois terços dos que sofrem com o problema. Os sobreviventes de um episódio de hemorragia intracerebral apresentam alto risco de eventos cardiovasculares frequentes, com impactos em anos de vida produtiva, já que o problema afeta pessoas mais jovens que outros tipos de AVC. Assim, “uma combinação única em baixas doses é uma estratégia promissora para superar isso”, completa Pontes Neto.
Mais informações: e-mail: opontesneto@fmrp.usp.br, com o professor Octávio Pontes Neto