Saúde

A nova face da dengue no Brasil
Reaparecimento do sorotipo DENV-3 após 15 anos expõe milhões de brasileiros suscetíveis e acende alerta para formas graves da doença
Por Laercio Damasceno - 03/06/2026


Imagem: Reprodução


Depois de mais de uma década praticamente ausente do cenário epidemiológico nacional, um velho conhecido voltou a preocupar autoridades sanitárias e pesquisadores. O vírus da dengue sorotipo 3 (DENV-3) reapareceu no Brasil em 2023 e, em pouco mais de dois anos, espalhou-se por todas as regiões do país, impulsionado por uma nova linhagem viral que encontra uma população amplamente vulnerável. O resultado é um cenário que combina expansão geográfica acelerada, risco aumentado de casos graves e novos desafios para a vigilância epidemiológica e para as campanhas de vacinação.

A conclusão é de um amplo estudo publicado nesta terça-feira (2), na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, liderado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e de diversas instituições brasileiras. O trabalho analisou 87 novos genomas virais coletados em nove estados, combinados com centenas de sequências disponíveis internacionalmente, para reconstruir a trajetória da nova linhagem DENV-3 III_B.3.2 no território brasileiro.

“O ressurgimento do DENV-3 ocorre em um contexto particularmente preocupante de hiperendemismo”, afirmam os autores, liderados por Caroline do Nascimento Ferreira e Tiago Gräf, do Instituto Carlos Chagas da Fiocruz Paraná.

Casos confirmados de DENV-3 no Brasil entre 2023 e 2024. (a) Taxa de incidência inferida de casos de infecção por DENV-3 em municípios brasileiros por ano e por 100 mil habitantes. A taxa de incidência de DENV-3 foi estimada multiplicando-se o número de casos de dengue, confirmados por qualquer critério clínico ou laboratorial, pela proporção de DENV-3 detectados por meio de teste RT-qPCR. (b) Proporção mensal de sorotipos de DENV entre os casos de dengue confirmados por RT-qPCR entre 2023 e 2025 por região brasileira.

Segundo o estudo, o DENV-3 representou menos de 1% dos casos de dengue durante grande parte da década de 2010. Essa ausência prolongada criou uma geração inteira sem imunidade contra o sorotipo. Os pesquisadores estimam que cerca de 40 milhões de brasileiros com menos de 15 anos nunca tiveram contato com o vírus, tornando-se especialmente suscetíveis à infecção.

Uma invasão silenciosa

A investigação genômica revelou que o avanço do DENV-3 não ocorreu a partir de uma única entrada no país. Os cientistas identificaram pelo menos 14 introduções independentes da linhagem III_B.3.2 entre 2023 e 2024. Dessas, seis deram origem a grandes cadeias de transmissão regionais.

As análises filogenéticas indicam que boa parte dessas introduções teve origem no Caribe. Cuba, República Dominicana, Costa Rica e Guiana aparecem como prováveis pontos de partida para diferentes linhagens que chegaram ao Brasil.

O estado de São Paulo desempenhou papel central na disseminação nacional. Por concentrar os principais hubs rodoviários e aeroportuários do país, tornou-se uma espécie de plataforma de redistribuição viral para estados como Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná.

“O intenso fluxo de mobilidade humana está diretamente ligado à transmissão de agentes infecciosos”, observam os pesquisadores ao explicar o padrão de expansão identificado.

Outro achado importante foi a descoberta de longos períodos de circulação silenciosa. Em São Paulo, por exemplo, o vírus circulava aproximadamente oito meses antes da identificação dos primeiros casos confirmados. Em Minas Gerais, a circulação oculta durou cerca de sete meses; no Paraná, cinco meses.

Mais que um novo surto

A preocupação dos especialistas não se resume à expansão geográfica. O estudo avaliou também a gravidade clínica das infecções causadas pelos diferentes sorotipos da dengue.

Utilizando dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) entre 2023 e 2025, os pesquisadores aplicaram modelos estatísticos para comparar o risco de evolução para formas graves da doença. O resultado mostrou que infecções por DENV-2 e DENV-3 apresentaram probabilidade significativamente maior de desenvolver dengue grave quando comparadas ao DENV-1.

Os valores de risco variaram entre 1,24 e 1,71 para o DENV-2 e entre 1,47 e 1,94 para o DENV-3, dependendo do estado analisado. Em São Paulo, o DENV-3 demonstrou risco ainda superior ao do DENV-2.

A pesquisa também confirmou fatores já conhecidos associados ao agravamento da doença. Crianças pequenas, idosos e pessoas com comorbidades apresentaram maior probabilidade de evolução para quadros graves.

O papel das infecções anteriores

Uma das hipóteses investigadas envolve o fenômeno conhecido como amplificação dependente de anticorpos (ADE). Nesse mecanismo, uma pessoa previamente infectada por um sorotipo pode desenvolver resposta imunológica inadequada ao contrair um sorotipo diferente, aumentando o risco de formas graves.

Para testar essa possibilidade, os pesquisadores analisaram separadamente crianças de até dois anos de idade, grupo com menor probabilidade de já ter sido infectado anteriormente.

Os resultados mostraram que o DENV-2 continuou associado ao aumento da gravidade mesmo nesse grupo, sugerindo que seu potencial de causar formas severas não depende apenas de infecções anteriores. Já para o DENV-3, os resultados não alcançaram significância estatística, possivelmente devido ao número reduzido de casos disponíveis para análise.

“São necessários estudos adicionais para esclarecer até que ponto sorotipos específicos contribuem diretamente para a gravidade da doença”, destacam os autores.

Desafio para as vacinas

O retorno do DENV-3 ocorre justamente quando o Brasil amplia a utilização de vacinas contra a dengue no Sistema Único de Saúde.

Mas existe uma preocupação científica relevante. Como o sorotipo 3 circulou muito pouco durante os ensaios clínicos das principais vacinas disponíveis, a eficácia específica contra essa variante ainda não pôde ser avaliada com a mesma robustez observada para os sorotipos 1 e 2.


Para Tiago Gräf e seus colegas, o cenário exige vigilância permanente. O fortalecimento da testagem molecular, da vigilância genômica e da padronização dos sistemas de diagnóstico entre os estados será fundamental para acompanhar a evolução da nova linhagem e medir o desempenho das estratégias de imunização.

Um alerta para o futuro

O estudo oferece uma das radiografias mais completas já produzidas sobre a reemergência do DENV-3 no Brasil. Mais do que documentar a chegada de uma nova linhagem viral, ele mostra como a combinação entre mobilidade humana, suscetibilidade populacional e circulação simultânea de múltiplos sorotipos pode transformar rapidamente o perfil epidemiológico da dengue.

Num país que registrou recordes históricos de casos nos últimos anos, a volta do DENV-3 representa um teste decisivo para a capacidade de resposta do sistema de saúde. E a mensagem dos pesquisadores é inequívoca: sem vigilância contínua e monitoramento genômico permanente, a próxima grande onda da dengue poderá ser ainda mais severa do que as anteriores.


Referência
Epidemiologia genômica do sorotipo 3 da linhagem 3III_B.3.2 do vírus da dengue no Brasil: perspectivas sobre sua disseminação e gravidade da dengue em meio à cocirculação de múltiplos sorotipos da dengue. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 61 101521 Publicado: 2 de junho de 2026. Grupo de estudo do DENV. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101521

 

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