Vacinas salvam mais vidas do que nunca, mas escassez global força países a escolher prioridades
Estudo publicado na The Lancet mostra que imunizantes contra HPV e sarampo lideram impacto em mortalidade; cortes internacionais e pressão orçamentária desafiam programas de vacinação em 117 países

Imagem: Reprodução
Em meio à retração do financiamento internacional para saúde e ao aumento da pressão sobre os sistemas públicos, um amplo estudo publicado neste sábado (16), pela revista científica The Lancet, lança um alerta: o mundo entra em uma nova era em que governos precisarão decidir quais vacinas priorizar diante de recursos cada vez mais limitados. E os dados mostram que essas escolhas podem significar milhões de vidas salvas — ou perdidas.
A pesquisa, conduzida por dezenas de cientistas ligados ao Vaccine Impact Modelling Consortium, analisou o impacto de programas de imunização apoiados pela Gavi, the Vaccine Alliance em 117 países de baixa e média renda entre 2000 e 2030. O levantamento comparou 14 vacinas diferentes e calculou quantas mortes e quantos anos de vida saudáveis são preservados a cada mil pessoas vacinadas.
Os resultados apontam que as vacinas contra o HPV, vírus associado ao câncer do colo do útero, e contra o sarampo apresentam os maiores impactos em redução de mortes. Segundo o estudo, a vacina contra HPV evita, em média, 11,24 mortes a cada mil imunizações, enquanto a vacina contra o sarampo evita 6,09 mortes no mesmo universo.
O trabalho reúne pesquisadores de instituições como Imperial College London, London School of Hygiene & Tropical Medicine, University of Cambridge, Boston University e World Health Organization. A liderança do estudo ficou a cargo da epidemiologista Katy A. M. Gaythorpe.
“O contexto global mudou drasticamente”, afirmam os autores. “Com a expansão do número de vacinas recomendadas e a redução dos recursos internacionais, tornou-se essencial comparar os impactos relativos entre diferentes programas de imunização.”
O estudo surge em um momento delicado para a saúde global. Após décadas de expansão da cobertura vacinal, muitos países enfrentam agora uma combinação de crescimento populacional, inflação nos custos de saúde e redução de ajuda externa. Organizações internacionais já alertam para o enfraquecimento de programas financiados por países ricos, especialmente após os impactos econômicos da pandemia de Covid-19.
Desde sua criação, em 2000, a Gavi, the Vaccine Alliance afirma ter apoiado a vacinação de mais de 1,1 bilhão de crianças no mundo. Agora, porém, o modelo de financiamento entra em transformação. O chamado programa Gavi 6.0, previsto para o período de 2025 a 2030, prevê maior autonomia para governos nacionais decidirem quais vacinas financiar.
Na prática, isso significa que ministérios da Saúde terão de fazer escolhas difíceis.
“Os níveis atuais de financiamento são insuficientes para cobrir todas as vacinas disponíveis”, escrevem os autores.
A pesquisa também mostra diferenças importantes entre regiões do planeta. Em alguns casos, a eficácia relativa das vacinas varia conforme fatores epidemiológicos locais, infraestrutura de saúde e estratégias de imunização. Os cientistas observaram, por exemplo, que determinadas vacinas apresentam melhor desempenho quando aplicadas em campanhas específicas, enquanto outras têm maior impacto em programas permanentes de rotina.
Outro destaque do estudo é a inclusão inédita das vacinas contra malária e Covid-19 na comparação internacional.
As vacinas contra malária aparecem entre as mais relevantes em anos de vida preservados, especialmente porque a doença atinge crianças muito pequenas. Segundo os pesquisadores, a imunização contra malária evita cerca de 203 anos de vida ajustados por incapacidade — indicador conhecido pela sigla DALY — a cada mil pessoas vacinadas.
Já as vacinas contra Covid-19 apresentaram impacto relativamente menor na métrica usada pelos autores: cerca de 0,12 morte evitada a cada mil imunizações. Os pesquisadores alertam, porém, que esse dado não significa baixa eficácia. A explicação está no recorte geográfico e temporal do estudo, concentrado em países de baixa e média renda e em cenários específicos de circulação do vírus.

O trabalho ressalta ainda que vacinas produzem efeitos que vão além da mortalidade imediata. No caso da hepatite B, por exemplo, a prevenção reduz décadas de tratamento para cirrose e câncer hepático. Já o controle do sarampo gera efeitos indiretos importantes por interromper rapidamente cadeias de transmissão altamente contagiosas.
A metodologia usada pelos pesquisadores envolveu modelos matemáticos complexos, capazes de simular cenários com e sem vacinação. Foram avaliadas incertezas estatísticas, diferenças estruturais entre modelos e projeções populacionais até o ano 2100.
Segundo os autores, a intenção não é estabelecer um “ranking absoluto” de vacinas, mas oferecer uma ferramenta comparativa para orientar decisões públicas em cenários de escassez.
“Priorização precisa estar baseada em evidências robustas”, conclui o artigo. “As métricas de impacto desenvolvidas pelo consórcio oferecem uma estrutura transparente e padronizada para comparar benefícios de diferentes programas de imunização.”
Especialistas ouvidos pelos autores afirmam que o desafio não será apenas científico, mas político. Em muitos países, campanhas antivacina, crises fiscais e conflitos geopolíticos já pressionam os sistemas nacionais de imunização.
O temor é que cortes em programas preventivos produzam efeitos acumulativos nos próximos anos, abrindo espaço para o retorno de doenças consideradas controladas. O próprio estudo lembra que a vacinação foi responsável por salvar cerca de 154 milhões de vidas desde a criação do Programa Expandido de Imunização da World Health Organization, em 1974.
Agora, diante da nova disputa global por recursos, a ciência tenta oferecer aos governos aquilo que considera essencial: critérios objetivos para decidir quem será protegido primeiro.
Referência
Quantificação do impacto relativo na saúde em todo o portfólio da Gavi, a Aliança de Vacinas, em 117 países no nível sub-regional: um estudo de modelagem. The LancetVol. 407 No. 10542 p1941 Publicado em: 16 de maio de 2026. Katy AM Gaythorpe, Xiang LiManjari Shankar, Anna-Maria Hartner, Zoë Gibney, Kaja Abbase outros. DOI: 10.1016/S0140-6736(26)00555-6