Saúde

Dieta cetogênica entra no radar contra câncer de endométrio após estudo apontar resposta imune em tumores
Pesquisa liderada por centros de excelência dos EUA mostra que redução extrema de carboidratos diminuiu insulina, levou à perda de peso e aumentou infiltração de células de defesa em mulheres com câncer ginecológico
Por Redação - 27/05/2026


Imagem: Reprodução


Uma dieta radicalmente pobre em carboidratos — conhecida popularmente como dieta cetogênica — começa a ganhar espaço no debate científico sobre terapias complementares contra o câncer. Um estudo multicêntrico publicado nesta quarta-feira (27), na revista científica Nature Communications, encontrou sinais de que a estratégia alimentar pode alterar o metabolismo e até estimular respostas imunológicas em mulheres com câncer de endométrio e obesidade.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Weill Cornell Medicine, da Memorial Sloan Kettering Cancer Center e da NYU Langone Health, acompanhou 19 mulheres recém-diagnosticadas com câncer de endométrio antes da cirurgia. Parte delas recebeu, durante cerca de quatro semanas, uma dieta cetogênica extremamente restritiva, com apenas 6,2% das calorias vindas de carboidratos.

Os resultados chamaram atenção dos pesquisadores. Entre as participantes que seguiram a dieta, houve perda média de 5,5% do peso corporal, redução de 22% na glicemia de jejum e queda de 60% nos níveis de insulina. Mais do que isso: análises moleculares dos tumores revelaram aumento da presença de células CD8+, consideradas “soldados” do sistema imunológico no combate ao câncer.

“Esses resultados destacam os efeitos profundos que dieta, perda de peso e fatores metabólicos podem exercer sobre a imunidade antitumoral”, escreveram os autores no artigo.


O trabalho foi liderado pelos médicos e pesquisadores Marcus D. Goncalves e Vicky Makker, referências internacionais em oncologia metabólica. O principal autor do estudo é Ezequiel Dantas.

Embora os cientistas façam ressalvas sobre o tamanho reduzido da amostra, o estudo amplia um campo de investigação que vem ganhando força nos últimos anos: a relação entre metabolismo, obesidade e crescimento tumoral.

O câncer de endométrio — que afeta o revestimento interno do útero — é hoje o tumor ginecológico mais comum nos países ocidentais. Segundo os autores, a obesidade responde por cerca de metade dos casos registrados nos Estados Unidos e na Europa. Mulheres obesas têm risco até três vezes maior de desenvolver a doença e probabilidade até 6,25 vezes superior de morrer em decorrência dela.

A ligação biológica é conhecida há anos. O excesso de peso provoca alterações hormonais e metabólicas, incluindo aumento da insulina circulante, inflamação crônica e maior atividade da via PI3K/AKT/mTOR — um dos principais motores moleculares do crescimento tumoral. Mais de 90% dos tumores endometriais apresentam alterações nessa via celular.

“A glicemia elevada e a hiperinsulinemia parecem funcionar como combustível para o tumor”, afirmam os pesquisadores. Dietas ricas em açúcar e carboidratos refinados já haviam sido associadas anteriormente ao aumento do risco de câncer endometrial. Estudos epidemiológicos citados pelo grupo indicam que o risco da doença sobe 15% a cada incremento de 50 unidades na carga glicêmica diária da alimentação.

Foi justamente para testar o efeito inverso — reduzir drasticamente carboidratos e, consequentemente, a produção de insulina — que os cientistas desenharam o ensaio clínico.

Das 775 mulheres inicialmente avaliadas, apenas 19 preencheram os critérios e aceitaram participar da pesquisa. Quinze concluíram o protocolo. As participantes do grupo cetogênico receberam refeições preparadas pela cozinha metabólica do centro clínico da Weill Cornell Medicine. Em média, a dieta continha 87,2% das calorias vindas de gordura, 8,7% de proteína e somente 6,2% de carboidratos.

Apesar do rigor da intervenção, a adesão foi considerada alta: as pacientes consumiram 91% das refeições oferecidas. Não houve eventos adversos graves relacionados à dieta. O principal efeito relatado foi perda de apetite — algo já esperado em protocolos cetogênicos.

Os cientistas observaram ainda redução de marcadores ligados ao crescimento tumoral, como IGF-1 e leptina. Paralelamente, análises de sequenciamento genético identificaram maior atividade de genes associados à resposta imune e ao metabolismo oxidativo.


O achado mais inesperado, segundo os autores, foi justamente a infiltração de células CD8+ ao redor dos tumores. Essas células desempenham papel central em imunoterapias modernas porque atacam diretamente células cancerígenas.

“Nós não esperávamos encontrar aumento da resposta de interferon-alfa nem infiltração de células T citotóxicas”, escreveram os pesquisadores na discussão do artigo.

A hipótese levantada é que a queda abrupta nos níveis de insulina possa alterar o microambiente tumoral, tornando-o menos favorável ao câncer e mais receptivo ao ataque imunológico.

Especialistas ouvidos em estudos anteriores já vinham sugerindo que intervenções metabólicas poderiam potencializar tratamentos oncológicos tradicionais. Pesquisas experimentais mostraram que dietas cetogênicas podem aumentar a eficácia de drogas que bloqueiam a via PI3K, alvo frequente em tumores ginecológicos.

Ainda assim, os próprios autores alertam que os resultados estão longe de representar uma recomendação clínica imediata.

O estudo foi desenhado como um teste de viabilidade, não como prova definitiva de eficácia terapêutica. A amostra pequena, a curta duração do acompanhamento e a diversidade genética dos tumores limitam conclusões mais amplas.

Além disso, houve aumento nos níveis de colesterol LDL — o chamado “colesterol ruim” — em parte das participantes.

Mesmo assim, os pesquisadores consideram os resultados suficientemente promissores para justificar estudos maiores.

“Mesmo um curto período de dieta cetogênica foi suficiente para induzir mudanças metabólicas sistêmicas e alterações imunológicas no tumor”, conclui o artigo.

O debate ganha relevância num cenário global de crescimento simultâneo da obesidade e dos cânceres associados ao metabolismo. Nos Estados Unidos, a incidência de câncer endometrial vem aumentando continuamente nas últimas décadas. No Brasil, especialistas também observam avanço dos casos, impulsionado pelo envelhecimento populacional e pelo aumento do sobrepeso.

Para a oncologia, o estudo reforça uma ideia que há poucos anos parecia periférica: o que se come pode interferir diretamente na biologia do câncer — e talvez até na forma como o sistema imune reage a ele.


Referência
Dantas, E., Hootman, KC, Moyer, J. et al. Dieta cetogênica com muito baixo teor de carboidratos em mulheres com câncer de endométrio e sobrepeso sem tratamento prévio: um estudo de viabilidade randomizado. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73519-w

 

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