Saúde

Menos corte, mesma visão: estudo da USP sugere que neurocirurgias podem ser feitas por acessos menores sem perder segurança
Pesquisa conduzida pelo neurocirurgião Ricardo Marques Lopes de Araújo apresenta evidências quantitativas que podem ajudar a redefinir a escolha das abordagens neurocirúrgicas minimamente invasivas.
Por Laercio Damasceno - 31/05/2026


Imagem: Reprodução


A busca por cirurgias cada vez menos invasivas acaba de ganhar um novo capítulo na neurocirurgia brasileira. Uma pesquisa de doutorado realizada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo comparou, pela primeira vez de forma quantitativa, duas das principais técnicas minimamente invasivas utilizadas para acessar aneurismas e outras lesões profundas do cérebro. O resultado sugere que procedimentos menores podem oferecer a mesma capacidade de exposição anatômica das abordagens tradicionais, com potencial para reduzir complicações funcionais e melhorar resultados estéticos.

A tese, intitulada Avaliação anatômica e quantitativa da craniotomia supraorbitária lateral e minipterional, foi desenvolvida pelo neurocirurgião Ricardo Marques Lopes de Araújo, sob orientação do professor Eberval Gadelha Figueiredo, no Programa de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP. O trabalho também contou com colaboração do laboratório de base de crânio da Weill Cornell Medical College, nos Estados Unidos.

O estudo surge em um contexto de transformação da neurocirurgia mundial. Desde a década de 1970, quando o neurocirurgião turco Gazi Yasargil sistematizou a chamada craniotomia pterional, essa abordagem tornou-se padrão para o tratamento de aneurismas cerebrais e lesões da base do crânio. Apesar da eficiência, a técnica exige ampla manipulação do músculo temporal e extensa abertura óssea, podendo provocar atrofia muscular, dor mastigatória, alterações estéticas e, em alguns casos, lesão do nervo facial.

Foi justamente para enfrentar essas limitações que surgiram alternativas menos invasivas, entre elas a craniotomia lateral supraorbitária (LSO) e a minipterional (MP). Até agora, porém, faltavam dados objetivos capazes de medir qual delas oferece melhor acesso às estruturas críticas do cérebro.

O resultado principal surpreende: apesar das diferenças anatômicas e técnicas entre os acessos, ambas as abordagens forneceram áreas de exposição cirúrgica praticamente equivalentes, demonstrando que procedimentos menos invasivos podem preservar a capacidade de visualização necessária para cirurgias complexas da circulação cerebral.

Medindo o que os cirurgiões sempre quiseram saber

Embora as duas técnicas sejam utilizadas há anos em centros especializados, faltavam estudos quantitativos capazes de comparar objetivamente a exposição anatômica oferecida por cada uma.

“A exposição anatômica relativa de cada técnica ainda não havia sido comparada quantitativamente”, destaca Araújo no resumo da pesquisa.

Para preencher essa lacuna, a equipe realizou dissecações em 10 espécimes anatômicos, provenientes de sete cadáveres frescos analisados no Serviço de Verificação de Óbitos de São Paulo e três preparados no laboratório de base de crânio da Weill Cornell Medical College.

Utilizando sistemas de neuronavegação tridimensional e softwares de modelagem espacial, os pesquisadores mediram áreas de exposição cirúrgica, dimensões das craniotomias e ângulos de visibilização de estruturas críticas, como a artéria cerebral média, a artéria carótida interna, a artéria comunicante anterior e o ápice da artéria basilar.

Segundo o pesquisador, a intenção era transformar percepções subjetivas de cirurgiões em dados mensuráveis.

Quase a mesma exposição, com menos agressão

Os números revelaram uma equivalência notável.

A área total de exposição microcirúrgica foi de 1.355,7 mm2 para a técnica lateral supraorbitária e 1.371,7 mm2 para a minipterional, diferença sem significância estatística. Também não houve diferenças relevantes nas áreas ipsilaterais, contralaterais ou intermediárias alcançadas pelos dois acessos.

“Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas na área total de exposição cirúrgica nem em seus componentes regionais entre os dois acessos avaliados”, esclarece o estudo.

O achado é relevante porque desafia a noção tradicional de que uma abertura óssea maior necessariamente proporciona melhor acesso intracraniano.

Na prática, os resultados indicam que a qualidade da exposição depende mais da geometria do corredor cirúrgico do que do tamanho da craniotomia em si.

Quando alguns graus fazem diferença

Apesar da equivalência nas áreas de exposição, a pesquisa encontrou diferenças importantes nos chamados ângulos de trabalho — parâmetro que determina a liberdade de movimentação dos instrumentos cirúrgicos.

A abordagem minipterional apresentou vantagem significativa na visualização vertical da artéria cerebral média ipsilateral, alcançando 47,5 graus, contra 35,2 graus observados na técnica supraorbitária. Também demonstrou melhor exposição do ápice da artéria basilar, com diferença estatisticamente significativa.

Por outro lado, a abordagem lateral supraorbitária mostrou desempenho superior na exposição horizontal da artéria comunicante anterior e da artéria carótida interna contralateral, estruturas frequentemente envolvidas em aneurismas localizados na linha média cerebral.

Imagem: Reprodução

Segundo Araújo, esses resultados sugerem que cada técnica oferece vantagens específicas dependendo da localização anatômica da lesão.

Menos cicatriz, menos complicações

Além dos aspectos anatômicos, o estudo reforça uma tendência crescente na neurocirurgia contemporânea: reduzir o trauma cirúrgico sem comprometer a eficácia do tratamento.

A abordagem lateral supraorbitária exige menor manipulação do músculo temporal, preserva melhor o nervo facial e está associada a resultados estéticos superiores. Já a minipterional reduz o risco de abertura acidental do seio frontal e oferece excelente acesso às regiões profundas da fissura silviana.

Na discussão da tese, o autor destaca que as abordagens minimamente invasivas podem proporcionar menor dor pós-operatória, preservação muscular e menor risco de complicações neurológicas quando comparadas à craniotomia pterional clássica.

Essas vantagens ganham relevância em pacientes jovens ou profissionalmente ativos, para os quais a recuperação funcional e estética exerce impacto direto sobre a qualidade de vida.

O futuro da cirurgia personalizada

Para o autor, a principal mensagem da pesquisa não é a superioridade absoluta de uma técnica sobre a outra, mas a importância da individualização.

“A escolha da via de acesso deve ser individualizada, considerando-se as particularidades clínicas e anatômicas de cada paciente, bem como a localização, direção e extensão da lesão a ser tratada”, conclui Araújo.


O trabalho oferece uma das análises quantitativas mais detalhadas já realizadas sobre duas das principais abordagens minimamente invasivas da neurocirurgia vascular moderna. Ao demonstrar que pequenas craniotomias podem oferecer exposição comparável à de acessos mais extensos, a pesquisa contribui para uma mudança gradual de paradigma: na neurocirurgia do século XXI, o sucesso pode depender menos do tamanho da abertura e mais da precisão com que ela é planejada.

Em um campo em que milímetros podem definir o desfecho de uma operação, a tese da USP acrescenta um novo ingrediente à tomada de decisão cirúrgica: evidências objetivas para escolher o caminho mais seguro até o cérebro.


Referência
Avaliação anatômica e quantitativa da craniotomia supraorbitária lateral e minipterional. Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). DOI 10.11606/T.5.2025.tde-05032026-162204

 

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