Gordura visceral 'imatura' pode ser a chave para explicar doença hepática que avança silenciosamente
Estudo internacional identifica falha na diferenciação de células do tecido adiposo abdominal como fator central para a esteatose hepática associada à disfunção metabólica; mecanismo ajuda a explicar por que o fígado acumula gordura e abre...

Imagem: Reprodução
Uma das doenças que mais crescem no mundo pode ter suas origens não apenas no fígado, mas também na gordura acumulada profundamente no abdômen. Um estudo publicado nesta quarta-feira (3), na revista científica Nature Communications, identificou que a incapacidade de células da gordura visceral amadurecerem adequadamente desempenha papel decisivo no desenvolvimento da doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD, na sigla em inglês), condição que afeta cerca de 38% da população adulta mundial e pode atingir mais de 55% até 2040.
A pesquisa foi liderada por cientistas da University of California, Los Angeles, Karolinska Institutet, University of Eastern Finland e outras instituições europeias e norte-americanas. O trabalho reuniu especialistas como Kyla Z. Gelev, Stefano Romeo, Jussi Pihlajamäki e Päivi Pajukanta.
Utilizando sequenciamento de RNA em núcleo único — uma das técnicas mais avançadas da biologia molecular — os pesquisadores analisaram milhares de células provenientes de tecidos adiposos de pacientes obesos submetidos à cirurgia bariátrica. O objetivo era compreender por que algumas pessoas acumulam gordura excessiva no fígado enquanto outras, mesmo com obesidade semelhante, não desenvolvem a doença.
A resposta surgiu na gordura visceral, aquela que envolve órgãos internos. Segundo os autores, os adipócitos — células responsáveis por armazenar gordura — apresentavam um grau reduzido de diferenciação, ou seja, permaneciam em um estado mais imaturo e menos eficiente para cumprir sua função biológica.
“Descobrimos que o grau previsto de diferenciação dos adipócitos da gordura visceral está diminuído em indivíduos com MASLD”, afirmam os pesquisadores no artigo. Esse fenômeno foi observado tanto em uma coorte inicial de pacientes quanto em um grupo independente de validação, reforçando a robustez dos resultados.
Quando a gordura deixa de armazenar gordura
O paradoxo identificado pelos cientistas é que o tecido adiposo existe justamente para armazenar lipídios de forma segura. Quando os adipócitos não amadurecem corretamente, essa capacidade diminui.
“Nossos resultados sugerem que os adipócitos viscerais de indivíduos com MASLD podem ser disfuncionais em sua capacidade de armazenar gordura adequadamente, promovendo o acúmulo ectópico de gordura no fígado”, escrevem os autores.
Em outras palavras, quando a gordura abdominal profunda perde eficiência, o excesso de lipídios procura outros destinos. O fígado torna-se então um dos principais depósitos, desencadeando inflamação, fibrose e, nos casos mais graves, cirrose e câncer hepático.
Os pesquisadores observaram ainda que pacientes com MASLD apresentavam níveis mais elevados de insulina e menor maturação dos adipócitos, reforçando a conexão entre resistência à insulina, obesidade e doença hepática.
Um subtipo celular chama atenção
A investigação revelou também a existência de um subtipo específico de adipócito, denominado hAd2, particularmente importante para o armazenamento de triglicerídeos e colesterol. Esse grupo celular apareceu reduzido em pacientes com formas mais graves da doença, conhecidas como MASH, caracterizadas por inflamação hepática significativa.
Ao mesmo tempo, aumentou a presença de outro subtipo, chamado hAd1, associado a características de células ainda em desenvolvimento e a processos relacionados à fibrose e remodelação tecidual.
“Os indivíduos com MASH parecem permanecer em um estágio intermediário de desenvolvimento celular”, destacam os autores. Isso significa que parte das células adiposas nunca alcança sua forma plenamente funcional.
Genética explica parte importante do risco
Talvez o dado mais impressionante do estudo seja o componente genético.
Os cientistas descobriram que variantes de DNA localizadas em genes relacionados à diferenciação dos adipócitos explicam aproximadamente 17% da herdabilidade associada à MASLD. Em algumas análises, esse percentual aproximou-se de 20%.
A descoberta foi possível graças ao cruzamento dos dados celulares com informações genéticas do banco britânico UK Biobank, que reúne dados de mais de 500 mil participantes.
Entre os genes destacados está o RANBP17, cuja atividade foi aumentada em pacientes com MASLD e MASH. A expressão desse gene é regulada por uma variante genética previamente associada ao índice de massa corporal e a múltiplos fatores metabólicos.
Mudança de paradigma
Historicamente, a pesquisa sobre esteatose hepática concentrou-se no próprio fígado. O novo estudo sugere uma inversão de perspectiva: parte importante da origem do problema pode estar na gordura visceral.

iStock/Iuliia Burmistrova
Segundo os autores, o fígado parece responder ao excesso de gordura aumentando processos de remodelação celular e síntese de lipídios, enquanto os adipócitos viscerais apresentam exatamente o comportamento oposto, tornando-se menos diferenciados e menos capazes de armazenar energia.
Essa visão integrada ajuda a explicar por que a obesidade nem sempre leva aos mesmos desfechos clínicos. Não é apenas a quantidade de gordura que importa, mas também sua qualidade biológica e funcionalidade.
O avanço ocorre em um momento crítico. A obesidade cresce em praticamente todos os continentes e a MASLD já é considerada uma das principais causas de doença hepática crônica no planeta.
Como a enfermidade costuma permanecer assintomática por anos, milhões de pessoas convivem com danos progressivos ao fígado sem diagnóstico. A identificação de novos mecanismos biológicos pode abrir espaço para terapias voltadas não apenas ao fígado, mas também à recuperação da função do tecido adiposo visceral.
Na conclusão do trabalho, os pesquisadores afirmam ter revelado uma ligação até então desconhecida entre a disfunção dos adipócitos viscerais e a suscetibilidade à MASLD. Mais do que um detalhe celular, trata-se de uma peça fundamental para compreender uma epidemia metabólica global que avança silenciosamente e ameaça se tornar um dos maiores desafios da medicina nas próximas décadas.
Referência
Gelev, KZ, Lee, SHT, Alvarez, M. et al. Diminuição do grau de diferenciação de adipócitos no tecido adiposo visceral contribui para a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73660-6