Calor extremo na gravidez acelera coração de mães e fetos e preocupa cientistas diante da crise climática
Revisão inédita publicada na The Lancet Planetary Health reúne dados de mais de 200 mil gestantes e mostra que exposição ao calor eleva temperatura corporal, altera circulação placentária e pode agravar casos de pré-eclâmpsia

Imagem: Reprodução
O avanço das ondas de calor provocado pelas mudanças climáticas já não é apenas uma preocupação ambiental. Agora, uma ampla revisão científica internacional aponta que o calor extremo pode desencadear respostas fisiológicas importantes em mulheres grávidas e em seus bebês ainda no útero — um fenômeno que pesquisadores descrevem como “estresse térmico materno-fetal”.
Publicado nesta quarta-feira (14), na revista The Lancet Planetary Health, o estudo analisou dados de 201.906 gestantes em 27 pesquisas realizadas entre 1961 e 2024, em países da Europa, América do Norte, Oceania, Ásia e África. A conclusão é contundente: a exposição ao calor aumenta de forma consistente a frequência cardíaca materna e fetal, eleva a temperatura corporal das mães e pode comprometer a circulação sanguínea entre placenta e bebê, sobretudo em mulheres com hipertensão ou pré-eclâmpsia.
Os cientistas identificaram aumento médio de 38 batimentos por minuto na frequência cardíaca das gestantes após exposição ao calor, além de elevação de 0,5°C na temperatura corporal central e de 1,9°C na temperatura da pele. Nos fetos, o coração acelerou em média 13 batimentos por minuto.
Para a médica Ana Bonell, autora principal da revisão, os resultados revelam uma ameaça crescente para a saúde pública mundial. “A mudança climática está aumentando a frequência e a intensidade do calor extremo. A gravidez já impõe adaptações fisiológicas complexas ao organismo, e o calor adicional pode ultrapassar os limites de compensação do corpo”, afirmam os autores no artigo.
A pesquisa foi conduzida por especialistas da London School of Hygiene & Tropical Medicine, da Aga Khan University, da University of Thessaly, da University of Cambridge e do Imperial College London, entre outras instituições. O trabalho recebeu financiamento da Wellcome Trust.
O levantamento reforça evidências epidemiológicas já observadas nos últimos anos, que associam altas temperaturas a parto prematuro, baixo peso ao nascer, diabetes gestacional, natimortos e pré-eclâmpsia. Mas, desta vez, os pesquisadores avançaram na compreensão biológica do problema ao examinar os mecanismos fisiológicos envolvidos.
“Há uma urgência em entender como o calor afeta o organismo materno e fetal, especialmente em países pobres e regiões tropicais, onde a exposição é mais difícil de evitar”, escrevem os autores.
O estudo mostra que o risco não se restringe a ambientes extremos, como saunas ou laboratórios. Parte importante das evidências veio de mulheres submetidas ao calor em situações cotidianas de trabalho agrícola e atividades ao ar livre. Na região de West Kiang, em Gâmbia, por exemplo, pesquisadores acompanharam agricultoras expostas ao calor durante jornadas de trabalho. Os dados revelaram alterações na frequência cardíaca fetal e sinais de possível insuficiência placentária em temperaturas elevadas.
Em outro achado considerado preocupante, mulheres com hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia demonstraram maior vulnerabilidade. Um estudo finlandês citado na revisão mostrou aumento significativo da resistência das artérias uterinas durante exposição ao calor em grávidas hipertensas — alteração que pode comprometer o fluxo sanguíneo para o bebê.
Os autores destacam ainda um episódio dramático identificado em pesquisas antigas: um caso de natimorto ocorreu após exposição ao calor em uma mulher com pré-eclâmpsia grave. Embora os cientistas ressaltem que não seja possível estabelecer relação causal direta a partir de um único caso, o episódio ajudou a ampliar o alerta sobre a vulnerabilidade desse grupo.
Outro aspecto inovador da revisão foi a análise de alterações moleculares na placenta. Pesquisadores identificaram mudanças na expressão de quase mil genes ligados ao estresse celular, transporte de nutrientes e inflamação placentária em mulheres expostas a altas temperaturas durante a gravidez.
Segundo os autores, isso sugere que o calor pode deixar marcas biológicas duradouras no desenvolvimento fetal. A hipótese dialoga com a chamada teoria das “Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença”, segundo a qual fatores ambientais na gestação podem influenciar a saúde do indivíduo ao longo de toda a vida.
A revisão também lança dúvidas sobre um consenso antigo na medicina obstétrica. Os dados indicaram que o aumento da temperatura corporal materna tende a diminuir conforme a gravidez avança — resultado contrário à ideia de que mulheres no fim da gestação teriam mais dificuldade para regular a temperatura do corpo.
Mesmo assim, os cientistas alertam que a combinação entre calor intenso e esforço físico continua sendo um fator crítico. “A carga térmica interna gerada pela atividade física, somada ao calor ambiental, parece aumentar significativamente o estresse fisiológico”, afirmam os pesquisadores.
Os autores defendem que gestantes passem a ser oficialmente incluídas entre os grupos vulneráveis em planos de emergência climática e políticas públicas de saúde. Hoje, observam eles, mulheres grávidas ainda não aparecem como grupo prioritário em documentos globais da Organização Mundial da Saúde sobre calor extremo.
Entre as recomendações imediatas estão evitar exposição ao sol nos horários mais quentes, reduzir atividades físicas intensas, usar roupas leves, permanecer em locais ventilados e aumentar a hidratação.
Embora o estudo reconheça limitações — como a concentração de pesquisas em países ricos e a ausência de dados robustos sobre inflamação e efeitos de longo prazo —, os pesquisadores afirmam que as evidências já são suficientes para transformar o calor extremo em prioridade obstétrica global.
Num planeta em aquecimento acelerado, dizem os autores, proteger gestantes pode deixar de ser apenas uma questão clínica para se tornar um dos principais desafios da saúde pública do século XXI.
Referência
Resposta fisiológica e biológica à exposição ao calor na gravidez: uma revisão sistemática e meta-análise. A revista The Lancet sobre saúde planetária. Publicado em: 13 de maio de 2026. Ana Bonell, Asma Abdul Malik Qureshi, Andreas D Flouris, Lydia Tsoutsoubi, Amanda N Sferruzzi-Perri, Jai K Dase outros