Saúde

TDAH: maior estudo sobre dosagens de medicamentos desafia prática clínica e redefine limites do tratamento
Meta-análise mostra que aumentar doses além de certos patamares raramente traz benefícios adicionais e pode elevar riscos. Pesquisa reuniu mais de 25 mil pacientes e oferece o mapa mais detalhado já produzido sobre eficácia e tolerabilidade...
Por Redação - 01/06/2026


Imagem: Reprodução


Médicos que tratam o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) enfrentaram uma questão fundamental: até que ponto vale a pena aumentar a dose de um medicamento quando os sintomas persistem? Um dos mais abrangentes estudos já realizados sobre o tema acaba de fornecer respostas importantes — e potencialmente transformadoras para a prática clínica mundial.

Publicado nesta segunda-feira (1º), na revista científica The Lancet Psychiatry, o trabalho analisou sistematicamente a relação entre dose, eficácia e efeitos adversos dos principais medicamentos utilizados contra o TDAH. O estudo conclui que, para a maioria dos tratamentos, existe um ponto de benefício máximo, além do qual aumentos de dose produzem ganhos mínimos ou inexistentes e podem elevar significativamente os riscos de efeitos colaterais.

A pesquisa foi liderada por Mikail Nourredine, da Universidade Claude Bernard Lyon 1 e dos Hospices Civils de Lyon, em colaboração com cientistas de instituições de referência como a University of Southampton, University of Oxford, King’s College London, University of Bern, Yale University, Universidade de São Paulo (USP) e New York University. Entre os autores está o renomado psiquiatra Samuele Cortese, uma das maiores autoridades mundiais em TDAH.

O estudo recebeu financiamento do National Institute for Health and Care Research (NIHR) do Reino Unido.

O maior mapa já feito sobre doses de medicamentos

Os pesquisadores examinaram 113 ensaios clínicos randomizados duplo-cegos, envolvendo 25.154 participantes entre crianças, adolescentes e adultos diagnosticados com TDAH. Foram analisados dados de 14.138 jovens e 11.016 adultos, tornando esta a mais ampla meta-análise em rede sobre dosagem farmacológica para o transtorno já realizada.

A equipe avaliou estimulantes amplamente prescritos, como metilfenidato e anfetaminas, além de não estimulantes, incluindo atomoxetina, guanfacina, clonidina, viloxazina e modafinila. Utilizando sofisticados modelos estatísticos bayesianos, os autores construíram curvas capazes de estimar como a eficácia e a tolerabilidade mudam conforme a dose administrada.

Os resultados revelaram padrões claros.

Entre crianças e adolescentes, o metilfenidato apresentou aumento progressivo da eficácia até aproximadamente 45 mg por dia. Acima desse valor, os benefícios deixaram de crescer e, em algumas análises, houve até indicação de redução da eficácia média, embora com maior incerteza estatística.

As anfetaminas atingiram seu desempenho máximo por volta de 25 mg diários, enquanto a guanfacina mostrou pico de benefício em torno de 4 mg por dia. Após esses pontos, os ganhos adicionais desapareceram.

Nos adultos, o cenário foi semelhante. As anfetaminas alcançaram um platô terapêutico em torno de 50 mg por dia, enquanto o metilfenidato continuou demonstrando aumento de eficácia em doses mais elevadas, embora com retornos cada vez menores.

“Nossos achados desafiam tanto a inércia terapêutica quanto a escalada indiscriminada de doses além dos limites licenciados”, escreveram os autores. Segundo eles, o objetivo deve ser encontrar um equilíbrio entre benefício clínico e segurança, evitando tanto o subtratamento quanto o excesso de medicação.

O problema das doses insuficientes

Uma das conclusões mais relevantes do estudo é que muitos pacientes recebem doses abaixo das consideradas ideais.

Os autores destacam que pesquisas observacionais anteriores já haviam demonstrado que uma parcela significativa de crianças e adolescentes permanece em doses baixas sem ajustes adequados, situação associada a menor controle dos sintomas e pior adesão ao tratamento.

“Nossos resultados sugerem que os clínicos não devem hesitar em aumentar gradualmente as doses mínimas quando os sintomas permanecem insuficientemente controlados”, afirmam os pesquisadores.


Ao mesmo tempo, o estudo não encontrou evidências robustas que justifiquem, de forma rotineira, o uso de doses superiores às aprovadas pelas agências reguladoras.

Quando o risco começa a crescer

A análise também identificou um aumento consistente dos efeitos adversos com doses mais elevadas.

Nas crianças e adolescentes, o risco de abandono do tratamento devido a eventos adversos aumentou de forma clara com as anfetaminas acima de aproximadamente 25 mg diários, justamente a faixa em que o benefício máximo já havia sido alcançado.

Entre os adultos, tanto anfetaminas quanto metilfenidato apresentaram aumento importante da probabilidade de interrupção do tratamento por efeitos colaterais quando as doses ultrapassaram cerca de 50 mg por dia.

No caso do metilfenidato, por exemplo, a probabilidade estimada de abandono por eventos adversos chegou a 7,3% na dose máxima aprovada de 60 mg e atingiu 10% em 90 mg, enquanto os ganhos de eficácia foram relativamente modestos.

Impacto para diretrizes internacionais

Os autores acreditam que os resultados terão repercussão direta na atualização de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas.

Segundo Mikail Nourredine e colaboradores, o trabalho oferece “a síntese mais abrangente de evidências disponível” para orientar decisões compartilhadas entre médicos, pacientes e familiares sobre ajustes de dose.

iStock

Para Samuele Cortese, especialista amplamente reconhecido na área, a mensagem central é clara: o tratamento deve ser individualizado, mas respaldado por evidências quantitativas robustas. Embora alguns pacientes possam necessitar de doses superiores às normalmente recomendadas, isso deve ocorrer apenas após cuidadosa avaliação clínica e monitoramento dos riscos.

Um novo paradigma

O TDAH afeta aproximadamente 5% das crianças em todo o mundo e cerca de 3% dos adultos, sendo associado a dificuldades acadêmicas, profissionais, sociais e emocionais. Em até 70% dos casos, os sintomas persistem além da adolescência.

Ao reunir décadas de evidências clínicas em uma única análise, o novo estudo estabelece um marco para a psiquiatria e a neurologia do desenvolvimento. A principal lição é que mais medicamento nem sempre significa melhor tratamento.

Em vez disso, a ciência aponta para uma estratégia mais precisa: identificar a dose capaz de maximizar benefícios sem ultrapassar o limite em que os riscos começam a superar os ganhos. Para milhões de pessoas com TDAH e para os profissionais responsáveis por seu cuidado, essa pode ser uma mudança de paradigma com efeitos duradouros na prática clínica global.


Referência
Intervenções farmacológicas para o TDAH: uma revisão sistemática e metanálise em rede de dose-efeito.  Psiquiatria da LancetVol. 13 No. 6 p485 Publicado: junho de 2026. Mikail Nourredine, Lucie Jurek, Tasnim Hamza, Andrea Cipriani, Fabien Subtil, Valeria Parlatinie outros. DOI: 10.1016/S2215-0366(26)00091-XLink externo

 

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