Brasil avança contra o cigarro, mas fracassa no combate à obesidade e ao álcool, aponta estudo
Pesquisa com mais de 643 mil brasileiros projeta cenário preocupante até 2030: obesidade pode atingir 28,3% da população adulta, enquanto consumo abusivo de álcool cresce entre mulheres; especialistas alertam para risco de colapso silencioso...

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O Brasil poderá chegar a 2030 com menos fumantes e menos consumo de refrigerantes, mas mais obeso, hipertenso, diabético e alcoólatra. O retrato contraditório emerge de um amplo estudo publicado nesta quarta-feira (13), na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, baseado em dados de 643.196 adultos entrevistados entre 2009 e 2023 pelo sistema Vigitel, do Ministério da Saúde.
Coordenada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade Federal de Minas Gerais e de universidades chilenas, a pesquisa conclui que o país dificilmente cumprirá várias metas do Plano Estratégico para Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis até o fim da década.
O trabalho mostra que, mantidas as tendências atuais, a obesidade deve saltar de 20,3% da população adulta em 2019 para 28,3% em 2030 — um crescimento relativo de 39,4%. Já a prevalência de diabetes deverá subir 47,3% no mesmo período, enquanto a hipertensão aumentará 11,4%.
“Os resultados indicam que o Brasil avançou em algumas frentes importantes, especialmente no controle do tabagismo e na redução do consumo de bebidas açucaradas. Mas os principais motores das doenças crônicas continuam crescendo”, afirma o epidemiologista Leandro F. M. Rezende, autor sênior do estudo. Segundo ele, o país vive “um momento decisivo” na política de saúde pública. “Sem ações estruturais e contínuas, o avanço da obesidade e do álcool pode anular conquistas históricas obtidas nas últimas décadas.”
As doenças crônicas não transmissíveis — grupo que inclui diabetes, hipertensão, câncer e enfermidades cardiovasculares — já respondem por mais de 700 mil mortes anuais no Brasil, equivalente a 54,7% de todos os óbitos registrados no país. Quase 40% dessas mortes são consideradas prematuras, ocorrendo entre os 30 e os 69 anos.
Os pesquisadores utilizaram séries históricas do Vigitel, maior sistema contínuo de vigilância de fatores de risco em saúde do país, presente nas 26 capitais e no Distrito Federal. O levantamento permitiu projetar o comportamento de indicadores como tabagismo, sedentarismo, consumo de frutas e verduras, ingestão de bebidas açucaradas e álcool abusivo.
Os dados revelam um raro caso de sucesso internacional no combate ao cigarro. A prevalência de fumantes deve cair de 9,8% em 2019 para 4,7% em 2030, superando a meta nacional em 30%. Entre mulheres, a redução tende a ser ainda mais intensa.
Para os autores, o desempenho brasileiro reflete décadas de políticas públicas iniciadas ainda nos anos 1980, com proibição de publicidade de cigarros, aumento de impostos, advertências sanitárias e criação de ambientes livres de fumaça. O país foi um dos primeiros do mundo a aderir à Convenção-Quadro para Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde.
Também houve forte retração no consumo regular de refrigerantes e bebidas açucaradas, que deve despencar de 15% para 3,2% até 2030, superando em mais de 160% a meta oficial.
Mas os avanços param aí.
O consumo abusivo de álcool — definido como quatro doses ou mais para mulheres e cinco para homens numa mesma ocasião — deverá aumentar de 18,8% para 21,3% da população até 2030. Entre mulheres, o crescimento é descrito pelos autores como especialmente alarmante: a projeção indica um desvio negativo de 286% em relação à meta estipulada pelo governo brasileiro.
“A diferença histórica entre homens e mulheres no consumo excessivo de álcool está diminuindo rapidamente”, observam os autores. Segundo o estudo, fatores culturais, publicidade direcionada e transformações sociais vêm alterando o padrão de consumo feminino no país.
A alimentação saudável também avança lentamente. O percentual de brasileiros que consomem frutas e verduras na quantidade recomendada deverá subir apenas de 22,9% para 24,5% até 2030 — muito abaixo da meta nacional de 29,8%. Isso significa que cerca de três em cada quatro adultos continuarão sem atingir o mínimo nutricional indicado por especialistas.

Entre os entraves citados estão o alto preço dos alimentos frescos, dificuldades logísticas e o crescimento dos ultraprocessados na dieta brasileira. O estudo menciona ainda o impacto da crise econômica e do desmonte de políticas sociais após 2015 como fatores que contribuíram para a estagnação recente dos indicadores.
A prática de atividade física no lazer apresenta melhora moderada. A projeção aponta que 45,3% dos adultos estarão fisicamente ativos em 2030, avanço insuficiente para cumprir integralmente a meta nacional. Mulheres tiveram crescimento mais acelerado nos últimos anos, impulsionado por programas comunitários e políticas públicas locais.
Mesmo assim, mais da metade da população das capitais brasileiras continuará sedentária ao final da década, segundo os cálculos do estudo.
A pesquisa destaca ainda que o aumento da obesidade funciona como um “efeito cascata” sobre outras doenças crônicas. O crescimento simultâneo da diabetes e da hipertensão é apontado como consequência direta do padrão alimentar baseado em produtos ultraprocessados, associado ao sedentarismo e às desigualdades sociais persistentes.
Para Jacqueline Wahrhaftig, o cenário exige resposta política mais ampla do que campanhas educativas isoladas. “As doenças crônicas são determinadas por fatores econômicos, urbanos e ambientais. Não basta responsabilizar apenas o indivíduo”, afirma.
O trabalho também chama atenção para um dado simbólico: embora o Brasil seja frequentemente citado como referência global em políticas de saúde pública, nenhuma nação do mundo conseguiu até hoje reverter de forma consistente o avanço da obesidade em escala populacional.
Na avaliação dos autores, o país chega à metade da década diante de um paradoxo sanitário. De um lado, consolida vitórias históricas contra o tabaco. De outro, enfrenta uma nova geração de riscos alimentada pelo consumo de ultraprocessados, pelo álcool e pelas desigualdades urbanas.
“O futuro das doenças crônicas no Brasil dependerá das escolhas políticas feitas agora”, conclui o estudo.
Referência
Progresso rumo às metas de 2030 do Plano de Ação Estratégico do Brasil para doenças não transmissíveis: uma análise de séries temporais e projeções de fatores de risco. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 60 101494 Publicado: 13 de maio de 2026. Jacqueline Wahrhaftig, Gerson Ferrari, Rafael Claro, Anna Beatriz Souza Antunes, Letícia de Oliveira Cardoso, Leandro FM Rezende. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101494