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A combinação entre diabetes tipo 2 e hipertensão arterial pode formar uma “tempestade perfeita” para a saúde ocular. Um estudo conduzido por pesquisadores da Debre Markos University, na Etiópia, concluiu que 21% dos pacientes acompanhados ao longo de dez anos desenvolveram retinopatia diabética — complicação vascular capaz de provocar cegueira irreversível. A pesquisa, publicada neste sábado (16), na revista Scientific Reports, alerta que fatores como obesidade, idade acima de 60 anos, glicemia descontrolada e histórico familiar de diabetes aceleram significativamente o aparecimento da doença.
O levantamento analisou 600 pacientes atendidos no Hospital Especializado de Debre Markos, no noroeste etíope, entre 2014 e 2023. Todos conviviam simultaneamente com diabetes tipo 2 e hipertensão — associação considerada especialmente perigosa para os vasos sanguíneos da retina. A incidência observada foi de 5,16 casos por mil pessoas-mês de acompanhamento, índice considerado elevado pelos autores.
Segundo o pesquisador principal, Mulat Belay Simegn, do Departamento de Saúde Pública da universidade etíope, os resultados reforçam a necessidade de rastreamento precoce. “A retinopatia diabética continua sendo uma das principais causas evitáveis de cegueira entre adultos economicamente ativos”, afirmam os autores no artigo.
A pesquisa mostra que pacientes obesos tiveram risco duas vezes maior de desenvolver lesões oculares em comparação com indivíduos com peso considerado normal. Já pessoas com controle inadequado da glicemia apresentaram risco 87% maior. O nível elevado de hemoglobina glicada — marcador que mede o controle do açúcar no sangue nos últimos meses — também apareceu como um dos principais indicadores de agravamento.
Entre os pacientes acima de 60 anos, o perigo aumentou 51%. Já aqueles com histórico familiar de diabetes tiveram risco mais que dobrado de desenvolver retinopatia. Para os cientistas, o dado sugere influência genética importante na progressão das complicações microvasculares.
O estudo traz ainda um aspecto considerado relevante pela comunidade científica: a coexistência entre hipertensão e diabetes. Segundo os pesquisadores, a combinação das duas doenças amplia o dano nos pequenos vasos sanguíneos e acelera a degeneração da retina. “Ocorre uma sinergia entre as enfermidades, potencializando complicações microvasculares e macrovasculares”, destacam os autores.
A preocupação não é pequena. Dados citados no trabalho mostram que o número de pessoas com diabetes no mundo saltou de 108 milhões em 1980 para 422 milhões em 2014. A projeção internacional aponta que o total poderá chegar a 700 milhões até 2045.
A retinopatia diabética é hoje uma das principais causas de cegueira entre adultos em idade produtiva. Embora existam tratamentos capazes de reduzir em até 60% o risco de perda visual, especialistas afirmam que boa parte dos pacientes ainda chega aos serviços médicos em estágios avançados da doença, sobretudo em países de baixa e média renda.
O impacto econômico também preocupa. O artigo cita estimativas segundo as quais o diabetes consome cerca de 11,6% dos orçamentos anuais de saúde em muitos países. Apenas nos Estados Unidos, os custos diretos da retinopatia diabética foram calculados em US$ 490 milhões anuais ainda em 2004.
Apesar do cenário alarmante, os pesquisadores encontraram um resultado considerado positivo. Pacientes submetidos a tratamento com medicação injetável, como insulina, apresentaram redução de 76% no risco de desenvolver retinopatia. Além disso, indivíduos com tempo de tratamento superior a seis anos tiveram redução de 70% no risco da complicação ocular.
Para os autores, isso sugere que o acompanhamento contínuo e a adesão rigorosa ao tratamento podem retardar o dano vascular provocado pelo diabetes. “O controle glicêmico sustentado continua sendo a ferramenta mais importante para evitar a progressão das lesões na retina”, concluem.
Especialistas ouvidos ao longo do artigo científico também destacam que mudanças de estilo de vida podem fazer diferença substancial. Redução de peso, alimentação balanceada, prática regular de atividade física e controle rigoroso da pressão arterial aparecem entre as principais recomendações médicas.
A pesquisa etíope se soma a uma série de estudos internacionais que vêm demonstrando o crescimento acelerado das complicações oculares relacionadas ao diabetes. Trabalhos anteriores realizados no Quênia, Coreia do Sul, Reino Unido e China já haviam identificado relação direta entre hiperglicemia persistente e destruição progressiva dos vasos da retina.
Os cientistas africanos ressaltam, porém, que o contexto regional influencia fortemente os resultados. Em muitos países africanos, incluindo a Etiópia, há dificuldades de acesso a exames oftalmológicos, falta de infraestrutura médica e diagnóstico tardio das doenças crônicas. Isso ajuda a explicar por que a incidência encontrada no estudo foi superior à observada em países europeus e asiáticos.
O trabalho também evidencia uma transformação epidemiológica silenciosa em países em desenvolvimento: o avanço simultâneo das doenças cardiovasculares e metabólicas. Durante décadas, sistemas de saúde africanos estiveram voltados majoritariamente para doenças infecciosas. Hoje, convivem com uma explosão de enfermidades crônicas relacionadas ao envelhecimento populacional, urbanização acelerada e mudanças alimentares.
Para Werkneh Melkie Tilahun, coautor do estudo, o desafio agora é transformar evidência científica em políticas públicas permanentes. Entre as recomendações apresentadas pelos autores estão consultas oftalmológicas regulares, monitoramento contínuo da hemoglobina glicada e campanhas de educação para pacientes com diabetes e hipertensão.
Os pesquisadores defendem ainda a realização de novos estudos multicêntricos e prospectivos, capazes de avaliar fatores genéticos, hábitos alimentares e níveis de atividade física — variáveis que não puderam ser analisadas integralmente nesta pesquisa retrospectiva.
Enquanto a ciência busca respostas mais amplas, a mensagem central do estudo já é clara: controlar o diabetes não significa apenas evitar complicações metabólicas, mas também preservar a visão. Em um mundo cada vez mais afetado por doenças crônicas, enxergar o problema cedo pode ser a diferença entre tratamento e cegueira.
Referência
Simegn, MB, Feleke, HG, Mengie, MG et al. Incidência e preditores de retinopatia diabética em pacientes com diabetes tipo 2 e hipertensão: um estudo retrospectivo de acompanhamento de 10 anos. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-53165-4