Saúde

Brasil vê suicídios dispararem enquanto rede de saúde mental mostra efeito protetor
Estudo nacional com mais de 174 mil mortes revela aumento de 66,7% na taxa de suicídios desde 2009 e aponta que municípios com melhor infraestrutura de saúde e mais CAPS registram índices menores
Por Laercio Damasceno - 03/06/2026


Imagem: Reprodução


O suicídio avança silenciosamente pelo território brasileiro. Em apenas 15 anos, a taxa nacional cresceu 66,7%, transformando-se em um dos mais preocupantes desafios de saúde pública do país. A constatação emerge de um amplo estudo publicado na nesta quarta-feira (3), revista científica The Lancet Regional Health – Americas, que analisou mais de 174 mil mortes por suicídio registradas entre 2009 e 2023 e investigou, pela primeira vez em escala nacional, como a infraestrutura de saúde influencia esse fenômeno.

A pesquisa foi conduzida por Caibe Alves Pereira, Juliana Minardi Nascimento, Mateus Grellert da Silva, Jônata Tyska Carvalho e Manuella Pinto Kaster, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O trabalho reuniu dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números impressionam. Em 2009, a taxa nacional era de 4,5 mortes por 100 mil habitantes. Em 2023, alcançou 7,6 por 100 mil. O aumento ocorreu em todas as regiões brasileiras, mas foi especialmente intenso no Norte, onde a elevação chegou a 124,4%, seguido do Nordeste, com crescimento de 89,2%.

"O estudo mostra que a disponibilidade de serviços de saúde, especialmente aqueles voltados para a atenção básica e saúde mental, está associada a menores taxas de suicídio", afirmam os autores na discussão do trabalho.

Associação entre taxas de suicídio e CAPS no Brasil. Os painéis (a) e (b) mostram, respectivamente, o número de CAPS e a taxa cumulativa de suicídio para cada cidade. O painel (c) apresenta um mapa combinado sobrepondo ambos os conjuntos de dados. Cores mais escuras indicam valores no percentil 99. O painel (d) descreve a distribuição dos CAPS entre as cidades por ano, agrupados em categorias de baixa, moderada e alta taxa de suicídio. CAPS, Centros de Atenção Psicossocial.

Um retrato preocupante

Entre os 174.038 suicídios registrados no período, a região Sudeste concentrou o maior número absoluto de mortes, com 64.319 casos. Entretanto, a maior taxa acumulada foi observada no Sul, que atingiu 9,2 mortes por 100 mil habitantes — muito acima da média nacional de 5,7.

O perfil das vítimas também revela padrões persistentes. Homens morreram por suicídio numa proporção 3,6 vezes superior à das mulheres. A faixa etária mais atingida nacionalmente foi a dos 40 aos 59 anos, embora existam diferenças regionais marcantes. No Sul, os idosos aparecem com peso maior nas estatísticas, enquanto Norte e Centro-Oeste registram incidência elevada entre jovens adultos de 20 a 29 anos.

Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores foi a vulnerabilidade de populações indígenas. Em algumas regiões, as taxas observadas nesse grupo foram substancialmente superiores às verificadas entre outros segmentos populacionais.

O método mais frequente foi o enforcamento ou asfixia, responsável por mais de 70% das mortes no país. Intoxicação e armas de fogo aparecem em seguida, variando conforme a região.

Inteligência artificial identifica fatores protetores

Um dos aspectos mais inovadores da pesquisa foi o uso de inteligência artificial para compreender a relação entre a estrutura de saúde e as taxas de suicídio.

Os cientistas utilizaram algoritmos de aprendizado de máquina para analisar milhares de municípios brasileiros e identificar quais elementos da rede assistencial estavam mais associados às diferentes categorias de risco.

Os modelos alcançaram índices de acerto entre 72% e 79%, desempenho considerado robusto para estudos populacionais dessa escala.

Entre os fatores mais relevantes surgiram:

- número de estabelecimentos vinculados ao SUS;
- quantidade de profissionais de saúde;
- unidades básicas de saúde;
- serviços especializados;
- presença de médicos, enfermeiros e dentistas;
- centros de atenção psicossocial (CAPS).

Segundo os autores, praticamente todos esses indicadores apresentaram correlação negativa com as taxas de suicídio. Em outras palavras, quanto maior a disponibilidade desses recursos, menores tendiam a ser os índices observados.

CAPS aparecem como peça-chave

O resultado mais contundente do estudo envolve os Centros de Atenção Psicossocial, conhecidos como CAPS.

Criados no contexto da reforma psiquiátrica brasileira, os CAPS são considerados a principal porta de entrada da assistência comunitária em saúde mental. Atualmente existem 3.019 unidades distribuídas em 2.194 municípios brasileiros.

A análise mostrou que municípios com maior disponibilidade desses centros apresentaram sistematicamente menores taxas de suicídio. A correlação negativa tornou-se ainda mais forte ao longo do tempo, indicando que a expansão da rede pode estar associada à redução do risco populacional.

"Uma maior concentração de CAPS tende a apresentar menores taxas de suicídio, independentemente da região brasileira", destacam os pesquisadores.


Para a coordenadora do estudo, Manuella Pinto Kaster, da UFSC, os resultados reforçam a importância de ampliar a cobertura desses serviços e fortalecer sua integração com a atenção básica. O objetivo é transformar a prevenção em uma política contínua e territorializada, capaz de alcançar populações vulneráveis antes que crises se agravem.

Um desafio histórico para o Brasil

O estudo também insere o problema em um contexto mais amplo. Enquanto as taxas globais de suicídio vêm apresentando queda nas últimas décadas, as Américas seguem trajetória oposta. Entre 2000 e 2021, a região registrou aumento de 17%, tornando-se exceção no cenário mundial.


No caso brasileiro, o crescimento já havia sido identificado em pesquisas anteriores, mas a nova investigação amplia a compreensão do fenômeno ao demonstrar que a qualidade da infraestrutura de saúde pode desempenhar papel decisivo.

Os autores alertam, contudo, que o suicídio não pode ser explicado apenas pelos serviços de saúde. Fatores como desemprego, desigualdade social, urbanização, uso de substâncias, acesso a meios letais e condições socioeconômicas também influenciam fortemente o risco.

O que fazer agora

A principal mensagem do estudo é clara: ampliar o acesso à saúde mental e fortalecer a atenção básica não são apenas medidas assistenciais, mas estratégias de prevenção capazes de salvar vidas.

Para os pesquisadores, políticas públicas voltadas à expansão dos CAPS, programas escolares de prevenção, fortalecimento das equipes comunitárias e redução das desigualdades regionais devem integrar uma agenda nacional urgente.

Em um país onde mais de 174 mil pessoas perderam a vida por suicídio em apenas uma década e meia, a pesquisa oferece uma evidência poderosa: o enfrentamento dessa crise passa não apenas pelos consultórios de psiquiatria, mas pela construção de uma rede de saúde pública acessível, capilarizada e preparada para acolher o sofrimento antes que ele se transforme em tragédia.


Referência
Análise da infraestrutura de saúde e taxas de suicídio no Brasil: um estudo ecológico espaço-temporal em âmbito nacional, 2009–2023. The Lancet Saúde Regional – AméricasVol. 60 101519 Publicado: 3 de junho de 2026. Caibe Alves Pereira, Juliana Minardi Nascimento, Mateus Grellert da Silva, Jônata Tyska Carvalho, Manuella Pinto Kaster. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101519

 

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