Saúde

Câncer de próstata expõe novo alvo oculto: a 'usina de energia' dos músculos
Estudo da Universidade de Washington mostra que terapia hormonal usada contra tumores acelera fadiga, perda muscular e queda da qualidade de vida ao afetar mitocôndrias; pesquisadores defendem nova geração de tratamentos voltados à proteção muscular
Por Laercio Damasceno - 27/05/2026


Pixabay


A terapia hormonal que revolucionou o combate ao câncer de próstata avançado pode estar produzindo um efeito colateral silencioso — e profundamente incapacitante. Um estudo publicado nesta quarta-feira (27), na revista científica Nature Communications, identificou que a terapia de privação androgênica (ADT), tratamento padrão para frear o crescimento tumoral, está associada a alterações importantes nas mitocôndrias musculares, estruturas responsáveis pela produção de energia das células. A descoberta ajuda a explicar por que milhares de pacientes desenvolvem fadiga extrema, perda de massa muscular e deterioração da qualidade de vida durante o tratamento.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do sistema de saúde de veteranos dos Estados Unidos e da University of Washington, em Seattle, sob coordenação do geriatra e endocrinologista Jose M. Garcia. O artigo acompanhou 60 homens com câncer de próstata avançado ao longo de seis meses de tratamento hormonal. Os resultados revelaram que pacientes com melhor função mitocondrial antes do início da terapia sofreram perdas menores de força, resistência física e qualidade de vida ao longo do tratamento.

“Os dados sugerem que as mitocôndrias podem ser um alvo terapêutico importante para preservar função física e qualidade de vida nesses pacientes”, escrevem os autores no estudo.

O câncer de próstata é hoje o segundo tipo de câncer que mais mata homens no mundo, atrás apenas do câncer de pulmão. A ADT — terapia que reduz drasticamente os níveis de testosterona — tornou-se um dos pilares do tratamento de tumores avançados e metastáticos. O problema é que, embora freie a progressão do câncer, ela também afeta músculos, metabolismo e disposição física.

Historicamente, médicos observavam que pacientes em tratamento hormonal relatavam perda de força, cansaço persistente e dificuldade crescente para realizar tarefas simples. Mas ainda não estava claro por que alguns homens deterioravam rapidamente enquanto outros mantinham relativa estabilidade física.

A nova pesquisa lança luz sobre essa diferença.

Os cientistas avaliaram composição corporal, resistência física, qualidade de vida e funcionamento das mitocôndrias — tanto por biópsias musculares quanto por espectroscopia de ressonância magnética. Participaram homens com média etária avançada e quadros clínicos graves: 32,2% apresentavam metástases e mais de 81% tinham tumores classificados em grau 3 ou superior.

Ao longo dos seis meses de terapia hormonal, os pacientes perderam massa muscular magra, ganharam gordura corporal e apresentaram piora progressiva da resistência física. A força de preensão manual caiu já nos primeiros três meses. A capacidade aeróbica, medida pelo VO2 pico, também diminuiu significativamente.

Os questionários clínicos aplicados mostraram deterioração consistente da qualidade de vida. Houve aumento da fadiga, piora do funcionamento social e físico e maior incidência de sintomas como insônia, constipação e náusea.

Mas o aspecto mais surpreendente do estudo apareceu quando os pesquisadores cruzaram esses resultados com indicadores mitocondriais.

Pacientes com melhor desempenho das mitocôndrias antes da terapia apresentaram menor declínio muscular e físico depois do tratamento. Já indivíduos com pior capacidade energética celular sofreram perdas mais acentuadas.

A descoberta reforça uma hipótese que vem ganhando espaço na medicina do envelhecimento: a de que a resistência física depende menos do volume muscular bruto e mais da capacidade energética das células musculares.

No estudo, homens com maior massa muscular nem sempre apresentavam melhor qualidade de vida. Em alguns casos, ocorreu exatamente o contrário. Já aqueles com melhor resistência cardiorrespiratória e maior atividade mitocondrial relataram menos fadiga e melhores indicadores físicos e emocionais.

“Isso sugere que resistência muscular pode ser clinicamente mais relevante do que simplesmente massa muscular em pacientes com câncer de próstata avançado”, afirmam os autores.

As mitocôndrias são frequentemente descritas como “usinas de energia” das células. Elas convertem nutrientes em ATP, molécula essencial para o funcionamento muscular. Com o envelhecimento, doenças crônicas e alguns tratamentos agressivos, essas estruturas perdem eficiência.

No novo estudo, análises proteômicas mostraram que a ADT promoveu redução de proteínas ligadas à função mitocondrial e ativou vias associadas à inflamação, coagulação sanguínea e remodelamento do tecido muscular.

Segundo os pesquisadores, os pacientes mais afetados pelo tratamento apresentaram sinais moleculares compatíveis com inflamação persistente e possível fibrose muscular.


O trabalho também aponta uma consequência prática imediata: exames de função mitocondrial poderiam futuramente ajudar médicos a prever quais pacientes têm maior risco de desenvolver fragilidade física severa durante o tratamento hormonal.

A hipótese abre espaço para uma nova abordagem terapêutica. Em vez de focar apenas no controle tumoral, especialistas começam a defender tratamentos complementares voltados à preservação metabólica e muscular.

Os próprios autores mencionam intervenções como exercícios físicos específicos e drogas direcionadas às mitocôndrias. Entre elas está o peptídeo experimental Elamipretide, já investigado em estudos sobre envelhecimento muscular e caquexia associada ao câncer.

O impacto potencial é expressivo. O câncer de próstata é uma doença altamente prevalente em populações envelhecidas, justamente o grupo mais vulnerável à perda muscular acelerada. À medida que terapias hormonais tornam-se mais intensas e prolongadas, cresce também o número de pacientes vivendo mais tempo — porém com limitações físicas importantes.

O estudo reconhece limitações, como o número relativamente pequeno de participantes e o acompanhamento restrito a seis meses. Ainda assim, especialistas consideram o trabalho um dos mais abrangentes já realizados sobre a relação entre mitocôndrias e câncer de próstata.

Além de testes físicos e exames metabólicos sofisticados, a pesquisa utilizou análises genéticas, proteômicas e biópsias musculares para mapear as alterações celulares provocadas pela terapia hormonal.

Para os autores, os achados podem redefinir a forma como médicos monitoram pacientes submetidos à privação androgênica.

“A função mitocondrial antes do início da terapia pode ajudar a identificar indivíduos mais suscetíveis à perda muscular e funcional”, conclui o estudo.

Em uma era em que o câncer de próstata se torna cada vez mais tratável, a pesquisa traz um alerta importante: sobreviver mais não basta. A nova fronteira da oncologia passa também por preservar energia, autonomia e qualidade de vida.


Referência
Caeiro, L., Anderson, LJ, Dash, A. et al. Mitocôndrias musculares, função, massa e qualidade de vida no câncer de próstata durante a terapia de privação de andrógenos. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73542-x

 

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