Saúde

Cérebro sob rastreamento molecular
Nova técnica de imagem revela, em pacientes com doença de Huntington, sinais microscópicos da degeneração cerebral décadas antes dos sintomas mais graves
Por Laercio Damasceno - 04/06/2026


Imagem: Reprodução


Uma equipe internacional de cientistas apresentou uma das evidências mais detalhadas já obtidas sobre a destruição progressiva das células cerebrais na doença de Huntington, enfermidade genética rara e fatal que afeta movimento, cognição e comportamento. Utilizando uma tecnologia avançada de ressonância magnética chamada SANDI (Soma and Neurite Density Imaging), os pesquisadores conseguiram mapear, em pessoas vivas, alterações microscópicas associadas à perda neuronal e à inflamação cerebral, fenômenos que até recentemente só podiam ser observados após a morte, em análises histológicas.

O estudo, publicado nesta quinta-feira (3), na revista científica eLife, foi liderado por Vasileios Ioakeimidis e Claudia Metzler-Baddeley, reunindo pesquisadores da Cardiff University, King's College London, centros clínicos britânicos e instituições europeias. O trabalho avaliou 56 pacientes com Huntington e 57 voluntários saudáveis utilizando um dos mais sofisticados sistemas de ressonância magnética disponíveis atualmente.

A doença de Huntington é causada por uma mutação hereditária no gene HTT. Embora afete aproximadamente 12 pessoas a cada 100 mil habitantes, tornou-se um modelo importante para compreender outras enfermidades neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, por compartilhar mecanismos relacionados ao acúmulo de proteínas anormais e à morte neuronal progressiva.

O principal avanço do estudo está na capacidade da técnica SANDI de estimar características celulares dentro do cérebro vivo. Diferentemente dos exames convencionais, que medem principalmente a perda de volume cerebral, a nova abordagem consegue inferir mudanças relacionadas à densidade dos corpos celulares neuronais, ao tamanho dessas estruturas e ao espaço extracelular que surge à medida que neurônios desaparecem.

Os resultados mostraram reduções significativas na chamada densidade aparente dos somas — estruturas que correspondem ao corpo principal dos neurônios — em regiões centrais do cérebro conhecidas como gânglios da base. Paralelamente, os pesquisadores observaram aumento do tamanho aparente dessas células e expansão do espaço extracelular, um padrão compatível com perda neuronal e ativação de células inflamatórias.

“Os índices obtidos pelo SANDI detectaram neurodegeneração relacionada à doença de Huntington, explicaram uma parcela substancial da atrofia cerebral e apresentaram correlação com déficits motores”, afirmam os autores nas conclusões do estudo.

Segundo os pesquisadores, os achados são consistentes com décadas de evidências neuropatológicas demonstrando a morte progressiva dos chamados neurônios espinhosos médios, as células mais vulneráveis à doença. Além disso, as alterações observadas sugerem intensa participação de células gliais, responsáveis pelas respostas inflamatórias no cérebro.

O impacto funcional dessas mudanças também ficou evidente. Os participantes realizaram uma bateria de testes motores envolvendo movimentos ritmados dos dedos, pés e tarefas de coordenação. Os indivíduos com menor densidade celular aparente e maiores sinais de inflamação microscópica apresentaram desempenho motor significativamente pior.

Uma das descobertas mais relevantes foi a forte relação entre os biomarcadores microscópicos e a atrofia cerebral. Em algumas regiões do estriado — área crítica para o controle dos movimentos — os índices derivados do SANDI explicaram até 63% da perda de volume observada nos pacientes.

Para Claudia Metzler-Baddeley e colaboradores, esse resultado sugere que a técnica não apenas detecta danos cerebrais, mas também ajuda a compreender os mecanismos celulares que produzem a degeneração observada nas imagens convencionais.

O momento da descoberta é particularmente importante porque coincide com uma fase de intensa busca por tratamentos capazes de modificar a progressão da doença. Diversos ensaios clínicos estão em andamento no mundo, incluindo terapias genéticas destinadas a reduzir os efeitos da mutação causadora do Huntington. Entretanto, uma das maiores dificuldades desses estudos é medir rapidamente se os tratamentos realmente estão protegendo o cérebro.

“Há uma necessidade crescente de marcadores biológicos sensíveis que permitam avaliar os efeitos terapêuticos sobre a neurodegeneração”, destacam os autores.


Embora a pesquisa tenha utilizado um equipamento de ressonância magnética de altíssimo desempenho, os cientistas ressaltam que trabalhos recentes já demonstraram a viabilidade da técnica em aparelhos clínicos convencionais. Isso aumenta as perspectivas de adoção futura em hospitais e centros de pesquisa.

Os autores também acreditam que o impacto da metodologia poderá ultrapassar o campo da doença de Huntington. Como os mecanismos de perda neuronal e inflamação estão presentes em diversas enfermidades neurodegenerativas, o SANDI poderá tornar-se uma ferramenta valiosa para investigar doenças como Alzheimer, Parkinson e esclerose lateral amiotrófica.


Ao final, a equipe conclui que a técnica representa um passo importante para aproximar a neuroimagem clínica da biologia celular real do cérebro humano. Em vez de registrar apenas as consequências tardias da doença, como a redução do volume cerebral, os pesquisadores agora conseguem observar sinais muito mais próximos dos processos que efetivamente destroem os neurônios.

Para uma enfermidade que pode começar silenciosamente décadas antes dos sintomas incapacitantes, essa capacidade de enxergar a degeneração em escala microscópica pode transformar a forma como cientistas monitoram a progressão da doença e avaliam futuras terapias.


Referência
Vasileios Ioakeimidis, Marco Palombo, Chiara Casella, Lucy Layland, Carolyn B McNabb, Robin Schubert, Filipe Pallmann, Mônica E Busse, Cheney JG Drew, Sundus Alusi, Timothy Harrower, Jane Davies, Anne E Rosser, Claudia Metzler-Baddeley, 2025. Mapeamento in vivo da neurodegeneração estriatal na doença de Huntington com imagens de densidade de soma e neuritos eLife 14 : RP107661
https://doi.org/ 10.7554/eLife.107661.2

 

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