Saúde

Obesidade amplia risco de sintomas graves em infecções transmitidas por mosquitos, aponta estudo internacional
Pesquisa com vacina da febre amarela mostra que pessoas obesas desenvolvem resposta inflamatória mais intensa, mesmo sem maior carga viral; achado preocupa especialistas diante da expansão global da dengue e do zika
Por Laercio Damasceno - 09/05/2026


Imagem: Reprodução


A epidemia global de obesidade pode estar silenciosamente agravando outro problema crescente de saúde pública: as doenças virais transmitidas por mosquitos. Um estudo publicado neste sábado (9), na revista científica The Lancet, revelou que pessoas com obesidade apresentam maior propensão a desenvolver sintomas sistêmicos e respostas inflamatórias exacerbadas após infecções por ortoflavivírus — grupo que inclui dengue, zika e febre amarela.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Duke-NUS Medical School, do Singapore General Hospital e da National University of Singapore. Liderado pelos pesquisadores Eng Eong Ooi e Jenny G. Low, o estudo acompanhou 69 voluntários adultos saudáveis submetidos à vacina atenuada contra febre amarela — utilizada como modelo seguro para simular uma infecção aguda por ortoflavivírus.

Os resultados chamaram atenção dos cientistas. Entre os participantes com obesidade, 54% relataram sintomas após a vacinação, contra 29% entre aqueles sem obesidade. A diferença foi considerada estatisticamente significativa. Os sintomas mais associados ao grupo obeso foram dores musculares intensas e inflamação dos linfonodos axilares, um sinal de ativação exacerbada do sistema imune.

Segundo o estudo, pessoas obesas apresentaram risco 3,1 vezes maior de desenvolver sintomas sistêmicos após a exposição ao vírus atenuado. Em alguns casos específicos, como dores musculares, o risco relativo chegou a ser quase 14 vezes maior.

“Descobrimos que a obesidade aumenta a suscetibilidade a infecções sintomáticas mesmo sem elevar os níveis do vírus circulando no sangue”, afirmam os autores no artigo. A observação é considerada importante porque desafia a noção clássica de que quadros mais graves dependem necessariamente de maior carga viral.

Os pesquisadores constataram que a quantidade de RNA viral — indicador da presença do vírus no organismo — foi praticamente igual nos dois grupos. Ainda assim, os indivíduos obesos apresentaram uma resposta imunológica muito mais inflamatória. Exames moleculares identificaram níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias como IL-6, TNF e IFN-?, proteínas associadas a tempestades inflamatórias e complicações vasculares observadas em casos graves de dengue.

A descoberta ocorre num momento em que especialistas alertam para a convergência de duas crises globais. De um lado, a obesidade avança em praticamente todos os continentes. De outro, doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti se expandem impulsionadas pelas mudanças climáticas, urbanização acelerada e aumento da circulação internacional de pessoas.

A própria Organização Mundial da Saúde incluiu recentemente os ortoflavivírus entre os principais potenciais agentes de futuras pandemias. O grupo inclui vírus responsáveis por mais de 100 milhões de infecções anuais de dengue no planeta, além de surtos periódicos de zika e febre amarela.

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“O desafio de saúde pública dos ortoflavivírus convergiu com outra grande carga sanitária: a obesidade”, escrevem os autores.

Estudos anteriores já haviam sugerido que pacientes obesos tinham entre duas e quatro vezes mais risco de desenvolver dengue grave. Mas faltavam evidências mecanísticas capazes de explicar por que isso ocorria. A nova pesquisa avança justamente nesse ponto ao mapear alterações imunológicas antes mesmo do aparecimento dos sintomas.

As análises genéticas mostraram ainda que participantes obesos apresentavam menor atividade de células NK e linfócitos T CD4+, fundamentais no combate antiviral. Em contrapartida, havia maior ativação de genes ligados a células B e à inflamação sistêmica. Para os pesquisadores, essa combinação pode ajudar a explicar por que o organismo reage de forma desregulada diante da infecção.

“O estado inflamatório prévio associado à obesidade pode predispor indivíduos a respostas imunológicas desproporcionais”, afirmam os autores.


Outro ponto que despertou atenção foi o aumento de proteínas associadas a danos vasculares e inflamação endotelial, como VEGFA e HGF. Essas moléculas já haviam sido relacionadas anteriormente à permeabilidade dos vasos sanguíneos — um dos mecanismos centrais nos casos fatais de dengue hemorrágica.

Para especialistas, o estudo reforça a necessidade de integrar políticas de combate à obesidade às estratégias globais de enfrentamento das arboviroses. O Brasil aparece no centro dessa preocupação. O país reúne uma das maiores populações afetadas por dengue no mundo e registra crescimento contínuo das taxas de obesidade nas últimas décadas.

Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que mais de um quarto da população adulta brasileira já vive com obesidade. Ao mesmo tempo, epidemias de dengue têm pressionado hospitais em diversas regiões do país, sobretudo durante períodos de calor extremo e chuvas intensas.

Os pesquisadores defendem agora o aprofundamento de estudos clínicos voltados a terapias anti-inflamatórias específicas para pacientes obesos infectados por dengue e outros ortoflavivírus. Entre as possibilidades citadas no artigo está o uso de medicamentos capazes de bloquear a interleucina-6, proteína associada às reações inflamatórias mais severas.

A hipótese ganha relevância após experiências semelhantes durante a pandemia de Covid-19, quando drogas anti-inflamatórias passaram a ser usadas em pacientes com respostas imunológicas exacerbadas.

Apesar dos resultados promissores, os autores reconhecem limitações. A vacina da febre amarela utilizada no experimento é composta por vírus atenuado e produz uma resposta menos agressiva do que infecções naturais. Ainda assim, os cientistas avaliam que o modelo oferece uma oportunidade ética e segura para compreender os mecanismos iniciais da doença.

“Os achados sugerem que a obesidade não apenas aumenta o risco de sintomas, mas também pode preparar o terreno biológico para formas mais graves dessas infecções”, conclui o estudo.


Referência
Influência da obesidade na suscetibilidade a sintomas sistêmicos e nas respostas do hospedeiro à infecção por ortoflavivirais: um estudo observacional prospectivo utilizando a vacina contra a febre amarela para simular infecção aguda. eBioMedicinaVol. 128 106290 Publicado: 9 de maio de 2026. Ayesa Syenina, Christine YL Tham, Danny JH Tng, Valerie SY Chew, Jia Xin Yee, Yan Shan Leonge outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106290

 

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