Saúde

DNA, remédios e depressão: teste genético muda tratamento psiquiátrico, mas ainda exclui minorias
Estudo com mais de 249 mil pacientes revela que exames farmacogenômicos alteram prescrições de antidepressivos e podem reduzir idas ao pronto-socorro psiquiátrico — enquanto desigualdade racial limita acesso à tecnologia
Por Laercio Damasceno - 07/05/2026


Imagem: Reprodução


A medicina personalizada chegou de vez aos consultórios de psiquiatria. Um amplo estudo conduzido pela University of Minnesota mostra que testes farmacogenômicos — exames capazes de identificar como os genes influenciam a resposta a medicamentos — estão transformando o tratamento da depressão ao orientar médicos na escolha de antidepressivos mais adequados para cada paciente. Mas o avanço científico vem acompanhado de um alerta: o acesso à tecnologia ainda é profundamente desigual.

Publicada nesta quinta-feira (7), na revista científica The Lancet, por meio da plataforma eBioMedicine, a pesquisa analisou dados de 249.580 pessoas atendidas entre 2013 e 2023 em um dos maiores sistemas hospitalares do Meio-Oeste dos Estados Unidos. O levantamento comparou 1.563 pacientes com depressão que realizaram testes farmacogenômicos com outros 248.017 pacientes tratados sem o exame.

Os resultados indicam que o teste modificou significativamente os padrões de prescrição de antidepressivos. Médicos passaram a evitar remédios com maior risco de interação genética e optaram por alternativas consideradas mais compatíveis com o perfil biológico dos pacientes. O estudo também identificou uma possível redução nas visitas psiquiátricas de emergência entre pacientes mais complexos clinicamente.

“Observamos mudanças claras nas escolhas terapêuticas após os testes, especialmente em pacientes com múltiplas falhas anteriores no tratamento”, afirma o farmacologista clínico Jeffrey R. Bishop, autor correspondente da pesquisa.

A depressão afeta cerca de 280 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas citadas pelos pesquisadores. Apesar de os antidepressivos serem considerados a principal linha de tratamento, menos da metade dos pacientes responde satisfatoriamente à primeira medicação prescrita. Muitos abandonam o tratamento em menos de um ano por falta de eficácia ou pelos efeitos colaterais.

É justamente nesse cenário que a farmacogenômica ganha espaço. Os testes analisam genes ligados ao metabolismo de medicamentos — especialmente enzimas como CYP2D6 e CYP2C19 — responsáveis por processar antidepressivos no organismo. Dependendo da variação genética, um remédio pode agir rápido demais, lentamente demais ou causar efeitos adversos intensos.

Na prática, o exame tenta reduzir a lógica histórica da tentativa e erro na psiquiatria.

A pesquisa mostrou que, após os testes, houve queda expressiva na prescrição de antidepressivos como citalopram, escitalopram, fluoxetina e sertralina — medicamentos metabolizados por genes frequentemente alterados nos pacientes analisados. Em contrapartida, aumentou o uso de alternativas como desvenlafaxina e levomilnaciprano, menos dependentes dessas vias metabólicas.

Entre os pacientes testados, aproximadamente 45% apresentavam alterações relevantes no gene CYP2D6, enquanto cerca de 60% tinham variantes importantes no CYP2C19. Um em cada cinco possuía perfis genéticos considerados extremos, capazes de interferir fortemente na metabolização dos antidepressivos.

A coordenadora do estudo, Lusi Zhang, afirma que os dados sugerem uma mudança concreta no comportamento clínico dos médicos. “Os profissionais parecem usar os testes para evitar medicamentos associados a potenciais interações gene-droga”, escreveram os autores.

O estudo também revelou um retrato social preocupante. Pacientes negros, indígenas e asiáticos tiveram entre 55% e 65% menos chances de receber os testes farmacogenômicos em comparação com pacientes brancos, mesmo após ajustes por fatores como seguro de saúde e idade.

Segundo os pesquisadores, a desigualdade reflete barreiras estruturais históricas, incluindo menor acesso a serviços especializados, custos elevados, falta de cobertura e sub-representação de minorias nas pesquisas genéticas que deram origem aos algoritmos usados pelos testes comerciais.

“Essas disparidades raciais evidenciam a necessidade de implementação mais precoce e equitativa da farmacogenômica”, alertam os autores no artigo científico.

O perfil dos pacientes que recebem os exames também chama atenção. O teste foi mais comum entre adolescentes e jovens adultos com histórico psiquiátrico complexo, múltiplas comorbidades e várias tentativas frustradas de antidepressivos. Entre os adultos mais velhos, porém, a adoção foi menor.

Imagem: Reprodução

Para os cientistas, isso revela que muitos médicos ainda recorrem à farmacogenômica apenas como último recurso, depois de sucessivas falhas terapêuticas. “Esse uso tardio pode representar uma oportunidade perdida”, afirma o estudo. “A integração mais precoce poderia evitar exposição repetida a tratamentos ineficazes.”

A pesquisa também investigou impactos no uso de serviços de emergência. Entre os pacientes submetidos ao teste, houve redução de 38% nas visitas psiquiátricas ao pronto-socorro nos seis meses posteriores ao exame. Já as hospitalizações não apresentaram queda estatisticamente significativa.

Embora os autores ressaltem que o estudo não prova relação direta de causa e efeito, os resultados reforçam evidências acumuladas nos últimos anos sobre os potenciais benefícios da medicina personalizada na saúde mental.

Ensaios clínicos anteriores, como o GUIDED e o PRIME Care — ambos citados pelos pesquisadores — já haviam sugerido que tratamentos guiados por farmacogenômica aumentam taxas de remissão da depressão e reduzem interações medicamentosas graves.

Ainda assim, especialistas defendem cautela. Muitas sociedades médicas consideram que as evidências são promissoras, mas ainda insuficientes para recomendar o uso universal dos testes. O principal desafio continua sendo comprovar que as mudanças de prescrição se traduzem, de forma consistente, em melhora clínica duradoura.

Os próprios autores reconhecem limitações importantes. O estudo foi realizado em um sistema hospitalar predominantemente branco e localizado em apenas dois estados americanos, Minnesota e Wisconsin. Além disso, fatores subjetivos — como preferência do paciente, experiência do médico e adesão ao tratamento — não puderam ser totalmente medidos.

Mesmo assim, o trabalho é considerado um dos maiores levantamentos já realizados sobre farmacogenômica psiquiátrica em ambiente real de atendimento.

Financiada pelo National Institutes of Health e pela American Association of Psychiatric Pharmacists Foundation, a pesquisa reforça um debate crescente na medicina contemporânea: até que ponto o DNA poderá orientar decisões clínicas no futuro.

Para milhões de pessoas que convivem com a depressão, a promessa é clara: substituir o sofrimento prolongado das tentativas frustradas por tratamentos mais rápidos, seguros e personalizados. O desafio, agora, será garantir que essa revolução genética não fique restrita apenas a quem já possui maior acesso à saúde de ponta.


Referência
Zhang L, Tholkes A, Cullen K et al. Quem recebe testes farmacogenômicos com foco em psiquiatria e isso está associado a padrões de prescrição e utilização de cuidados agudos em casos de depressão? Evidências do mundo real de um grande sistema de saúde. eBioMedicine, 2026; 128. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106275Link externo

 

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