Saúde

Genes, hábitos e transtornos mentais: estudo revela elo invisível entre depressão, esquizofrenia e estilo de vida
Pesquisa com mais de 1 milhão de pessoas mostra que predisposição genética influencia alimentação, sedentarismo e atividade física de maneiras diferentes entre depressão, esquizofrenia e transtorno bipolar — e pode ajudar a explicar o risco...
Por Laercio Damasceno - 28/05/2026


Imagem: Reprodução


Durante décadas, médicos atribuíram os hábitos pouco saudáveis de pessoas com transtornos mentais graves sobretudo aos efeitos colaterais de medicamentos, ao isolamento social ou às dificuldades impostas pela própria doença. Agora, um amplo estudo internacional publicado nesta quarta-feira (27), na revista científica eBioMedicine, do grupo The Lancet, sugere que a explicação é mais profunda: parte desses comportamentos pode estar inscrita no próprio DNA.

A pesquisa analisou dados genéticos de mais de 1 milhão de pessoas e encontrou evidências robustas de uma arquitetura genética compartilhada entre transtornos mentais severos — como depressão maior, esquizofrenia e transtorno bipolar — e fatores de estilo de vida, incluindo sedentarismo, alimentação e prática de atividade física.

O trabalho foi liderado por pesquisadores do Oslo University Hospital e da University of Oslo, com colaboração de cientistas do Karolinska Institute, da University of Iceland, da University of California San Diego e do programa norte-americano All of Us Research Program.

Os autores identificaram 551 regiões genéticas compartilhadas entre os transtornos psiquiátricos e comportamentos ligados ao estilo de vida. O dado mais surpreendente, porém, foi a diferença de padrão entre as doenças.

Enquanto a depressão maior apresentou associação genética com menor atividade física e maior comportamento sedentário, esquizofrenia e transtorno bipolar mostraram o oposto: predisposição genética relacionada a hábitos considerados mais saudáveis, como maior atividade física e melhor alimentação.

“Os resultados mostram uma propensão genética para estilos de vida menos saudáveis na depressão maior, enquanto esquizofrenia e transtorno bipolar exibem um padrão divergente”, escreveram os autores liderados por Linn Rødevand e Ole Andreas Andreassen.

A descoberta ajuda a explicar um paradoxo conhecido da psiquiatria moderna. Pessoas com transtornos mentais graves vivem, em média, de 10 a 20 anos menos do que a população geral, principalmente devido a doenças cardiovasculares. Mas estudos anteriores já haviam mostrado que pacientes com esquizofrenia e bipolaridade possuíam, geneticamente, tendência a índices menores de massa corporal — algo incompatível com as altas taxas clínicas de obesidade observadas nesses grupos.

Segundo os pesquisadores, a contradição pode estar relacionada ao peso dos fatores ambientais e farmacológicos. Antipsicóticos, por exemplo, são conhecidos por provocar ganho de peso importante. Além disso, sintomas como apatia, dificuldades cognitivas e vulnerabilidade socioeconômica também afetam hábitos cotidianos.

“A predisposição genética pode ser mascarada pelos efeitos dos medicamentos e por fatores ambientais”, afirma o estudo.


Os cientistas utilizaram bases genômicas gigantescas. Foram analisados dados de 480 mil pessoas com depressão maior, 130 mil com esquizofrenia e 353 mil com transtorno bipolar, além de centenas de milhares de registros sobre alimentação, atividade física e comportamento sedentário do banco britânico UK Biobank e do programa All of Us, dos Estados Unidos.

Para evitar distorções comuns em estudos baseados apenas em questionários, a equipe também incorporou dados objetivos de acelerômetros e relógios Fitbit usados por mais de 120 mil participantes.

Os resultados confirmaram o padrão encontrado nos relatos subjetivos: a depressão manteve associação genética com sedentarismo e baixa atividade física, enquanto esquizofrenia e bipolaridade mostraram relação inversa.

A pesquisa também investigou como essas predisposições influenciam fatores metabólicos, como colesterol e obesidade. Os autores observaram que parte da relação genética entre transtornos mentais e alterações metabólicas é mediada justamente pelos hábitos de vida.

Na depressão, a predisposição genética esteve associada a níveis mais altos de triglicerídeos, maior índice de massa corporal e menores níveis de HDL — o chamado “bom colesterol”. Em esquizofrenia e bipolaridade, os efeitos genéticos apareceram em direção oposta.

Os pesquisadores argumentam que isso pode abrir caminho para uma psiquiatria mais personalizada. Em vez de recomendações genéricas, seria possível identificar subgrupos de pacientes geneticamente mais vulneráveis a sedentarismo, obesidade ou alimentação inadequada.

“Os achados têm implicações para previsão de risco e para o desenvolvimento de intervenções de estilo de vida mais direcionadas”, afirmam os autores.


A hipótese de “subgrupos” é uma das mais importantes do estudo. Embora esquizofrenia e bipolaridade tenham apresentado tendência genética média para hábitos mais saudáveis, os cientistas encontraram sinais de ampla heterogeneidade biológica. Em outras palavras: dentro de um mesmo diagnóstico podem existir pacientes com forte predisposição genética simultânea para transtorno mental e hábitos nocivos.

Esse padrão já vinha sendo observado em casos de depressão atípica, frequentemente acompanhada por obesidade, inflamação e compulsão alimentar.

O estudo também lança luz sobre mecanismos neurobiológicos envolvidos no comportamento humano. Muitas das regiões genéticas identificadas estão ligadas ao desenvolvimento neuronal, à formação de sinapses e aos circuitos cerebrais associados à motivação e recompensa.

Segundo os autores, isso reforça a hipótese de que alterações em circuitos dopaminérgicos — historicamente associados à esquizofrenia e à depressão — também possam influenciar diretamente disposição para exercício, alimentação e rotina sedentária.

Apesar da dimensão inédita do trabalho, os pesquisadores reconhecem limitações. Grande parte das informações sobre alimentação e atividade física foi obtida por autorrelato, sujeito a erros de memória e distorções comportamentais. Além disso, os bancos genéticos utilizados concentram principalmente indivíduos de ascendência europeia, o que reduz a capacidade de generalização para outras populações.

Ainda assim, especialistas avaliam que o estudo representa um avanço importante na compreensão da relação entre saúde mental e doenças cardiovasculares — uma das maiores lacunas da medicina contemporânea.

Ao integrar genética, comportamento e metabolismo em larga escala, a pesquisa reforça uma mudança de paradigma: transtornos mentais graves não afetam apenas o cérebro. Eles interagem profundamente com o corpo, os hábitos cotidianos e o risco de adoecer precocemente.

E, talvez mais importante, mostram que cuidar da saúde mental pode começar muito antes do consultório — inclusive no prato, na caminhada diária e nos genes silenciosos que moldam comportamentos ao longo da vida.


Referência
Evidências de sobreposição na arquitetura genética entre fatores de estilo de vida e transtornos mentais graves, com padrões diferentes entre os diagnósticos. eBioMedicinaVol. 128 106304 Publicado: 27 de maio de 2026. Linn Rødevand, Zillur Rahman, Piotr Jaholkowski, Nadine Parker, Unnur Anna Valdimarsdóttir, Olav Bjerkehagen Smelande outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106304

 

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