Proteína mitocondrial emerge como novo alvo contra leucemia agressiva e reacende esperança por terapias mais eficazes
Estudo internacional identifica papel central da PGAM5 no metabolismo da leucemia mieloide aguda e mostra como a proteína ajuda células tumorais a crescer, sobreviver e resistir ao tratamento

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Uma proteína pouco explorada na pesquisa oncológica pode estar escondendo uma das chaves para o crescimento da leucemia mieloide aguda (LMA), um dos cânceres sanguíneos mais agressivos e difíceis de tratar. Cientistas da Universidade Médica do Sudoeste da China, da Universidade Médica de Anhui e da Universidade Central do Sul identificaram que a proteína PGAM5 atua como um regulador central do metabolismo tumoral, permitindo que células leucêmicas obtenham energia para proliferar e escapar da morte celular.
Os resultados foram publicados na revista científica Scientific Reports e revelam um mecanismo até então desconhecido que conecta a PGAM5 à via molecular PI3K/AKT/mTOR, uma das principais rotas biológicas associadas ao crescimento de tumores humanos.
O trabalho foi liderado por Guangfeng He, Yewei Xiao, Yu Wang, Qian Peng, Shiqiang Hou e Chunjing Jin, pesquisadores vinculados a instituições médicas chinesas especializadas em hematologia e biologia molecular.
A leucemia mieloide aguda afeta a medula óssea e provoca a produção descontrolada de células sanguíneas imaturas. Apesar dos avanços recentes com terapias direcionadas, o prognóstico permanece desafiador. Segundo os autores, a taxa de sobrevida global em cinco anos continua abaixo de 30%, especialmente entre pacientes idosos e grupos de alto risco genético.
“Nossos achados demonstram que a alta expressão de PGAM5 desempenha papel crítico na manutenção do fenótipo maligno das células de leucemia mieloide aguda”, afirmam os pesquisadores na conclusão do estudo.
O combustível do câncer
Nas últimas décadas, cientistas descobriram que muitos tumores alteram profundamente a forma como produzem energia. Em vez de utilizar mecanismos metabólicos mais eficientes, as células cancerosas passam a consumir glicose em ritmo acelerado e convertem grande parte dela em lactato, mesmo quando há oxigênio disponível. O fenômeno é conhecido como “efeito Warburg” e constitui uma das marcas registradas do câncer moderno.
No novo estudo, os pesquisadores verificaram que a PGAM5 funciona como um acelerador desse processo metabólico na leucemia. A proteína estimula a glicólise — mecanismo de quebra da glicose para geração rápida de energia — favorecendo a sobrevivência e multiplicação das células malignas.
Análises de bancos de dados genômicos mostraram que a expressão de PGAM5 é significativamente maior em pacientes com leucemia mieloide aguda do que em indivíduos saudáveis. Além disso, pacientes com níveis elevados da proteína apresentaram prognóstico pior e menor sobrevida global.
Os pesquisadores também identificaram uma correlação positiva entre a presença da PGAM5 e características associadas às chamadas células-tronco tumorais, consideradas responsáveis pela recorrência e resistência da doença.
Interrompendo a engrenagem tumoral
Para entender o papel da proteína, a equipe utilizou técnicas de silenciamento genético em duas linhagens de células leucêmicas humanas, THP-1 e MOLM-13. Quando a produção de PGAM5 foi reduzida artificialmente, os efeitos foram imediatos.
As células passaram a proliferar menos, apresentaram bloqueio do ciclo celular e registraram aumento expressivo dos índices de apoptose — o processo natural de morte celular programada.
Os experimentos revelaram ainda que a ausência da proteína diminuiu o consumo de glicose, reduziu a produção de ATP — a principal moeda energética das células — e derrubou os níveis de lactato. Em outras palavras, o metabolismo tumoral perdeu eficiência.
“Esses resultados revelam que a PGAM5 é um importante regulador do metabolismo glicolítico nas células de leucemia mieloide aguda”, destacam os autores.
A rota molecular por trás da doença
O aspecto mais relevante da descoberta está na identificação do mecanismo responsável por esses efeitos.
Os cientistas observaram que a PGAM5 ativa a via PI3K/AKT/mTOR, considerada uma das principais rotas de sinalização celular associadas ao crescimento tumoral em diversos tipos de câncer. Quando essa via é ativada, ocorre aumento da expressão de proteínas que favorecem a absorção de glicose e aceleram a produção de energia.
O estudo mostrou que a redução da PGAM5 diminuiu a ativação de componentes centrais dessa via, como PI3K, AKT e mTOR.
Para confirmar a relação causal, os pesquisadores administraram às células um ativador químico da PI3K chamado 740Y-P. O composto restaurou parcialmente o metabolismo tumoral e reduziu os efeitos antitumorais provocados pelo bloqueio da PGAM5.
Segundo os autores, esse resultado fornece evidência direta de que a proteína exerce seu efeito pró-câncer por meio da ativação da via PI3K/AKT/mTOR e do aumento subsequente da glicólise.
Potencial terapêutico
Embora os resultados tenham sido obtidos em modelos celulares e análises computacionais, especialistas consideram que a descoberta amplia significativamente o conhecimento sobre os mecanismos biológicos da leucemia mieloide aguda.
A PGAM5 já havia sido associada anteriormente a tumores de fígado, rim, esôfago e colorretal, mas seu papel na leucemia permanecia praticamente desconhecido.
Agora, a proteína surge como possível biomarcador prognóstico e candidata a alvo terapêutico. A expectativa é que futuras pesquisas desenvolvam moléculas capazes de bloquear especificamente sua atividade, eventualmente em combinação com medicamentos já utilizados no tratamento da doença.
Os próprios autores reconhecem limitações importantes. Os experimentos foram realizados apenas em duas linhagens celulares pertencentes ao subtipo M5 da doença e ainda não incluíram amostras primárias de pacientes nem testes em células hematopoiéticas normais.
Mesmo assim, o estudo oferece um novo mapa molecular para pesquisadores que buscam alternativas terapêuticas diante de uma doença que continua entre os maiores desafios da hematologia moderna.
Ao revelar como uma única proteína é capaz de reorganizar o metabolismo das células cancerosas, a pesquisa reforça uma tendência crescente da oncologia contemporânea: combater o câncer não apenas atacando mutações genéticas, mas também cortando o suprimento energético que sustenta sua sobrevivência. Nesse cenário, a PGAM5 pode representar um dos alvos mais promissores da próxima geração de tratamentos contra a leucemia mieloide aguda.
Referência
He, G., Xiao, Y., Wang, Y. et al. Revelando o novo papel do PGAM5 na reprogramação do metabolismo através da sinalização PI3K/AKT/mTOR na leucemia mielógena aguda. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-55582-x